Entrevista

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General Nzumbi: “Gostaríamos que o país estivesse melhor”

Edna Dala

Jornalista

Matias Lima Coelho ou simplesmente comandante “Nzumbi” é considerado um dos mais destemidos militares angolanos. Na noite da proclamação da Independência, no dia 11 de Novembro de 1975, estava no Quartel do Grafanil e integrava a segunda linha de defesa da cidade de Luanda. A força era a reserva da resistência da Batalha de Kifangondo. Em entrevista, fala do seu percurso nas Forças Armadas, mas, também, dos principais momentos da guerra que o país viveu, desde o período que antecedeu a Independência Nacional. Revela que, na altura, não tinham condições, pois vinham de um Exército de guerrilha, que foi engrossado depois com a adesão massiva da juventude da época. Ainda assim, foi possível travar o potente e bem equipado Exército sul-africano.

22/11/2021  Última atualização 06H55
Matias Lima Coelho ou simplesmente comandante “Nzumbi” © Fotografia por: Edições Novembro
A Independência de Angola foi proclamada num momento muito conturbado. Onde estava na noite de 11 de Novembro de 1975?

Na noite em que o Presidente António Agostinho Neto proclamou a Independência de Angola, de 10 para 11, estávamos no Grafanil, no CIR Resistência Popular, onde fazíamos parte da segunda linha de defesa da cidade de Luanda.


Concretamente, o que estava a fazer?

Fazíamos parte de um grupo de instrutores político-militares .Tínhamos sobre o nosso controlo mais de 700 homens a concluir a instrução. Fazíamos, também, parte de uma força que ali estava, tipo reserva, como segunda linha de defesa da Batalha de Kifangondo.


Que idade tinha na altura?

Na época tinha 23 anos.        


Que memória tem daquele momento?

Foi um sentimento indescritível. Como ainda estávamos entrincheirados, após a proclamação da Independência,  durante o dia fomos dar uma volta pela cidade e vimos a tomada de posse do Presidente Neto, ali onde é o actual Palácio do Governo Provincial de Luanda, na Mutamba.
Recordo-me de termos ficado parados de carro e a apreciar Agostinho Neto a ser empossado por Lúcio Lara. Depois de umas voltas regressámos ao nosso quartel.


Que avaliação faz dos 46 anos de Independência?      
            
São 46 anos de Independência, mas nem tudo vai bem. Gostaríamos que o país estivesse melhor, mas vamos continuar a lutar para oferecer melhores condições de vida à população e a nós próprios.
Depois da proclamação da Independência, logo a seguir  avancei para Frente Norte com a 9ª Brigada de Infantaria Motorizada. Avançámos até à tomada do Soyo, onde permaneci desde o dia 7 de Fevereiro de 1976 até princípio de Julho. Andei pelo  Soyo, Pedra de Feitiço, Quelo, Besa, Sumba, Porto Rico e naquelas áreas que fazem fronteira com o Zaíre.
Durante o avanço ao Soyo fui também comandante do Esquadrão Ho Chi Minh, formado por nós e os recrutas que estiveram connosco no Grafanil. O grupo foi dividido em dois esquadrões. Eu chefiei um, o Ho Chi Minh,  e o meu colega, já falecido, Marcelino "Bazuka", chefiou o Esquadrão Che Guevara.
Vim a Luanda onde organizámos o desfile do dia 1 de Agosto de 1976, na Marginal. Na noite anterior, o Presidente  Agostinho Neto tinha patenteado comandantes de colunas e  comandantes de esquadrão.
Depois continuámos e seguimos para outra brigada, no Ambriz. Na altura, a FNLA estava a reorganizar-se e havia muitas emboscadas. Na época, a parte Norte estava ameaçada.
No Ambriz  fui como estado maior do Segundo Batalhão de Infantaria Motorizada da nova brigada, onde fiquei até 1978. Mais tarde segui para o Regimento Presidencial  até Março de 1981.
Daí segui para a União Soviética, onde fiz o curso de comando inter-armas.  Não foi fácil.


Quando diz que não foi fácil, o que pretende dizer, concretamente? 

