Reportagem

Governo da Huíla quer mais acções sociais

Leonel Kassana

Jornalista

O governador provincial da Huíla, Nuno Mahapi Dala, defendeu, no Lubango, durante um encontro com um grupo de jornalistas, convidados pela Revista Angola Minas, que os recursos minerais explorados na região devem contribuir para o bem-estar da população local, em primeiro lugar e, depois, para o crescimento e desenvolvimento sustentável do país.

09/11/2021  Última atualização 08H55
Governador Nuno Mahapi ao meio , Jose Dias DG da Granisul , Fernando Santos, da Marlin © Fotografia por: DR
Nuno Mahapi Dala disse ser fundamental que a população sinta, de facto, o impacto positivo da riqueza do país na sua vida, com a disponibilidade de postos de trabalho e o empoderamento económico dos cidadãos nas zonas de exploração mineira.



Disse ser necessário, para a consecução desses objectivos, que as diferentes empresas envolvidas na exploração dos recursos minerais, em particular, observem o cumprimento rigoroso daquilo que são as responsabilidades sociais junto das comunidades. "Nos contratos de exploração dos recursos minerais, as empresas têm a obrigação de definir provisões (reservas financeiras) para atender as questões de responsabilidade social, junto das comunidades”, sublinhou.


Nuno Mahapi Dala referiu que o Governo Provincial está a desenvolver um trabalho de "levantamento completo, para a avaliação das actividades das empresas mineiras a favor das comunidades, no quadro do cumprimento cabal das obrigações sociais. Garantiu, para breve, visitas a algumas empresas mineiras, para com os operadores apontar soluções locais e dinamizar o sector.


O governador advogou um trabalho conjunto com as empresas, para encontrar uma estratégia que leva a transformação das rochas ornamentais, no país, no lugar da sua exportação em bruto. "A transformação do granito localmente traz mais-valia e valor acrescentado ao país, dando mais emprego aos cidadãos e aumenta o volume de arrecadação de divisas, porque a exportação do produto acabado é mais rentável”, reconheceu o engenheiro Nuno Mahapi Dala.


Preço do "Negro Angola” cai

O preço do granito negro angolano tem vindo a cair drasticamente no mercado internacional, estando actualmente cotado em cerca de 500 dólares o metro cúbico, contra 1.200 a 1.400 no passado.


A queda é atribuída à actuação, no mercado, de empresas que não respeitam a marca "Negro Angola”, como referiu o director-geral da Granisul, empresa que há cerca de onze anos se dedicada à exploração, produção, corte e polimento de grito na Região Sul de Angola.


José Dias referiu em declarações a jornalistas no Lubango que, actualmente, para se vender a 500 ou 600 dólares é uma "briga muito grande”, preferindo a companhia reservar-se e aguardar-se pela melhor clarificação do mercado. "Estamos à espera de melhor oportunidade, apesar de termos capacidade bastante de produção”, sublinhou.


Com pedreiras próprias nas províncias da Huíla, Namibe e Cunene, a Granisul pretende abrir outras explorações, o que lhe colocaria como uma das principais empresas do sector no país. Nesta altura, nas pedreiras do Chicutiti  explora o "Negro Angola” e na do Caraculo o "Cinza Caraculo”.


Na unidade de processamento de granito, situada na zona industrial da Arimba, arredores do Lubango, estão instaladas duas linhas de produção, a standard, para a produção de ladrilho com espessura de um a dois centímetros, mais utilizadas na construção civil e outras para o chão ou erguer paredes, explicou José Dias.


Conhecido professor de Física, o director-geral da Granisul indicou que na segunda linha de produção, são colocados e cerrados totalmente dois blocos, com uma média de onze metros cúbicos, o equivalente a 35 toneladas cada. "Cerramos os blocos na totalidade da altura, fazendo, depois, chapas que são polidas e divididas e, em função dos pedidos dos clientes, fazemos degraus, balcões de cozinha, campas, enfim tudo o que for feito em pedra”, adiantou.


José Dias disse que a Granisul está a produzir à volta de 12 por cento da capacidade instalada, algo como cerca de 12 mil metros quadrados de material polido por mês. "Não temos problemas de produção”, acentuou, indicando que o mercado se retraiu bastante com a Covid- 19.


Nos últimos três anos, só temos vindo a reduzir as vendas, sublinhou, acrescentando que a produção anda à volta dos 800 mil metros quadrados por semana, sendo que nem tudo é vendido. Alguma coisa fica em stock.


