Entrevista

Frei Gabriel Tjivela: “Não tenho motivos de queixas, tenho apenas de agradecer”

A residir na cidade de Treviso, Itália, desde 12 de Novembro de 2019, o frei Gabriel Tjivela, 64 anos, sacerdote da Igreja Católica em Angola, faz parte da expressiva cifra de infectados pela Covid-19 no país europeu. Sem saber como se terá infectado, o angolano natural do município de Kalukembe, província da Huíla, ficou 18 dias internado, com passagem em dois hospitais, um dos quais especializado em tratamento de doenças virais. Hoje, completamente recuperado (também é parte das estatísticas daquele país europeu nesse domínio), deu a cara. Sem rodeios, falou ao Jornal de Angola sobre as vicissitudes por que passou, antes, durante e depois de enfrentar a pandemia. Diz não ter motivos de queixas, apenas agradecer a forma como foi tratado, sem discriminação.

12/06/2020  Última atualização 10H36
DR



Numa altura em que existe muita estigma contra as pessoas afectadas pela Covid-19, porque razão o senhor dá esta entrevista, sem receio algum de se mostrar?

É meu desejo, também porque fui convidado a partilhar e falar um pouco do "inimigo invisível”.

Antes de ser infectado pela Covid-19, o senhor teve algum antecedente de saúde, que terá aberto a porta para essa doença?
Em 1986, no Huambo, apanhei pneumonia, bronquite e fui parar ao hospital.

Como soube que estava infectado com a Covid-19?

Na primeira semana de Março, fiquei doente. Fui ao hospital, não porque tinha vírus da Covid-19, mas porque tinha pneumonia, dificuldades para respirar.

Mas, antes de ir ao hospital, na altura, o vírus já fazia estragos em Itália. Lembra-se de ter contacto com alguém suspeito da doença ou ido a locais desprevenido?

Trabalhava no confessionário. Deixei quando começamos a receber recomendações para o cumprimento da quarentena. Pode ser que tenha apanhado antes. Não sei como apanhei.

Quer detalhar como foi parar aos hospitais e como foram os tratamentos?

Em geral, para os casos relevantes, para chegar a um hospital, o melhor transporte é a ambulância. A partir dali, o médico mediu a pressão arterial, temperatura e meteu-me oxigénio. No hospital, fiz o “tambone”, isto é, a recolha de substâncias nas fossas nasais, na garganta, exame de sangue, respiração, inspiração, peso, exame completo dos pulmões, etc.

Depois de 24 horas, já com todos resultados do “tambone” e não só, chegou-se à conclusão da presença do vírus. Veio uma outra ambulância levar-me a Treviso, num hospital preparado para doenças virais. Dali, o que foi feito nos primeiros momentos não sei, porque perdi o controlo dos meus sentidos. Depois de três dias, comecei a ver as pessoas "como peixes no aquário". Perguntei onde estava, disseram-me que estava no hospital. Segundo eles, estava muito agitado, pois estive na incubação. Cinco dias depois, uma ambulância levou-me de novo ao Hospital de Castelfranco, onde continuei com a medicação.

Recorda-se da medicação que tomou?

Muitos balões de soro, injecções e comprimidos. Outras terapias foram feitas, como “terapia de risco”. Foram-me administrados também outros medicamentos, devido à trombose, que continuo até agora em casa. Depois disto tudo, renovou o "tambone", que deu negativo. Consegui melhorar rapidamente e, depois de removidos todos os aparelhos, no dia 10 de Abril, voltei ao convento de Asolo. Passei a Páscoa no Convento, já em alta, depois de ter repetido os exames, com resultados negativos.

Antes de ir parar ao hospital, como era o ambiente no Convento?

Fechado no quarto, onde fazia as refeições trazidas por uma das freiras. Na mesma semana, éramos dois frades doentes no mesmo convento. Não sei quem foi o primeiro. Ele tinha problemas na garganta. Foi o primeiro a entrar no hospital, no período de manhã, e eu à tarde.
No dia 24 de Março, foi necessário telefonar ao administrador do convento, pondo-o ao corrente da situação, pois eu estava muito mal. Veio uma ambulância e o médico do Pronto Socorro e tudo fez para chegar vivo ao hospital. Meteu oxigénio, entrei em coma. Neste mesmo dia, fui transferido e posto em terapia intensiva, no Hospital Provincial de Treviso, rapidamente, pois a insuficiência respiratória estava a piorar. A 1 de Abril, regresso a Castelfranco, na enfermaria, transferido para a área de medicina geral, depois de dois exames de Covid-19.

Quanto tempo esteve hospitalizado?

De 24 de Março a 10 de Abril; foram 18 dias nos dois hospitais. No dia 2 de Abril, regresso ao Hospital de Castelfranco, ponto de partida, e fui entregue ao médico que me tinha enviado, para verificação. A 10 de Abril, Sexta-feira Santa, regresso ao Convento de Treviso, dando alegria a todos. Não tinha forças para andar, mas, devagar e bem, abri a porta do quarto e o telemóvel toca. Era a minha irmã, "que puxei", como se diz entre nós. Ela sofreu muito.