Mal saímos da proclamação  da Independência, entrámos em guerra com os sul-africanos, que já tinham invadido Angola. Na altura da Independência, os sul-africanos já estavam  no Cuanza - Sul. Tinham tomado as províncias do Cunene, Huíla, Cuando Cubango, Huambo, Benguela e Bié. No Cuanza-Sul foram travados na chamada Batalha do Ebo.
Na Batalha do Ebo eu estava no Norte. Tivemos que partir  duas pontes: sobre o rio Keve e a ponte que vai em direcção ao Porto Amboim. Os sul-africanos foram travados ali.
Em Cabinda também houve uma grande invasão pela FNLA e tropas zairenses, que igualmente foram travadas. Depois começámos a ofensiva até ao dia 27 de Março de 1976 quando os sul-africanos se retiraram. Fizemos uma grande ofensiva com o apoio das tropas cubanas.  


Falou de ofensivas contra as tropas sul- africanas. Na época tinham todas condições materiais para enfrentar o inimigo?

Não tínhamos. Vínhamos de um exército de guerrilha, que foi engrossado depois com a adesão massiva da juventude da época. A maioria foi para o MPLA, JMPLA  e para as FAPLA, fundamentalmente.
A única unidade regular com força foi preparada na União Soviética, que depois veio para cá. Mas, foi uma preparação muito rápida de seis meses, através da 9ª Brigada que avançou para o Norte de Angola e libertou o Cuanza-Norte, Uíge e Zaire até à fronteira.
Foi também essa unidade que capturou uma série de mercenários ingleses e americanos. Já na parte Sul, reforçou a contra ofensiva. Tivemos apoio das tropas cubanas na altura.


Dizem que o senhor foi um comandante destemido...

Quando regressei da União Soviética, em Setembro de 1982, fui para o Cunene como comandante da 2ª Brigada de Infantaria Motorizada por um período de cinco anos. Já era comandante de tropas,  mas foi aí que me forjei como um grande comandante, fundamentalmente na luta contra os sul-africanos. A partir de 1983/1984 começámos a receber meios mais sofisticados e já vinham jovens formados na nossa academia, no Huambo. Outros foram formados na União Soviética, como era o meu caso, e outros ainda em Cuba.
Na altura, também recebemos meios aéreos  e anti-aéreos mais sofisticados e conseguimos manter o equilíbrio no teatro das operações com as  forças sul-africanas.  
As primeiras derrotas sul-africanas a sério, foram registadas  no Cunene. Os sul-africanos  tentaram, várias vezes, tomar a maior parte do Cunene. Em 1981, tomaram Ondjiva e Xangongo, em 1983-1984 tomaram o Cuvelai, mas depois fizemos uma contra ofensiva, só com tropas angolanas. Ali não houve interferência dos cubanos.


E como é que conseguiram fazer uma contra ofensiva de grande envergadura naquelas condições?

A contra ofensiva foi feita por nós, da 2ª Brigada, a 19ª, que estava no Londo, a 15ª Brigada, que estava em Chamutete e uma outra que  estava em Caiundo, Cuando Cubango. Começámos a fazer a ofensiva e conseguimos estabilizar a fronteira  mais ou menos em 1988.           
Nesta altura já não havia tropas cubanas a combater do nosso lado. Houve um acordo internacional qualquer, não me lembro qual, mas eles estavam atrás de um certo paralelo. Só quando chegou o general Ochowa é que os cubanos voltaram a envolver -se novamente nos combates, que culminaram com a nossa vitória no Cuito Cuanavale.


O que representou a Batalha do Cuito Cuanavale? 

Muito se fala da Batalha do Cuito Cuanavale,  mas houve outras batalhas. Cuito Cuanavale foi uma batalha que abrangeu quase toda a extensão da parte Sul do território angolano, tanto no Cuando Cubango, como no Cunene.
De acordo com os generais sul-africanos que combateram, a grande derrota que sofreram  foi quando a nossa aviação bombardeou as suas tropas na barragem de Calueque.
Nunca tinham sofrido golpes de aviação e tiveram perda de cerca de 18 oficiais. Foi aí que eles notaram a nossa força. Notaram que também tínhamos capacidade para entrar na Namíbia e combatê-los dentro do seu território. Foi assim que aceitaram cumprir os acordos que culminaram  com a sua retirada do território angolano, a independência da Namíbia,  a libertação de Nelson Mandela e a retirada de Angola das tropas cubanas.


Por que  é que mais se fala do Cuito Cuanavale?

