Sociedade

“Grande lixeira” estende-se ao Cambiote

Fernando Cunha

Jornalista

São seis horas da manhã. Os habituais primeiros raios solares do dia ainda não despontam. A madrugada foi de chuva intensa sobre a cidade do Huambo e arredores. Mas o mau tempo não impediu a descida de Ramiro Vitongue e sua família, residentes no bairro do Sassonde, à baixada da floresta do Sacaála.

10/12/2020  Última atualização 14H25
Centenas de famílias buscam todos os dias o sustento num espaço que ficou conhecido como “a grande lixeira” © Fotografia por: Fernando Cunha | Edições Novembro
A descida tem um destino: a grande lixeira a céu aberto. A mesma se estende da rua que sai da zona da Tchitutula à ponte do rio Kulimahalã, em direcção ao bairro do Cambiote. Faz este trajecto todos os dias, em busca de sustento para os seus filhos, num espaço que ele próprio denomina de "a grande lixeira”.
A exemplo dele, pelo menos mais 100 famílias conseguem ali o "ganha-pão”, colhendo garrafas de plástico e de vidro,  papelões e outras espécies de "quinquilharias” que, depois de bem separadas, são vendidas a preço módico para grupos de comerciantes interessados no produto.  

Numa altura em que os índices de pobreza nas comunidades do país crescem assustadoramente, em tempo de pandemia da Covid-19, mais assustador torna-se a forma como estes cidadãos ganham a vida, colocando em risco a continuidade das suas existências. É enorme o risco que correm em apanhar doenças "letais” como a malária, o surto que mais gente mata, principalmente crianças, em toda Angola.     

Dados oficiais apontam que, até Junho passado, a província do Huambo chegou a registar cerca de trezentos mil casos, um aumento em torno de 20 por cento, comparado aos registos oficiais do ano de 2019. Mas os números estatísticos, avançados pelo Gabinete Provincial da Saúde, não intimidam a população que vive da recolha de resíduos sólidos na "grande lixeira” da floresta do Sacaála.
"Já tive dois parentes adultos que morreram de malária entre 2017 e 2019, por altura das grandes chuvas. Mas as dificuldades que vivemos no dia-a-dia obrigam a continuar esta actividade aqui na lixeira, porque a nossa condição de pobreza é elevada”, afirma Ramiro Vitongue.

A "grande lixeira” da zona do Sacaála recebe, todos os dias, centenas de toneladas de lixo, que são produzidas maioritariamente pela população que reside no casco urbano da cidade do Huambo, e na centralidade do Lossambo.
Estes resíduos sólidos não recebem das autoridades o devido tratamento, sendo que a população aproveita-se da exposição do mesmo, espalhado ao longo dos quatro quilómetros da via, para "safar”, como justificam, a vida.  

Tratamento do lixo custa 200 milhões

O serviço de recolha e tratamento do lixo, na cidade do Huambo, custa em torno de 150 a 200 milhões de kwanzas mês. Os números foram avançados, em finais do mês de Setembro, pelo administrador do município do Huambo, João Manuel Calão Figueiredo "Joca”, durante uma mesa redonda sobre a problemática, promovida pela Rádio Huambo, em que participaram diferentes actores da sociedade.

Na altura, o edil do município apontou que o montante seria o ideal para a realização cabal do serviço de recolha e tratamento dos resíduos sólidos da cidade, mas garantiu que tais valores não eram disponibilizados, devido à situação orçamental que o país ainda atravessa.

O Programa Integrado de Desenvolvimento Local e Combate à Pobreza (PIDLCP) constitui, também, um recurso importante para as administrações municipais, ao prever uma linha adicional de 25 milhões de kwanzas de financiamento mensal aos municípios.
O valor é insignificante para a cobertura desta despesa, daí, apontou o administrador João Calão Figueiredo "Joca”, a direcção do município tem estado a trabalhar com diferentes franjas da sociedade huambuense, na busca de melhores soluções para resolver o assunto.

Um dos pontos defendidos pelo administrador, na mesa redonda, passa pela comparticipação dos munícipes que vivem, quer no casco urbano, quer na periferia da cidade, mediante o pagamento de uma "quota de saneamento”, a exemplo do que se verifica na centralidade do Lossambo, onde os dois mil e nove habitantes, que nela vivem ou realizam actividades comerciais, desembolsam o valor de dois mil e quinhentos kwanzas.

O projecto, segundo explicou, encontra-se à consideração das entidades superiores, pode não resolver, definitivamente, o problema inerente a recolha e tratamento dos resíduos sólidos, mas vai ajudar bastante.
Na centralidade do Lossambo, que possui 1.482 apartamentos, 184 moradias térreas, 343 residências de dois pisos e ainda noventa instalações comerciais, os moradores consideram a cobrança ilegal, porque a mesma se encontra desprovida de qualquer mecanismo jurídico, produzido por uma instância competente.

O processo funciona desde Junho de 2016, sendo que, mensalmente, a administração tributária, por via da factura de cobrança de água, chega a arrecadar o montante de cinco milhões e vinte e dois mil e quinhentos kwanzas, valor que, somado aos meses que compõem cada ano civil, perfaz um total de 60 milhões e 270 mil kwanzas.

Dois milhões de habitantes

A província do Huambo, cuja capital ostenta o mesmo nome, tem hoje uma população estimada em dois milhões de habitantes – embora o senso populacional de 2014, aponte para 815 mil e 685 cidadãos. É, geo-estratégicamente a terceira do país a seguir a Luanda e Benguela.

Com uma área territorial de 2.609 quilómetros quadrados, é uma província de grandes reinos coloniais da região central de Angola, cuja capital teve, entre 1928 e 1975, a designação oficial de Nova Lisboa por, segundo historiadores, ter um clima e beleza muito semelhantes à capital portuguesa.

Huambo chegou a ter, até 1992, o segundo maior parque industrial do país, empregando directamente mais de três mil pessoas, e criando, com o seu funcionamento, o dobro de empregos em toda a região do Planalto Central.
Com o despoletar da guerra pós-eleitoral naquele ano, por todo o país, a região planáltica acabou por ser das mais afectadas, ao ponto de as indústrias símbolos, terem os seus espólios patrimoniais completamente destruídos.

Hoje, independentemente das dificuldades socioeconómicas que o Estado atravessa, a nobre população da província trabalha, incessantemente, na recuperação do estatuto produtivo que o possa colocar novamente na rota do desenvolvimento económico do país. 

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