Entrevista

Gabriel Joaquim: Maus hábitos alimentares interferem na fertilidade

Marcelo Manuel | Ndalatando

Jornalista

Os maus hábitos alimentares e ingestão recorrente de alimentos industrializados, com excesso de gorduras, sal, açúcar e conservantes químicos, associados ao alcoolismo e tabagismo, estão na base do surgimento de muitos casos de infertilidade no nosso país, afirmou, em entrevista ao Jornal de Angola, o médico naturopata e especialista em Medicina Integrativa Gabriel Joaquim.

25/09/2022  Última atualização 07H05
© Fotografia por: Nilo Mateus | Edições Novembro

O médico, mais conhecido por "Doutor Vida”, revelou que, em Angola, o problema afecta mais de oito milhões de pessoas, mas que podem ser tratadas com o recurso a técnicas de fitoterapia, definida como ciência que estuda as plantas medicinais e suas propriedades

 

Como o senhor olha para a situação da infertilidade em Angola?

A infertilidade em Angola já é um problema de saúde pública, sendo que, em 2017, na altura do lançamento do meu primeiro livro, intitulado "A infertilidade masculina e feminina”, através da frutoterapia, eu já chamava a atenção do Governo angolano no sentido de que a infertilidade era um problema de saúde pública. Em 2018, quando lancei o segundo livro, "Como combater a infertilidade através da frutoterapia e da nutrição”, este veio dar um impacto maior ao combate à infertilidade. De resto, já foram vendidos 59.500 exemplares dos dois livros, sendo das maiores vendas do género em Angola, desde 2019. Esta procura, se por um lado preocupa-me, também alegra-me, porque, só na província de Benguela, 51 casais que viviam com o problema da infertilidade conseguiram gerar filhos, através da aplicação da fórmula existente no livro, tanto para o género masculino, como para o feminino. Por isso, tornei-me xará de 689 crianças, em várias partes do país.

 

Como surgiu a vocação para a Medicina Natural?

A minha vocação à Naturopatia surge através do meu pai, que foi um médico veterinário, formado pela Universidade de Coimbra, Portugal; enquanto a minha mãe foi parteira tradicional, cujos feitos incentivaram-me a optar pela medicina. Sabemos que a juventude é a maior riqueza de um país. Um  país sem juventude pode colapsar a qualquer momento, à semelhança de uma árvore sem raízes. E para tal, é necessário que haja natalidade sucessiva, mas o número de casos de infertilidade em Angola são preocupantes.

 

Quais são os números?

Há um estudo recente do Estado angolano que dá conta que mais de três milhões de pessoas vivem com infertilidade, mas um estudo que realizo desde 2007, mostra que mais de oito milhões de cidadãos nacionais têm infertilidade. Só para que se tenha uma noção, um em cada três angolanos tem um parente que vive com este problema.

 

Qual é a definição científica da infertilidade?

 A infertilidade é a falta de procriação, quer seja no homem ou na mulher, podendo conduzir a pessoa em causa a um desgaste emocional e psicológico, ao ponto de corromper a relação com amigos e família, levando os cônjuges a pensar que outros têm mais facilidade em alcançar a paternidade ou maternidade. Normalmente o casal que vive nestas condições tende a pensar que o mundo à sua volta é um lugar fértil, do qual foram excluídos, facto que pode levar as pessoas a afastarem-se de certos eventos de lazer onde haja mulheres grávidas e crianças. A infertilidade conjugal é dada como a ausência de gravidez após quatro meses de relações sexuais regulares sem o uso de métodos anticoncepcionais. É importante ressaltar que a infertilidade é diferente da impossibilidade. Aquela é a dificuldade de engravidar, que pode acontecer por diversos factores, que vão desde a falta de produção suficiente de esperma ou o facto de a mulher estiver  na menopausa precoce, ou seja, não ter óvulos nos ovários ou se ambas as trompas de falópio estiverem bloqueadas, criando dificuldades da entrada do esperma. 

 

Quais são as principais causas para o surgimento da infertilidade?

