Entrevista

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Fredy Leyva Pupo: O impacto negativo da Covid-19 nas unidades educativas

Victor Mayala e Jaquelino Figueiredo | Soyo

Jornalista

O impacto negativo da Covid-19 no sector educativo e de ensino é um problema imprevisível, que coloca os Governos de todo o mundo, incluindo o de Angola, num exercício frenético, em meio a tantas incertezas, de procura de soluções consentâneas, que devem passar, sobretudo, pelo aperfeiçoamento dos seus programas de saúde, para assegurar a continuidade dos processos educativos em tempos de pandemia à escala planetária. Diante desta realidade, que em Angola intriga os vários intervenientes no processo educativo e de ensino, cujas opiniões divergem sobre as condições actuais das distintas unidades educativas no país, versus as possibilidades da retoma das aulas presenciais com sucesso, o Jornal de Angola traz, nesta entrevista, reflexões de um especialista em Educação e colaborador do Instituto Superior Politécnico Privado do Zaire e da Escola Superior Politécnica do Zaire, no Soyo, adstrita à Universidade 11 de Novembro, Fredy Leyva Pupo.

06/10/2020  Última atualização 10H00
Edições Novembro © Fotografia por: Especialista em Educação, Fredy Leyva Pupo.

Diante da imprevisibilidade da Covid-19, como as unidades educativas e de ensino no país devem actuar face ao problema e à necessidade de garantir a continuidade do processo com segurança?

A Covid-19 surpreendeu um mundo em desenvolvimento, económico, industrial e ao mesmo tempo de flutuantes crises, que não teve em conta a preparação científica, psicológica, social e económica para enfrentar uma pandemia desta natureza. A retoma das aulas presenciais é possível, caso as condições materiais e psicológicas forem garantidas na prática em todas as instituições.

A Covid-19, é uma oportunidade para revolucionar a educação no nosso país?

Hoje, não podemos prever o futuro, mas cada unidade educativa tem a oportunidade de preparar os professores, em função do aperfeiçoamento do programa de saúde, que constitui o eixo transversal em processos educativos, que por sua vez forma cada cidadão para enfrentar um futuro imprevisível, que exigirá de cada um determinadas habilidades e modos de comportamentos reflexivos que lhes permitam projectar estratégias para a resolução de situações problemáticas que o seu meio apresentará.

A tecnologia pode ser a solução?

O mundo vive hoje um desenvolvimento informático que alguns “experts” na matéria chamam de “Era Digital”. A tecnologia podia ser uma alternativa que permitiria sustentar o ensino à distância, diante de uma pandemia como a Covid-19, que não é a primeira, e muito menos a última que a humanidade está a viver.
São inumeráveis os factores que impedem o êxito de tão valioso processo, onde as principais lacunas se centram na carência de plataformas educativas virtuais que permitam o ensino online e offline. Mes-mo que existisse, o mundo ainda não está preparado, pois existem zonas vulneráveis de pobreza, brechas de equidade tecnológica e carências de equipamentos. Outra contrariedade é que onde existem equipamentos, não há especialistas que possam conduzir esta tão importante tarefa. Entretanto, a Covid-19 revelou em grande medida que os Sistemas Educativos dos denominados “Países Desenvolvidos” apresentam sérias carências neste domínio, ou seja, a im-possibilidade de realizar aulas presenciais.

Do que se trata então é educar para as novas tecnologias?

Trata-se de educar sobre as novas tecnologias, o que implica uma atitude crítica sobre as mesmas, confrontando as suas possíveis consequências sociais. Se em programação televisiva e de outros meios de transmissão de informação, se têm em conta critérios educativos, as novas tecnologias podiam alcançar uma dimensão positiva sobre a educação audiovisual.
Na actualidade, cresce o nú-mero de fóruns internacionais onde se aborda a necessidade imperiosa de enfrentar as provocações que expõe a incorporação das Tecnologias de Informação e Comunicação (TIC) aos processos educativos, assim como a abordagem do que se convencionou chamar-se Sociedade de Informação ou Sociedade do Conhecimento das Ciências da Educação.
Entretanto, a instituição educativa serve à sociedade que a estabelece e retribui a ela um indivíduo formado de acordo com as suas expectativas e necessidades, de ma-neira que reproduza o modelo social, enriquecido pela praxe e permita, num ciclo contínuo e progressivo, a sua transformação e avanço. A nossa sociedade adquiriu consciência de um necessário redimensionamento do sistema organizacional da escola. Urge obter realmente uma mudança no grau de conhecimento e consideração em termos de projecção, na concepção organizacional do trabalho escolar.

Como fazer das gerações futuras seres conscientes e activos dentro da sua própria actividade em tempos de pandemia?

