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Garimpeiros de diamante invadem o Parque Nacional de Mavinga 

Carlos Paulino | Menongue

Jornalista

O Parque Nacional de Mavinga, a cerca de 420 quilómetros da cidade de Menongue, província do Cuando Cubango, está a ser invadido, nos últimos dias, por garimpeiros de diamante nacionais e estrangeiros, que, além da extracção ilegal de pedras preciosas, estão a dizimar várias espécies de animais.

27/11/2022  Última atualização 06H50
Director do parque defende a contratação de mais fiscais e aquisição de viaturas para se reforçar a fiscalização © Fotografia por: Nicolau Vasco |Edições Novembro|Menongue
Estima-se que, neste momento, mais de 100 garimpeiros, sobretudo da República Democrática do Congo (RDC) se encontrem espalhados no interior do Parque Nacional de Mavinga, que tem uma extensão de 46 mil quilómetros quadrados, a extraírem quantidades elevadas de diamante. 

Segundo informações, a maior parte dos garimpeiros é proveniente das províncias da Lunda-Norte e Sul, tendo  entrado no município de Mavinga a partir da província do Moxico, que faz fronteira com esta localidade do Cuando Cubango, devido a uma fragilidade, em termos de actuação, dos fiscais ambientais e dos Órgãos de Defesa e Segurança. 

O director do Gabinete Provincial do Ambiente, Gestão de Resíduos e Serviços Comunitários, Júlio Bravo, deu a conhecer  que os garimpeiros se fazem acompanhar de armas de fogo de diversos calibres, para o abate indiscriminado de várias espécies de animais. 

Segundo Júlio Bravo, os infractores levam apenas  sal e fuba e para a obtenção dos outros ingredientes a fim de confeccionar as refeições  recorrem à matança de animais e ao corte de árvores.  

Referiu que é bastante visível a exploração ilegal de diamante no interior do Parque Nacional de Mavinga, porque os garimpeiros têm estado a fazer várias escavações e deixam os buracos abertos. 

"Esta situação torna-se muito preocupante, porque, por intermédio desta acção humana, poderá acontecer a extinção de várias espécies de animais ou até mesmo a destruição total do Parque Nacional de Mavinga, caso não sejam tomadas medidas urgentes para travar esta actividade ilegal”, disse. 

Acrescentou que os 45 fiscais ambientais que asseguram o Parque Nacional de Mavinga, que tem uma extensão de 46 mil quilómetros quadrados, são insuficientes. 

Júlio Bravo disse que esta situação agrava-se ainda mais pelo facto de a equipa de fiscais ambientais estar desprovida de viaturas a todo o terreno para as actividades de fiscalização no interior do parque, cujas vias de acesso estão em estado avançado de degradação. 

"Por causa desta situação, os garimpeiros fazem trinta por uma linha e a qualquer hora do dia, porque sabem que os fiscais ambientais não têm meios rolantes e efectivos suficientes”, lamentou. 

Júlio Bravo defendeu, para se inverter o actual quadro, a necessidade de se contratarem, pelo menos, 500 fiscais ambientes, atribuição de três viaturas para cobrir todo o terreno e a construção de infra-estruturas a fim de acomodar os efectivos destacados no Parque de Mavinga.

O director do Gabinete do Ambiente, Gestão de Resíduos e Serviços Comunitários mostrou-se confiante em  melhores dias, acrescentando que o Presidente da República, João Lourenço, está muito preocupado com as acções  que põem em perigo a flora e a fauna, em particular na província do Cuando Cubango. 

Recordou que a província  é felizarda, por possuir a maior área de conservação do país, sobretudo nos dois parques nacionais, de Mavinga e Luengue-Luiana, que constituem o pulmão  do projecto transfronteiriço Okavango/Zambeze, na componente angolana.       

"Infelizmente a presença humana no Parque Nacional de Mavinga está a preocupar-nos e nós já estamos a notar um certo desnível em termos da população animal, devido ao  garimpo de diamantes”. 

Caça furtiva  

A caça furtiva é também um facto preocupante nos parques nacionais de Mavinga e Luengue-Luiana, praticada por cidadãos nacionais e estrangeiros, que, ultimamente, já não têm preferências de animais, porque tudo que encontram abatem, entre répteis, anfíbios, grandes ruminantes e até felinos. 

