Cultura

Formação religiosa metodista de Agostinho Neto influenciou na luta pela igualdade dos oprimidos

Manuel Albano

Jornalista

O docente universitário brasileiro Anelito de Oliveira ressaltou, esta terça-feira, em Luanda, que toda a actividade política desenvolvida pelo primeiro Presidente de Angola, Agostinho Neto, teve uma base na solidariedade e na defesa dos direitos de igualdade dos povos, fruto da sua formação religiosa metodista.

30/11/2022  Última atualização 11H43
Vida e obra de Neto analisado pelo professor brasileiro Anelito de Oliveira durante uma conferência internacional em Luanda © Fotografia por: Edições de Novembro

Ao dissertar na conferência internacional sobre "Os Homens Negros Ignorantes Agostinho Neto e a Poesia da Solidariedade Africana, realizada, no Memorial Dr. António Agostinho Neto, o docente e doutorado em Literatura ressaltou que a formação religiosa do primeiro Presidente de Angola, enquanto jovem, permitiu-lhe perceber a importância da humanização e procurar lutar pelo interesse da colectividade.

Com um profundo conhecimento sobre a literatura do Fundador da Nação, Anelito de Oliveira tem desenvolvido nas universidades brasileiras estudos e debates sobre a vida e obra de Neto devido a sua abrangência universal por causa da dignidade humana na defesa dos direitos de igualdade dos povos oprimidos.

Durante aproximadamente duas horas de diálogo com estudantes, pesquisadores e estudiosos sobre a obra de Agostinho Neto, o docente brasileiro fez saber que Neto tomou consciência que a fé sem afecto seria inútil e que precisa ser um agente activo e modificador de consciências, de maneira que os nativos pudessem adquirir os seus direitos e exercer a sua cidadania plena.

No sentido patriótico, classificou Agostinho Neto, como alguém que sempre se preocupou unificar os angolanos, sempre na perspectiva que se construir uma nação seria importante o respeito mútuo, saber na diferença, por ser significativa para a construção, manutenção e expansão das potencialidades de uma nação.

O patriotismo de Agostinho Neto, continuou, contribui, decisivamente, para a construção de uma Angola que, a sua geração na década de 1940, sonhou como uma nação unificada, na sua harmonia interior. Para se construir uma nação de valores, Neto, disse, teve que abrir mão de muitos sonhos pessoais e pensar sempre no bem comum, no colectivo e nunca no individual.

Anelito de Oliveira sublinhou que o patriotismo de Agostinho Neto está reflectido nas suas obras, o que o obrigou a abdicar de vários princípios familiares, para se dedicar em defesa dos mais necessitados. "Ele se sacrifica pela colectividade e foi com essa entrega que durante anos dedicou-se à luta e à causa revolucionária em Angola, em particular, e em África, no geral”.

Como referência do patriotismo e solidariedade da poesia de Neto, o académico brasileiro apresentou como proposta de análise, os poemas "Adeus à Hora da Largada” e "Velho Negro”, que exprimem uma perspectiva da ascendência colectiva.

Quanto aos versos do Poeta Maior, disse, está subentendido a sua preocupação com os negros oprimidos pelo colonialismo ao longo de quatro séculos. No entanto, explicou, foi com esse princípio, que o estadista Agostinho Neto se dedicou pelas causas nobres, pelos quais, toda uma acção social de ver um propósito. "Os homens negros ignorante não foram por vontade própria. Sociedade não é uma questão de querer, mas de poder. Não se é culpado por não se ter acesso à escola. Quando se é ignorante e não se tem conhecimento, há uma causa, não apenas local, mas global”.      

Na sua visão, Agostinho Neto torna-se revolucionário, transformador em razão do que viveu e fruto do que foi produzido pela colonização no país e no continente africano.  "A solidariedade é um traço característico da poesia de Neto, que faz a sua obra ser de empoderamento, motivacional das pessoas oprimidas como parte do processo de valorização do homem”.

O administrador da Fundação Sagrada Esperança, João Bernardo, incentivou a administração do Memorial Dr. António Agostinho Neto a continuidade do mesmo exercício por permitir aumentar as fontes de conhecimento e de saber sobre a vida e obra do presidente Neto.