A tarefa consistiria em garantir a superação profissional, pois esta constitui um conjunto de processos que possibilita aos docentes a aquisição, complementação, ampliação, reabilitação e aperfeiçoamento contínuo dos conhecimentos, habilidades básicas e especializadas, necessárias para um melhor desempenho profissional, permitindo a estes activar em cada educando um processo que garanta a apropriação activa e criadora da cultura do seu meio e de co-nhecimentos do seu percurso histórico.
Isto permite o trânsito da de-pendência à independência e auto-regulação, desenvolver a capacidade para realizar aprendizagens permanentes, a partir do domínio de habilidades e estratégias para aprender a “aprender”, além de proporcionar a possibilidade de uma auto-educação constante, com a finalidade de formar uma personalidade integral e determinada, capaz de transformar-se e de transformar a sua realidade num contexto histórico.

A educação é a arma mais forte que permite mudar o Mundo

O que implica obter um indivíduo transformador?

Obter um indivíduo transformador implica a existência de um processo onde o estudante joga um papel principal a partir da integração do cognitivo-afectivo e o instrutivo-educativo, num contexto que constitua uma via mediadora de aquisição e recreacção de conhecimentos, procedimentos, habilidades, normas de comportamento e valores humanos neste período de pandemia.

Qual seria a finalidade das premissas antes mencionadas?

As premissas antes mencionadas devem ter como finalidade o desenvolvimento do pensamento correcto, a formação de interesses cognitivos e motivos para o estudo e a auto-aprendizagem. O trabalho do docente é árduo e decisivo, pois este deve ori-entar e dirigir a actividade do aluno, quer de maneira individual quer colectiva, de tal modo que a influência dos “outros” propicie o desenvolvimento in-dividual, estimulando o pensamento lógico, o pensamento teórico e por sua vez obter a independência cognitiva do externo social ao interno individual e vice-versa.
Os nossos alunos devem elaborar perguntas que favoreçam a sua implicação no processo de ensino e aprendizagem, a partir da activação de processos lógicos de pensamento, para garantir a sua independência cognitiva, além de fortalecer os seus modos de expressão, observação, análise, interpretação, leitura e de escutar a informação, determinando o essencial e o secundário.
Portanto, o mundo deve direccionar os sistemas educativos para a formação do indivíduo antes descrito, só assim se ga-rante uma bem-sucedida educação à distância, uma interacção reflexiva com plataformas educativas digitais online e offline, um aproveitamento de emissões televisivas educativas e a execução de actividades orientadas de maneira não presencial em cada nível educativo naquelas zonas vulneráveis, onde ainda não existe um sistema de tecnologias de informação e comunicação (TIC’s).

A educação pode reprimir-se?

A educação é um processo contínuo, social e historicamente determinado de emissões e apropriações do acervo cultural de cada região. Nelson Mandela afirmava que “A educação é a arma mais forte que se pode usar para mudar o mundo”. Esta reflexão permite-nos concluir que estamos diante de um inimigo invisível, chamado Covid-19, que pode ser combatido a partir das unidades educativas com e sem processos presenciais, mas de maneira contínua, segundo o nível de ensino e o comportamento epidemiológico.
Hoje, com a presença da Covid-19, o mundo deu um olhar aos problemas educativos que deixaram de ser o centro das atenções, perante outras preocupações económicas e ao mesmo tempo mostrou que os Estados estavam preocupados com os conflitos que diferem das verdadeiras razões da raça humana.

A retoma das aulas em Angola é algo positivo ou pode aumentar o contágio da Covid-19?

Penso que é algo positivo, pois a educação não pode condicionar-se nem reprimir-se. Ela como processo é contínuo e contribuirá para o desenvolvimento de novos modos de comportamento de todos os factores que integram a sociedade e esta multiplicidade interactiva e factorial tem que responder à necessidade da contínua formação.
Portanto, sou de opinião que os subsistemas educativos que antecedem, devem garantir à Educação universitária a correcta condução dos processos com as crianças, adolescentes, pais e encarregados de educação, para depois dar início às aulas nestes subsistemas educativos e de ensino, com a criação de condições de biossegurança em cada instituição.

À escola vai-se também para fazer investigação

Como deve basear-se a organização funcional da escola num contexto de tantas incertezas, em função da Covid-19?

A organização funcional, deve basear-se, fundamentalmente, na relação com os agentes educativos, no desenho dos programas curriculares, uso de recursos, extensão dos serviços e aperfeiçoamento dos suportes profissionais, de modo a que se possa adquirir capacidade para identificar e incorporar novas formas de trabalho, através da redefinição de estratégias e da cultura educacional gerada, num contexto totalmente diferente do que se vive, actualmente, caracterizado pela pandemia de Covid-19.
Diferentes autores se referiram nas suas obras sobre a necessária relação entre a escola e o meio. Ou seja, a escola tem relações com a comunidade circundante no seu conjunto e com determinadas entidades, forças e organizações externas, entre as quais famílias, autoridades governamentais, autoridades tradicionais, associações de diversas índoles e empresas, que são indispensáveis no processo de fortalecimento, criação e fiscalização das medidas de prevenção contra a Covid-19.