Eu não sei por que é que só se fala em Cuito, quando as primeiras derrotas sul-africanas contra as tropas angolanas se deram no Cunene, na Cahama,  Mulondo, Cuando Cubango e no Caiundo. Os principais golpes foram na Cahama em direcção a Lubango. No Cuito Cuanavale, pelo que eu sei, pretendíamos fazer uma ofensiva contra a UNITA e os sul-africanos intrometeram-se, obrigando as nossas tropas a recuarem até ao Cuito Cuanavale, onde montaram a defesa para travar os sul-africanos.  
Em 1981, Cahama começou a bater-se na altura sob comando do general Farrusco da grande invasão. Em 1984, eu como comandante, travámos os sul-africanos num combate de quase um mês, apenas com uma das direcções, a do Calovango.
O inimigo retirou-se de forma simulada no dia 30 de Dezembro de 1983, uma retirada com cerca de 632 viaturas blindadas, transporte de tropas e três colunas, cada uma com mais de 200 carros.
No dia seguinte, atacaram o primeiro batalhão, comandado pelo comandante Sachime, actual comandante da Região Leste. Foram combates de choque,  mas aguentámos.  Foram flagelados  e no dia 4 de Janeiro começaram a retirar-se, mas ficámos cercados quase um mês. E olha que era só uma brigada.


O que diferiu um combate do outro?

No Cuito Cuanavale foram várias brigadas e o terreno era mais difícil, porque ali não havia asfalto. No nosso caso,  não havia uma série de estradas, fomos cercados e atacados pela retaguarda pelo cabo da manobra e atacaram o 2º Batalhão, mas não conseguiram passar.
O Cuito Cuanavale foi uma grande batalha,  sim. Talvez por ter havido participação da UNITA e dos sul-africanos, enquanto que do nosso lado, apenas no segundo dia  tivemos o apoio dos cubanos e alguns elementos da SWAPO.
Possivelmente por ter havido mais tropas e um conjunto de homens,  fala-se muito do Cuito Cuanavale. Para mim, a direcção principal do inimigo para tomar até o Norte de Angola foi o Cunene.
Os combates  começaram mais ou menos a 3 de Agosto de 1983 com flagelamentos e ataques diários de aviação. Durante o tempo que estivemos lá, pelo menos os dois primeiros anos, o inimigo vinha sempre nas semanas  de lua cheia.
Houve combates nocturnos da nossa aviação contra a aviação sul-africana em finais de 1983. Não podíamos andar à noite de carro, e se andássemos tinha de ser com as luzes apagadas. A partir de Agosto foram flagelados e provocados, até que em Dezembro começaram os grandes combates que acabaram no dia 4 de Janeiro.


Que estratégia usavam para enganar a tropa inimiga?

A nossa principal arma era o mascaramento e o refúgio. Ali éramos três mil e tal homens. Passava-se pela Cahama e não se via ninguém, apenas o povo, mas a tropa não. Todos bem mascarados.  A nossa aviação quando passava para fazer o reconhecimento aéreo,  fotografava  tudo,  mas  não conseguia ver nada, porque o mascaramento era perfeito e mudávamos sempre de posição. Aguentámos firmes e estamos aqui, muitos ainda vivos.


Quando diz que nem tudo vai bem, a que se refere concretamente? 

É só olhar para o nível de desemprego actual. O salário mínimo é muito baixo, não dá sequer para comprar uma cesta básica. O índice de banditismo que essa situação tem despoletado e a desunião das famílias por causa deste mal são grandes.


O que acha que devia ser feito ainda?

Temos que lutar para melhorar as condições sociais da população. Somos todos culpados desta situação, mas precisamos de lutar para melhorar as condições de vida da população. Hoje vemos crianças na rua em todas as cidades.
É preciso corrigir isso. Cometemos muitos erros no passado e agora estamos a pagar. Temos que cumprir  as regras sociais para se reverter o quadro, para que  daqui a dois ou três anos a situação esteja estabilizada.


47 anos no activo ao serviço das Forças Armadas Angolanas é muito tempo...

Estou há dois anos e meio na reforma. Estive ao serviço das FAA desde Janeiro de 1973 a Abril de 2019. Cumpri a  minha parte,  mas agora é altura de os outros também continuarem a servir. Estamos prontos para aquilo que der e vier. Se o país entrar numa crise ou numa guerra estamos sempre preparados.


Sente saudades do ambiente militar?

Não sou uma pessoa de muitas saudades. Habituei-me a estar sozinho. Comecei a trabalhar cedo e tive a minha primeira casa também muito cedo. Para mim quem está presente está presente, quem não está paciência. Mas, sempre que possível, eu e os meus colegas de trincheira encontramo-nos  para conversar.