Como era o ambiente no hospital?

Em Treviso, só mais tarde vi que éramos dois na enfermaria, enquanto em Castelfranco estava sozinho na enfermaria. Estive sempre na Unidade de Tratamento Intensivo (UTI) nos dois hospitais, excepto durante os quatro dias em Castelfranco. Além do enfermeiro de piquete, que te observa a partir do ecrã, os cuidados são mais apurados. Não tenho motivos de queixas,; tenho apenas de agradecer.

Enquanto esteve internado, sentiu da parte do pessoal médico alguma espécie de discriminação?

No Hospital de Castelfranco, antes e depois, fui tratado com a dignidade que se quer. No princípio, estava muito agitado: desmaios e mais. Fui transferido para o Hospital de Treviso. Vi muitos médicos e enfermeiros à minha volta, contentes, e um deles dizia: “conseguiu, conseguiu”. Penso que foi depois da terapia intensiva, que consiste na expulsão de poeira e ranho pela boca e nariz. Fiquei bem, apenas muito fraco. Não podia pôr-me de pé. Comia pela mão da enfermeira.
As irmãs, madres beneditinas, uma delas fisioterapeuta, reabilitava-me os músculos, para poder levantar-me e caminhar. Sempre sozinho. De regresso à Castelfranco, nos cuidados intensivos, estive sob vigilância e visita de uma enfermeira, de duas em duas horas, além da camareira, na enfermaria de vigilância.

Depois de sair do internamento, como foram os dias no convento?

Dia seguinte, padres, irmãs da comunidade angolana em Roma e outros frades aqui, na Itália, o bispo de Viana, D. Emílio, os frades de Luanda, Huambo, Negage, paroquianos de Luanda, Uige foram ligando e ai comecei a dar conta de que afinal estava longe.

Agora, como tem sido o dia-a-dia?

No convento de Asolo, somos todos negativos. Rezamos, comemos juntos, com portas fechadas. Não se admite a entrada de qualquer pessoa, inclusive dos nossos confrades de outros conventos.

Que conselho deixa aos nossos concidadãos, em função do alastramento da doença, quer em Angola, quer no mundo?

Lavar-se muitas vezes as mãos. Evitar aproximação com as pessoas, não abraçar, nem beijar. Não tocar os olhos ou nariz com os dedos, sem lenço. Tapar a boca e nariz se espirrar ou tossir, cuspir os escarros e não engoli-los. Não tomar medicamentos anti-virais, sem a prescrição de um médico. Usar máscara e luvas ao sair de casa. Cumprir escrupulosamente o regulamento estabelecido pela autoridade de direito. Aqui, na Itália, a violação implica multa.

Muita gente duvida dos efeitos dessa doença, não se protege e alega que Deus vai se encarregar disso...

A Covid-19 é uma realidade; não se deve duvidar da sua existência, nem da sua gravidade. Não é verdade, como dizem alguns, que é doença apenas das pessoas de raça branca. Eu não sou branco e apanhei. Quem não tiver imunidade apanha com facilidade. No entanto, sem abusar, devemos confiar, porque "se o Senhor não edificar a casa, em vão trabalham os que a edificam; se o Senhor não guardar a cidade, em vão vigia a sentinela" (Salmo 127).
A Covid-19 não é apenas para os chineses, nem para brancos e não escolhe idade. Os velhos morrem, porque muitos não aguentam, como também os jovens. Fique claro isto. Eu fiquei doente. Porventura, sou chinês ou branco? O coronavírus está a criar uma espécie de segregação racial. Há quem diz ser doença dos negros, que estes devem ser expulsos da Europa, como também alguns confundem o chinês e o coronavírus. Não é a mesma coisa. É questão da informação, trabalho para os meios de comunicação social.
Mas as pessoas teimam em não cumprir com as regras ...
Devemos ter muito cuidado. Boris Johnson, Primeiro-Ministro do Reino Unido, pensava que fosse apenas doença para idosos. Semanas depois, foi atacado pelo vírus e acabou no hospital, aprendeu a lição. O argumento de que os idosos são os que menos sobrevivem não colhe. É uma questão de imunidade. Aqui, em Asolo, os mais velhos fizeram "tambone" e saíram ilesos.

PERFIL

Gabriel Tjivela

Naturalidade: Província da Huíla, município de Kalukembe, aldeia de Etunda

Data de nascimento: 5 de Janeiro de 1956

Chegada em Itália: 12 de Novembro de 2019

Residência actual: Convento de Asolo Oásis de Sant’Ana, desde Janeiro do ano em curso

Serviços na Igreja e na ordem: Vice-reitor, professor no Seminário Capuchinho, em Camabatela, mestre dos Postulantes, dos Noviços, professor no Seminário Maior “Sagrado Coração de Jesus”, em Luanda, pároco na Igreja de S. José Operário, no Negage, Igreja Católica.

Estudos: Formação académica na aldeia, Lubango, Kuito (Bié), Seminário Cristo-Rei, no Huambo, formação especial em Roma.
Profissão religiosa na ordem dos frades menores capuchinhos; ordenado sacerdote na Igreja Católica

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