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França diz que saída da crise requer tempo

O ministro francês dos Negócios Estrangeiros, Jean-Yves Le Drian, advertiu, ontem, o homólogo norte-americano, Antony Blinken, que a saída da crise entre a França e os Estados Unidos levará “tempo” e exigirá “acções”.

24/09/2021  Última atualização 05H05
Num comunicado divulgado pelo Ministério dos Negócios Estrangeiros francês, as palavras de Le Drien foram ditas a Blinken num encontro entre ambos realizado na missão diplomática gaulesa nas Nações Unidas, em Nova Iorque, em que analisaram a crise diplomática desencadeada com o contencioso relacionado com os submarinos.


"Le Drian lembrou que, quarta-feira, foi dado um primeiro passo com a conversa (telefónica) entre os dois Presidentes (Emmanuel Macron, da França, e Joe Biden, dos Estados Unidos), mas lembrou que a saída da crise entre os dois países levará tempo e exigirá acção”, lê-se no comunicado.


Segundo o documento, Le Drian analisou com Blinken o fortalecimento do processo de consulta que os dois países concordaram para "recuperar a confiança”, tendo ambos concordado em manter "contactos estreitos”.


Le Drian e Blinken coincidiram em várias reuniões com outros ministros realizadas na sede da ONU, incluindo uma privada, na noite de quarta-feira, entre os cinco membros permanentes do Conselho de Segurança, e uma sessão aberta ontem naquele mesmo órgão para discutir a crise climática.
Na quarta-feira, Macron e Biden concordaram nos primeiros passos para reduzir a tensão e concordaram em encontrar-se, pessoalmente, em Outubro, na Europa.

A primeira medida será o regresso aos Estados Unidos do embaixador francês, chamado a Paris na semana passada para consultas, tal como o representante diplomático francês na Austrália.

A crise entre os dois países deve-se ao facto de os Estados Unidos, Reino Unido e Austrália terem assinado o pacto AUKUS (iniciais em inglês dos três países anglo-saxónicos), que visa reforçar a cooperação trilateral em

tecnologias avançadas de defesa, como a Inteligência Artificial, sistemas submarinos e vigilância a longa distância. Uma primeira consequência foi o cancelamento, pela Austrália, de um contrato com a França para o fornecimento de submarinos convencionais e a intenção de desenvolver submarinos nucleares em coordenação com os seus novos aliados, o que já originou protestos e críticas de Paris.

A França tinha um contrato para a entrega à Austrália de 12 submarinos com propulsão convencional no valor de 56 mil milhões de euros, que foi cancelado por Camberra, que comprou posteriormente os submergíveis aos Estados Unidos.

Paris expressou insatisfação com os três países signatários do pacto AUKUS depois de, na sexta-feira, o Presidente de França, Emmanuel Macron, ter decidido chamar os embaixadores em Washington e Camberra para consultas.
 Uma medida sem precedentes que as autoridades francesas justificaram com o que consideraram uma "traição” dos três países aliados tradicionais e uma grave quebra de confiança.
                  Ministro afirma que Washington minou a confiança com Europa
O ministro da Economia francês, Bruno Le Maire, afirmou, ontem, que a crise dos submarinos mostra que a União Europeia "já não pode contar” com os Estados Unidos para garantir protecção e pediu aos europeus que "abram os olhos”.

"A primeira lição a tirar deste episódio é que a União Europeia deve construir a sua independência estratégica. O episódio do Afeganistão e o episódio dos submarinos mostram que já não podemos contar com os Estados Unidos para garantir a nossa protecção estratégica”, referiu, em declarações à Franceinfo, citadas pela Angop.
 "Os Estados Unidos só têm uma preocupação estratégica: a China, e conter o aumento de poder da China”, acrescentou o ministro francês.

Segundo Bruno Le Maire, tanto o ex-Presidente Donald Trump como o actual, Joe Biden, "acreditam que os seus aliados devem ser dóceis”.
 "Mas nós acreditamos que devemos ser independentes”, defendeu, acrescentando que "os parceiros europeus têm de abrir os olhos”.
 O ministro da Economia francês aproveitou esta entrevista para criticar "o apoio da Dinamarca aos Estados Unidos”, sendo que as autoridades de Oslo foram as únicas que não criticaram a decisão de Washington.
A Primeira-Ministra dinamarquesa, Mette Frederiksen, afirmou não perceber a posição tomada pelos parceiros europeus.

"Pensar como o chefe do Executivo da Dinamarca, que os Estados Unidos continuarão a proteger-nos e defender-nos aconteça o que acontecer, é um erro”, considerou, adiantando que, a partir de agora, a Europa "não pode contar com ninguém além de si mesma”.

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