Que momentos mais lhe marcaram? 

Primeiro, o avanço para a Região Norte, depois os combates da Cahama,  quando fui o comandante, seguido do fim da guerra onde fui igualmente o comandante da Região Leste. Quando Jonas Savimbi morreu no Lukusse, o comandante da Região Leste era eu.
Sou um dos obreiros da Paz em Angola. Embora fosse uma ofensiva generalizada, éramos na altura 10 comandantes de agrupação, os 10 tiveram o seu mérito. Naquela fase da guerra, embora o esforço principal fosse no Moxico, fizemos uma epopeia quase de dois anos em cima do acontecimento, uma operação non stop, que culminou, no dia 22 de Fevereiro de 2002, com a morte do líder da UNITA e a efectivação da Paz em Angola.
O  contributo que dei, assim como os meus colegas, foi conseguirmos que a paz fosse efectiva. Para mim, é a segunda data mais importante do país. Primeiro, a Independência Nacional, e depois o 4 de Abril, data da assinatura do Memorando com a UNITA.
Também fiz parte das conversações. Na época eu era o chefe adjunto das conversações e o general Geraldo Sachipengo Nunda, o chefe da delegação do Governo.
Numa semana, mais ou menos, conseguimos conversar e a Paz continua entre nós. Como eram só militares a conversar, sem  interferência de estrangeiros, conseguimos a paz. Houve tentativa de interferência dos americanos,  mas não aceitámos.
Nós, os angolanos, nos entendemos  e demos a paz. Daqui há uns meses vamos celebrar 20 anos de Paz. Essa paz veio para durar. 


O que lhe motivou a ingressar na guerrilha? 

Havia repressão colonial,  mas já existiam algumas organizações e grupos de consciencialização. Reuníamos e ouvíamos o programa  Angola Combatente, que  era transmitido de Brazzaville e comentávamos.  
Quando chegou a altura ingressámos nos movimentos.  Tive colegas, por exemplo, que eram do nosso grupo de ouvir o Angola Combatente, discutir ideias, eram do MPLA, mas quando a UNITA  entrou nas cidades,  uns foram  na UNITA.  
Na época, nunca tínhamos pensado que haveria mais guerra. Mas,  a Independência não foi aquilo que queríamos. Houve desacordos no Governo de Transição. A FNLA queria tomar a parte Norte, nós tomámos Luanda, embora não estivesse cá, porque me encontrava no Cuanza-Sul. Mas,  ninguém imaginava que a guerra fosse demorar tanto tempo.
A entrada do Presidente António Agostinho Neto em Luanda, no dia 4 de Fevereiro de 1975, foi uma coisa fora de série, assim como a  chegada da primeira delegação do MPLA,  chefiada por Lúcio Lara, em Outubro de 1974. Foi um apogeu.


Qual foi o seu primeiro Esquadrão?

O meu primeiro Esquadrão foi o Kwenda. Era composto por 150 homens e o número de sobreviventes não passa de 40.  Em relação aos meus colegas de curso, na União Soviética, fomos um total de  15 comandantes que concluiu o curso, em 1982, hoje  restam apenas 4 ou 5. Nem todos morreram na guerra, alguns morreram por doença,  mas  estamos aqui sempre com o moral alto e preparados para o que der e vier, um pouco insatisfeitos porque devia haver melhores condições para a população.


E como melhorar essas condições?

Vamos lutar todos juntos para que isso aconteça . Tanto o Governo, como a população e  os partidos políticos, temos que lutar para ver se saímos desta situação muito difícil.
Devemos nos unir como povo para ultrapassarmos estas dificuldades. Não podemos esperar sempre que seja o Governo a resolver tudo. O Executivo tem a sua quota parte mas, nós  a população devemos ser mais disciplinados, organizados e mais empreendedores.  Este país tem tudo para dar certo.



Durante  a guerra, o que mais lhe marcou?

Foram muitas situações. Houve um momento que me marcou profundamente, quase que perdi a vida a nove quilómetros do Songo. Sofri uma emboscada e a UNITA tinha inclusive comunicado a minha morte em Paris, logo depois da emboscada.
Um amigo que era cônsul em Paris ligou para a minha esposa em Luanda a perguntar se eu tinha morrido, porque a UNITA já tinha comunicado a minha  morte. Felizmente, não sofri nenhum arranhão e hoje continuo aqui, vivo e saudável.

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