Porque é que o mundo deteve os processos educativos?

Uma das causas são os enguiços na supervisão. O estado actual evidenciou o bom, o mal feito e as carências da educação, dada a falta de acompanhamento.A supervisão deve favorecer a implementação das transformações que são introduzidas no processo educativo, as especificidades para a organização escolar, a atenção sistemática à avaliação do rendimento escolar dos estudantes, mediante o recolhimento de julgamentos de valor nas diferentes colectividades de sujeitos que intervêm na dinâmica do trabalho da instituição educativa.
O aperfeiçoamento contínuo do trabalho que desenvolvem as instituições educacionais para garantir a elevação da qualidade educativa, através da orientação profissional, dada por pessoas competentes em matéria de educação, de forma tal que se garanta a preparação sistemática das diferentes estruturas que incidem no desenvolvimento do processo de ensino-aprendizagem, requer da supervisão educativa uma visão centrada nos seguintes aspectos:
a supervisão educativa deve propiciar o conhecimento objectivo, permanente e actualizado das condições nas quais se desenvolve o processo de ensino-aprendizagem. E no contexto da Covid-19, a supervisão afigura-se fundamental para a análise dos diferentes factores negativos na efectivação do processo educativo. Conceber o ensino e a aprendizagem de maneira tal que se tenha em conta o seu efeito no desenvolvimento do aluno, de modo a contribuir para a formação, nos meninos e jovens, de uma personalidade forte, com a qualidade que lhes permita, além de adaptar-se às constantes mudanças que se operam no mundo actual, participar também na transformação da sociedade em que vivem.
O processo de ensino-aprendizagem tem que ir privilegiando cada vez mais espaços para que o aluno possa desenvolver a independência cognitiva na interacção com os seus contextos, em correspondência com os constantes e acelerados descobrimentos, que se operam no terceiro milénio.
Segundo as concepções que sustentam os novos paradigmas, para garantir que a supervisão educativa se converta numa via efectiva para o conhecimento objectivo, permanente e actualizado das condições nas quais se desenvolve o processo de ensino-aprendizagem, é necessário que se tome em consideração os seguintes aspectos: as novas e cada vez mais crescentes exigências que o desenvolvimento científico, tecnológico e social expõe à escola e que exigem um aperfeiçoamento contínuo dos métodos de ensino, pois estes adquirem uma significação essencial na formação dos alunos, sobretudo na adaptação ao novo normal imposto pela Covid-19.

Qual seria o papel do professor no processo de supervisão?

O professor tem um papel importante neste processo. Seu exemplo pessoal e sua função de condutor do processo de ensino-aprendizagem são meios para demonstrar aos alunos que a assistência à escola não se reduz a acolher e confirmar ordens, mas sim que à escola vai-se também para investigar e, com o emprego de capacidades próprias, realizar de maneira criativa tarefas cada vez mais complexas.
Deste modo, o professor pode contribuir para o aperfeiçoamento contínuo da obra educacional e reafirmar o papel da educação como elemento chave para salvar a humanidade, diminuir a brecha de desigualdade social e consolidar a formação de valores como a tarefa de primeira ordem que lhe expõe à educação na actualidade, com a humanidade a lutar contra uma pandemia cuja cura ainda não está à vista.

Perfil

Fredy Leyva Pupo

Formação
Mestre em Educação
Mestre em Investigação
Licenciado em História e Filosofia
Licenciado em Pedagogia
Pelo Instituto Superior Pedagógico Enrique José Varona/ Havana-Cuba

Experiência Profissional
em Angola
Professor colaborador do Instituto Superior Politécnico Privado do Zaire (2020)
Professor da Escola Superior Politécnica do Zaire afecta à Universidade 11 de Novembro, colocado no Município do Soyo, Província do Zaire (2012 – 2020)
Assessor do Colégio Nzala Nsenga /Soyo /Província do Zaire (2017 - 2020)

Funções anteriores em Cuba:
Professor principal de Metodologia da Investigação da Universidade de Ciências Pedagógicas Ruben Martinez Villana de 2008 à 2012 (Município de Mariel/Cuba)
Subdirector de Investigação e Pós-graduado da Universidade de Ciências Pedagógicas Ruben Martinez Villana-2004 (Cuba)
Director da Escola Celestino Moreno Fiallo 1997 (Município de Mariel/Cuba)
Subdirector da Escola Flores Betancourt - 1995 (Município Caimito/Cuba)

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