João Bernardo explicou estar em contacto com académicos e estudiosos internacionais, no sentido de ajudar a promover e a difundir a obra de Neto pelas grandes universidades mundiais. "Agostinho Neto foi um homem do mundo e temos que aprender sempre com os seus ensinamentos para a edificação do nosso país”.

  Neto estudado nas academias internacionais

O chefe do Departamento  de Sarcófago e Acção Cultural, Rigoberto Fialho, disse que o objectivo da administração do Memorial Dr. António Agostinho Neto é continuar a promover conferências internacionais sobre a vida e obra do primeiro estadista angolano, no sentido de trazer novos factos culturais.

A intenção explicou é abordar a trajectória do Fundador da Nação, na observação de estudiosos, pesquisadores e académicos internacionais, sobre como analisam a obra literária de Agostinho Neto.

O responsável ressaltou que o propósito foi explorar o conhecimento académico do professor doutor brasileiro Anelito de Oliveira, como um estudioso da negritude brasileira e no mundo, bem como fazer uma agregação da literatura angolana e brasileira e de outras realidades.

A conferência está enquadrada no âmbito das celebrações do centenário de Agostinho Neto e visa dotar o público, fundamentalmente, estudantil de conhecimentos contínuos sobre a vida e a obra do primeiro Presidente de Angola. "Queremos que o conhecimento continue a ser partilhado de forma intensiva e não fique somente limitado às visitas guiadas à nossa instituição” destacou.

Para Rigoberto Fialho foi um agrado poder observar académicos de outras esferas geográficas a estudarem a vida e obra do Poeta Maior com muita profundidade nas principais academias mundiais. "É uma grande satisfação até porque também estamos nas universidades nacionais a fazer um trabalho para que a figura de Neto continue a ser motivo de estudo a nível das escolas no país”.

Como se constatou na conferência de ontem, disse, o docente Anelito de Oliveira, tem feito um profundo estudo sobre a literatura de Manguxi nas universidades brasileiras.

O mesmo exercício, referiu, tem sido observado, também, por académicos e alunos angolanos que estão a fazer as suas dissertações finais de curso nas universidades norte-americanas. "Essas conferências nos dão uma visão diferente sobre como as obras de Neto são vistas no contexto internacional”.

  Biografia

Anelito Pereira de Oliveira é mineiro, nascido em Engenheiro Navarro, em 1970. Morou em Bocaiúva, Montes Claros e, actualmente, reside em Belo Horizonte. Graduou-se em Letras na Universidade Federal de Minas Gerais, onde obteve, em 1998, o título de mestre em Teoria da Literatura. É o criador e editor do Jornal "Não”, destinado à publicação de poesia, crítica e tradução, surgido em 1997, numa tentativa bem-sucedida de criar um novo espaço para as publicações literárias em Minas Gerais.

O projecto é responsável pela publicação de revistas literárias e livros. Entre 1999 e 2002, foi editor do Suplemento Literário Minas Gerais, dando continuidade a uma tradição de mais de trinta anos.

O projecto de execução deste periódico foi imaginado por Murilo Rubião, poeta mineiro, que foi também seu primeiro editor. O Suplemento é editado pela Secretaria da Cultura do Estado e é sem dúvida uma das mais importantes publicações do país no que se refere à produção literária, assim como se concretiza como um espaço de surgimento de novos poetas.

Anelito de Oliveira publicou "Lama”, seu primeiro livro, em 2000. O autor o define como um "poema longo-curto: longo pela intensidade imagética, curto pelo número de palavras”. O próprio autor, assim como alguns críticos, menciona o diálogo existente entre Lama e a obscuridade de Mallarmé ou a perturbação do sujeito como aparece em Fernando Pessoa.

Em 2004, lançou Três Festas/A Love Song As Monk, no qual, nas palavras de Wilmar Silva, "o poeta explora com veemência o estado complexo do ser humano mergulhado em si e em seu espaço”. Anelito escreveu ainda ensaios sobre Machado de Assis, Cruz e Souza e alguns poetas contemporâneos.

Comentários

Seja o primeiro a comentar esta notícia!

Comente

Faça login para introduzir o seu comentário.

Login

Cultura