Selectividade nas exportações


O director-geral da Granisul faz um paralelismo com a nova política adoptada para a comercialização dos diamantes angolanos, para a qual foi criada uma entidade que controla a exportação, do que resulta a sua valorização. "O preço do diamante subiu e, provavelmente, vai ter que se fazer isso com o granito "Negro Angola”, para não se perder a reputação dessa marca no mercado internacional”, sublinhou José Dias.


Recordou que no passado, havia poucas empresas a exportar o "Negro Angola”, ressalvando Portugal que "levou bastante granito do Quipungo”. "Fazia-se com facilidade a exportação, depois viu-se no granito uma forma de exportação de dividendos”, adiantou.
Clarificando, "as pessoas tinham muitos kwanzas, que precisavam de converter em divisas, muitos exportaram o granito sem ter com ele muita ligação e isso se reflectiu, seriamente, na baixa do preço do "Negro Angola”. A pressão do mercado foi muito grande devido ao aumento da oferta.


A Granisul é uma das dezasseis empresas que exploram rochas ornamentais na província da Huíla. Temos como principais clientes as empresas de construção, sobretudo a OMATAPALO, com obras em Luanda.


"Todas as empresas de construção têm vindo a comprar pedra a Granisul”, reforçou José Dias, indicando que a companhia privilegia a protecção social dos trabalhadores, além de obras para o benefício das comunidades, como construção de escolas, abertura de furos de água, além da disponibilidade de empregos. e outras.


Contentores são uma limitante à exportação

Na localidade da Quihita, município da Chibia, a empresa mineira Rupsil lamenta a insuficiência de contentores para o transporte de blocos destinados à exportação. Só no primeiro semestre, pelo menos 9.19 blocos de granito negro, dos 2.210 blocos não foram exportados.


Estes são dados revelados pelo director-adjunto dessa companhia, Cheldon Florindo, que indicou, no entanto, que a companhia teve que encontrar o engenho necessário, para exportar 1.291 blocos, com uma facturação de mais de 409 milhões de kwanzas. O valor supera, largamente, os mais de 367 milhões obtidos durante o ano passado.


Cheldon Florindo defendeu o envio de mais contentores de Luanda para os portos de Lobito e do Namibe - principais áreas de passagem das exportações do granito angolano - como um caminho para o aumento dos níveis de produção e da arrecadação de receitas.


Ele defendeu, também, a revisão do preço do aluguer dos contentores, que varia actualmente, entre 500 a 1.500 dólares e o aligeiramento de algumas medidas das autoridades, citando, como exemplo, a autorização do transporte de apenas um bloco desde a zona até ao Porto do Namibe, durante a noite. O director da "Mina do Lucangue” disse que essa limitação resulta em elevados custos para as empresas e retarda o processo de exportação.


Em operação desde 2017, a pedreira "Mina do Lucangue”, um investimento de cinco milhões de dólares, é uma concessão de 50 hectares e criou mais de meia centena de empregos.


Marlin exporta 100 contentores

A Marlin, uma empresa pedreira localizada na Chibia e já com uma presença de 12 anos no mercado de produção de tubos e lancis, tem como obra mais emblemática a Marginal e Ilha de Luanda. Em 2019, exportou cerca de 100 contentores para países como Alemanha, França, Reino Unido, mas, ano depois, viu-se também confrontada com a pandemia da Covid-19.
Começaram a escassear as obras e, em consequência disso, foram feitas muito poucas encomendas.


O administrador da companhia,  Fernando Santos, prevê a recuperação do mercado nos próximos tempos, ao referir-se a um mundo em permanente evolução, algo que obriga a adaptação e novas perspectivas. "Este ano, já começamos a exportar, tem que haver um esforço de penetração no mercado e para isso, temos ido às principais feiras mundiais, para a  apresentação  dos nossos produtos”, refere o empresário.


Fernando Marlin mostra, de seguida, alguns contentores, uma encomenda para a Alemanha. "Começa a surgir algum movimento e nesta altura temos três ou quatro encomendas, também para a Alemanha, Reino Unido, França e uma, primeira, para a Dinamarca”, adianta, acreditando que esses países venham a ser um mercado atraente para a Marlin. "Que levem 7, 8, 9 ou 10 contentores”, acrescentou.


Ele afirma que no primeiro semestre, foram exportados cerca de 200 contentores, a confirmar alguma recuperação, embora, tal como na Rupsil e Hipermáquinas, a Marlin também esteja a braços com a escassez de contentores para viabilizar a operação, com centenas de blocos a aguardar o embarque, como pudemos ver.


"Temos centenas de blocos que não conseguimos exportar, estão comprados e os clientes não conseguem tirar proveito”, uma situação com potencial para trazer prejuízos à reputação das pedreiras.


