Opinião

Futebol e má língua pra raspar

Manuel Rui

Escritor

Em dois ensaios que produzi, coloquei o futebol na instância cultura com as peculiaridades da disputa,de palavras importadas da guerra como petardo, pontapé de canhão, combate, fuzilar a baliza, entre outras.

12/05/2022  Última atualização 06H35

No nosso caso concreto o futebol vai mal por ter herdado a formatação da União Soviética com clubes das forças armadas, da polícia, dos profissionais da eletricidade,  e assim sucessivamente.

Aqui, copiámos um clube militar, o 1º de Agosto e um clube da polícia, o InterClube e não sei se militares e polícias procedem a descontos para os respectivos clubes. O dinheiro tem de vir de algum lado e, como as forças armadas recebem para inspeção muitos jovens, idem a polícia com as suas escolas, à partida, têm o maior leque de juventude para proceder ao engajamento. Aliás, Forças Armadas e Polícia perdem a sua isenção quando têm clube civil. O que devem é organizar campeonatos provinciais entre as unidades até encontrarem a unidade campeã. E podiam investir nas modalidades olímpicas. Têm a matéria prima, os ginásios, as escolas militares e da polícia, das melhores de África.Esta minha posição implica a óbvia e gloriosa continuidade dos dois clubes com o mesmo nome mas civis.

Para além destes dois grandes clubes, a petrolífera Sonangol é patroa dos "Petros,” à maneira da gigante da química alemã, a Bayer que alimenta dois Bayerns sendo o de Munique um potentado mundial, base da seleção que deu sete ao Brasil em tempo de Dilma. Mesmo assim a Sonangol supera a Bayer em número de clubes assistidos e as regras da alemã são diferentes de onde não se evidenciam regras com base no princípio despesa-lucro. Os restantes clubes fora destas alçada, um, tem a cobertura da diamantífera Endiama, O Sagrada Esperança e outros como a Caála são mantidos por uma família milionária.

Hoje, por esse mundo fora, salvo nos ex-países de leste (com os seus Dínamos), não encontramos no mundo do grande futebol uma formatação como a que existe em Angola que se repercute nos péssimos resultados obtidos faz muito tempo depois daquela equipe júnior onde jogou Mantorras e da seleção que foi ao mundial com treinador angolano.

A regra é a das sociedades desportivas (Sads), a luta pela montra africana, sul-americana e europeia. O negócio das transferências, as discussões nas televisões, o vídeo árbitro, os prémios. Os clubes são empresas hoje compradas por milionários.

Talento não falta em Angola. Quem viu que se lembre dos caçulinhas da bola…jogavam melhor que os adultos hoje.

Mas o que me traz aqui hoje é uma tristeza maior. Primeiro porque o Petro perdeu. Segundo porque à maneira Tuga foi anunciado o jogo como de alto risco. Que eu acho que é para hostilizar as hostes e animar os adeptos mais doentios e propensos à violência de forma compensatória ao que não corre bem na vida. O risco inventa-se não ser prevê quando as autoridades estão seguras. Lembro-me dos tempos em que acabava um jogo de futebol e as crianças entravam no relvada para saudar os jogadores. Era um futebol dos mais cívicos do mundo. E hoje?

Eu não vi mas li um comunicado da empresa que administra essa arquitetura icónica que é o Estádio Nacional. Os adeptos arrancaram cadeiras que lançaram, como lançaram garrafas… insultos e as autoridades? Não há filmes dos infratores? Mas Angola pode ser penalizada pelo órgão reitor do futebol africano.

Pior do que isso, contaram-me. Um adepto exibia uma bandeira da Unita, a polícia foi para ele e as arquibancadas começaram a gritar UNITA! UNITA! Para salvar o homem.

Com clareza: Nos estádios de futebol os adeptos levam bandeiras e outros distintivos do seu clube. Há claques organizadas, hinos. E quando os jogos são entre seleções de países, são tocados o hinos nacionais que muitos cantam, e levanta-se enormes bandeiras nacionais de cada país. Nunca vi bandeiras de partidos…nem no Iémen! Pode-se pensar que é uma provocação. Pode-se dizer que não se pode impedir por mor…dos direitos humanos. Mas a polícia não devia intervir e assim não havia caso. Com lucidez: os jogos de futebol não servem para a exibição de bandeiras partidárias. O futebol já não presta e se transformarmos os jogos em comícios então é melhor fazer uma adaptação: futebol sem balizas.

A polícia é para proteger e pacificar e muito de bom já tem feito nesse sentido. Não pode é tomar posição em ideologias.

Anda no ar em que algumas localidades do país há agressões e queima de bandeiras. Isso não pode acontecer porque somos todos angolanos, com os mesmos direitos e deveres.

Uma nota sociológica: se o Petro tivesse ganho por quatro  a zero nada disto teria acontecido e a mais linda garina poderia atravessar o estádio a correr, toda nua e com o cabelo pintado de amarelo e azul. Toda a gente a gritar Petro! Petro! E os polícias calmos afagando os seus porrinhos.

Dos palavrões que foram ditos é problema de higiene diária: raspar a língua com raspadeira de folha de lata passada no sabão azul…

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