É preciso despertar as pessoas para que saibam que o que provoca a infertilidade no lado masculino é na sua maioria os maus hábitos alimentares. Não devemos confundir o comer com o alimentar-se. Hoje a maior parte dos cidadãos estão a adoptar hábitos ocidentais, preferindo a ingestão de alimentos já feitos industrialmente, com vários conservantes e aditivos químicos, em vez dos produzidos naturalmente. A deglutição destas comidas provoca a produção de pouca quantidade de esperma no homem, dando origem a criação de muito sémen que origina a ejaculação precoce e perda de erecção. O líquido fraco que o homem deposita na parceira suja o seu útero, provocando constantes dores de bexiga. Os jovens angolanos em fase de reprodução devem optar pelo consumo da mandioca, abacate, melancia, incluído a sua parte branca, chá de soja, milho e outros alimentos naturais, para evitarem espremia que origina a ausência de cromossomas, ou espermatozóide no homem, perdendo deste modo a capacidade de engravidar a sua parceira.

 

Quais são as vantagens do consumo de alimentos naturais, como a mandioca?

A mandioca, por exemplo, é um tubérculo bom para a recuperação de nutrientes, tal como para o aumento de leite para a amamentação, para além de estimular a produção de espermatozoides. Já o hambúrguer e a piza possuem excesso de gorduras saturadas, sódio e açúcar. Os embutidos como o presunto, mortadela, salsichas e salame possuem também gorduras que quando ultrapassam 1,5 por centos, por cada 100 gramas de alimentos, aumenta o risco de sobrepeso e pode provocar doenças cardiovasculares e acidentes cerebrais. Os embutidos possuem também uma grande quantidade de nitrato que quando consumidos em excesso aumentam o risco de cancro, para além de acumular o sódio que origina o aumento da pressão cardíaca. Os homens chegam a ser os principais responsáveis pelo surgimento da infertilidade no lar, pois são eles que têm a capacidade de engravidarem as mulheres. A falta de cooperação dos homens na adesão às consultas de fertilidade, principalmente se nos anteriores (relacionamentos) chegou a engravidar uma mulher. Chega a pensar que nunca mais terá problemas de infertilidade, enquanto na fase anterior alimentava-se bem, mas que, infelizmente, neste ano, bebe muito álcool, passou a fumar mais, criando para um clima de stress, que são outros factores para o surgimento da infertilidade. Na parte das mulheres, chamo a atenção para o não uso de anticoncepcionais sem a orientação dos médicos, sem saberem a origem e os efeitos reais do medicamento, criando assim condições para a intoxicação do útero.

 

Como devemos ter certeza se os alimentos são ou não propícios ao fortalecimento do sistema reprodutor?

Os alimentos dividem-se em quatro géneros, que são os biogénicos, bioactivos, bio-estáticos e os biocídios. Os biogénicos são os que geram a vida e são a base ideal da nossa alimentação, eles dão força vital e energia ao corpo. Os bioactivos são aqueles fornecidos pela natureza de forma espontânea, como o caso do maboque, ameixa, jinguinga, múcua e outros. Em relação aos biogénicos e bioactivos são alimentos vivos, destinados pela natureza a assegurar a vida e o bem-estar dos seres humanos, cujo consumo traz vitalidade em qualquer idade. Os bio-estáticos são aqueles que diminuem a vida, que a energia vital foi diminuída pelo tempo. O seu consumo é resultado de hábitos modernos e o seu consumo garante o funcionamento mínimo do nosso organismo, provoca envelhecimento precoce das células, porque não fornece as substâncias vivas, necessárias para a regeneração. Já os biocídios são os que já foram alterados com substâncias químicas, como caso do frango congelado e embutidos.

 

Qual deve ser o comportamento das mulheres que ainda não desejam ter filhos, mas têm a vida sexualmente activa?

Estas devem dirigir-se a uma maternidade e solicitarem a ajuda de um especialista em saúde reprodutiva que lhes vai orientar sobre o uso de medicamentos que previnem a gravidez, sem qualquer consequência futura. O consumo exagerado de carnes processadas, como o caso de chouriço, salsichas e hambúrguer, podem provocar o aparecimento de quistos nos ovários. Tive a oportunidade de fazer um trabalho de investigação científica sobre a infertilidade em zonas rurais das províncias do Uíge, Bié, Huambo, Huíla e Namibe e percebi que numa comunidade com 500 pessoas, apenas uma depara-se com o problema da falta de nascimento.

 

E a que conclusão chegou?