Optimista, o empresário refere que se ultrapassar os constrangimentos com a falta de contentores no Porto do Namibe, a Marlin estaria em condições de fazer 500 encomendas.


À pergunta sobre se seria mais viável entrar no negócio dos contentores, Fernando Marlin reponde: "O negócio dos contentores está regulamentando, tem um "player”, que é o Porto com as suas linhas de transportadores. Existe um concessionário, que é ao Sogest, enfim, negócio está fechado e ninguém consegue entrar”.

O administrador da Marlin referiu-se aos "empresário da pedra”, como "enteados”, desabafando que na cidade, só pode passar um camião com  um  bloco de 25 toneladas...


"Um camião com 50 toneladas de cimento pode passar, mas o de pedra já não pode”, disse, defendendo melhorias no transporte por comboio, estrada e Porto, assim como preços mais competitivos.


A Marlin corporiza um investimento de 30 milhões de dólares. Na esteira da sua responsabilidade social, além de empregos, construiu uma escola de seis salas de aula, um furo de água, bem como abriu uma estrada de 11 quilómetros para acesso à empresa.


Excessiva burocracia atrasa exportação

No município da Chibia, há "queixas” sobre o excessivo processo burocrático para a exportação das rochas ornamentais, como indicou o director de produção da empresa mineira Hipermáquinas, Elias Cipriano, que a tal se reflecte da capacidade de arrecadação de divisas em pouco tempo.

Referiu que essa situação põe em causa a credibilidade das empresas exportadoras angolanas junto dos clientes. " Muitas vezes, os clientes não entendem essa demora”, sublinhou, defendendo as melhorias do actual cenário, para  evitar a fuga dos potenciais compradores de rochas ornamentais.


Deu, como exemplo, a exportação de um bloco de granito negro de 28 toneladas, que chega a levar três meses até chegar ao destinatário. Um tempo considerado demasiado para o produtor e o cliente.


"Angola não é o único país africano a exportar este mineiro, por isso urge a necessidade de se reduzir o tempo de espera e o número de instituições que concorrem para processar uma determinada exportação, com vista a materializar o ambicioso Programa de Diversificação das Exportações e Substituição das Importações (PRODESI), em vigor desde 2018, no país”, alertou.


A Hipermáquinas Angola tem uma concessão mineira de 50 hectares que está preparada para explorar mensalmente 800 blocos de granito negro, sendo que apenas 30 por cento desta produção é exportada, devido ao excesso de burocracia, algo que se agudizou com a pandemia da Covid-19.


Estudos hidrológicos


No Lubango, sede do Instituto Geológico de Angola   a (IGEO), no Sul do país, há preocupações com a falta dos necessários estudos hidrológicos, para a exploração de águas subterrâneas, como medida para aliviar os efeitos da seca prolongada.


 O director do IGEO, Sivi dia Lunda, deplorou em declarações, a um grupo de jornalistas, convidados pela Angola Minas a existência de muitas empresas que exploram águas subterrâneas de forma empírica, algo que resulta em vários poços sem água.


Explicou que a sua instituição é que está dotada  em informações sobre as características geológicas e captações de águas subterrâneas, mas tem sido ignorada para a prospecção dos aquíferos do Sul de Angola. "A maior parte das empresas que exploram águas subterrâneas não fazem estudos preliminares ou adequados para aferir a existência sustentável do líquido precioso no subsolo, abrindo buracos de forma anárquica e empírica”, referiu Sivi dia Lunda, notando que a situação agrava-se com a falta de fiscalização.
 Sivi dia Lunda defendeu, por  isso, o reforço da fiscalização pelos órgãos competentes, com o apoio do Instituto Geológico de Angola da Região Sul, que está devidamente equipado.


O director do IGEO adiantou que a abertura de furos, sem base científica abre espaço para muitos poços secos/pobres, que só acumulam água no período chuvoso, sobretudo no território da província do Cunene.


Argumentou que devido à falta de água, muitas empresas aproveitam-se, fazendo poços paliativos e aleatórios para as comunidades.
O IGEO na região Sul é um dos três existentes no país. Fica na localidade do Congenge, a cerca de 20 quilómetros do Lubango, foi inaugurado em Abril deste ano, estando em fase de entrega definitiva ao Estado, depois de ter funcionado de forma experimental desde 2019.


Tem 30 técnicos, distribuídos pelo Laboratório Geocientífico, para análises de amostras de solos e águas subterrâneas e superficiais e Centro de Valorização de Rochas Ornamentais, para análise e certificação dos recursos minerais, trabalho antes feito no exterior do país.  Os outros institutos estão em Luanda, para cobrir o Norte do país e em Saurimo, para as províncias do Leste.



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