Realçou que, depois de colocarem a carne a secar, nas matas, os caçadores furtivos procuram os mercados negros para comercializarem o produto, sobretudo os de animais de grande porte, que têm compradores fora do país. 

Júlio Bravo afirmou que se trata de um crime organizado, porque há cidadãos angolanos com alguma capacidade financeira que têm estado a encobrir, para que este tipo de actividade seja consistente nos parques nacionais de Mavinga e do Luengue-Luiana. 

"É muito triste vermos angolanos a serem cúmplices de cidadãos estrangeiros nesta actividade de abate indiscriminado de várias espécies de animais, sobretudo de elefantes e rinocerontes nestes dois parques nacionais, que possuem um grande potencial em termos de recursos faunísticos, florestais e hídricos, para a implementação de projectos turísticos de referência mundial”, lastimou. 

Júlio Bravo defendeu por este facto a intervenção urgente do Executivo, em particular do Ministério do Ambiente e dos Órgãos de Defesa e Segurança, para um combate cerrado a todos os infractores que estão a colocar em risco a biodiversidade nos parques nacionais de Mavinga e do Luengue-Luiana. 

Sublinhou que proteger o ambiente é uma responsabilidade colectiva e que gostaria que outros actores, sobretudo os Órgãos de Defesa e Segurança dessem o apoio necessário para contrapor este tipo de actos, que constituem um grande atentado à biodiversidade e ao ambiente.  

Afirmou que uma das prioridades do Executivo, dentro do novo paradigma de governação, é alavancar a economia a partir do ecoturismo e por isso não se deve admitir que a biodiversidade seja extinta ou explorada de forma irracional. 

"Estaremos cada vez mais pobres e ficaremos comprometidos com esta pretensão do Executivo, caso não formos a tempo de travar os garimpeiros de diamante e os caçadores furtivos, que encontram uma certa fragilidade na província, por causa da sua enorme extensão territorial e  o número irrisório de fiscais ambientais”, disse.  

Júlio Bravo reconheceu que a sua instituição, por mais que queira inverter o actual quadro preocupante, não tem capacidade de resposta, por falta de efectivos e de meios rolantes para impedir a actividade dos garimpeiros e dos caçadores furtivos, nas áreas de conservação ou parques nacionais na província.

 Acrescentou que vários casos de garimpo de diamante ou de caça furtiva registam-se um pouco por toda a província e que, na sequência de algumas denúncias, tem sido possível deter caçadores furtivos e compradores que incentivam este tipo de crime contra o ambientee, bem como apreender animais abatidos. 

Fez saber que a instituição que dirige continuará firme, com vista a responsabilizar criminalmente todos os que insistem no garimpo de diamante, caça furtiva e/ou abate indiscriminado de árvores.

Queimadas anárquicas

As queimadas anárquicas  são outras situações de agressão ao ambiente, que, no Cuando Cubango, continuam a ganhar contornos alarmantes, principalmente  na época seca, onde se registam incêndios em várias  localidades, causados, sobretudo, por camponeses, caçadores e camionistas. 

O Jornal de Angola apurou que 5.868 incêndios decorrentes de queimadas anárquicas foram registados de Janeiro até a presente data na província do Cuando Cubango, provocando a devastação de vários hectares de terra. 

Aponta-se como os principais causadores das queimadas anárquicas os camponeses que ateiam fogo nas florestas para a abertura de novos campos agrícolas, pastores de gado, caçadores furtivos e automobilistas cujas viaturas avariam ao lado das vegetações, para afugentar os animais selvagens, as descargas atmosféricas e a produção de carvão. 

"Urge a necessidade de combatermos esta prática, porque contribui, negativamente, para as  alterações climáticas, sobretudo o aumento da estiagem e do aquecimento global, destruição dos solos e extinção de várias espécies de árvores e animais”, defendeu. 

Júlio Bravo disse que  se registam,  embora de forma tímida, a exploração de madeira no Parque Nacional de Mavinga, violando o Decreto Presidencial 117/20, de 22 de Abril, que diz que nenhum projecto de corte de árvores deve ser implementado sem um estudo prévio de avaliação de impacto ambiental. 

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