Bem…  a conclusão a que cheguei é a de que o modo de vida das mulheres locais, principalmente a forma de se alimentarem está na base das facilidades de reprodução. Ao contrário das mulheres e homens nas grandes cidades como Luanda, que se alimentam maioritariamente de produtos industrializados, para além do sedentarismo generalizado, ao contrário do que acontece nas comunidades rurais, onde as pessoas possuem um modo de vida mais natural.

 

Quais são as principais doenças que afectam o sistema reprodutor masculino e feminino?

As principais doenças que concorrem para a infertilidade no homem são, essencialmente, a sífilis, gonorreia, varicocele, inflamação, atrofia e cancro da próstata, espermia, ejaculação precoce, infecção urinária, deficiência renal e hérnia. Na mulher, os principais motivos são, essencialmente, os quistos nos ovários, mioma, inflamação pélvica, colo aberto, amenorreia, comichões vaginais, sífilis com sinais de borbulhas e inflamação dos grandes lábios, presença de sangramento na urina, cancro e lesões do útero, menstruação irregular, facto que pode criar a inexistência de óvulos nos ovários ou bloquear as trompas.

 

Como define a Naturopatia?

A Naturopatia é a ciência que estuda os recursos naturais e suas composições. Ela assenta fundamentalmente em três ramos principais que são o reino mineral, onde encontramos as propriedades de argila, o botânico ou vegetal, que fornece as plantas medicinais e o animal onde podemos encontrar a cura de várias doenças através dos óleos de baleia, jacaré e peixe. Hoje percebo que a população angolana já tem um conhecimento vasto sobre a medicina Naturopata, pelo facto dela fazer parte da nossa cultura e tradição. Só que este conhecimento deve ser qualificado do ponto de vista técnico e científico, de maneiras que a definição da Organização Mundial de Saúde, sobre os conhecimentos da medicina tradicional, está ligado ao conhecimento de curas terapêuticas que passam de uma geração para outra. Infelizmente, há ainda alguns cidadãos que confundem a naturopatia com o feitiço. E neste capítulo louvo o trabalho da comunicação social nacional, pelo facto de levar aos angolanos diferentes informações sobre a natureza desta prática, facto que, no meu entender, pode desmistificar a sua essência em relação ao feitiço ou bruxaria.

 

Em Angola há divergências entre a medicina convencional e a naturopata?

Olha, em relação a esta questão, eu digo que já ultrapassamos vários problemas. Em 2012, o Presidente  José Eduardo dos Santos chegou a mandar fazer uma auscultação, nas 18 províncias, para se saber quantos terapeutas existiam e isto resultou na identificação de 17 mil terapeutas, na altura. E eu, na qualidade de coordenador da Comissão Instaladora, a minha maior preocupação tem sido a qualificação dos técnicos, visando a melhoria das dosagens e aplicação dos medicamentos e conservação das plantas. A Universidade Sinergética em Pretória, onde fiz o mestrado e doutoramento, já formou também oito terapeutas que obtiveram o grau de mestre nesta área do saber. Neste momento, estamos satisfeitos porque já há uma lei ou instrumento jurídico que regula o exercício da profissão.

 

Como foi para chegar até aqui?

Para chegarmos até aqui tivemos muitos desafios e, desde já, aproveitamos para agradecer a parceria da Universidade Agostinho Neto e o antigo ministro da Saúde, Luís Sambo, e a Direcção Nacional de Saúde Pública, que muito contribuíram para a nossa auto-afirmação. Nos dias de hoje, muitos médicos da medicina convencional já orientam os seus pacientes para procurarem pelos nossos serviços. Este facto sugere que estamos num bom caminho, embora sou de opinião que os hospitais do país deviam ter uma área para o exercício da prática da medicina de Naturopatia Biomédica, onde, por exemplo, podíamos ajudar no controlo das hemorragias. Em caso de falha no uso das vitaminas K1 ou K2, podíamos recorrer às técnicas naturais, através da casca de mangueira ou cajú, para salvar o paciente em causa. O naturopata e o médico convencional são como dois caçadores, mas com o (mesmo) objectivo de melhorar a saúde da população.


Perfil

Gabriel Joaquim

 Especializado na área de frutoterapia, Gabriel Joaquim tirou um mestrado em Nutrição e um doutoramento em Medicina Integrativa e Bem-Estar, na Universidade Sinergética de Pretória, na África do Sul. Frequenta um segundo doutoramento, na Inglaterra.

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