Cultura

Fim de um ciclo da genialidade criativa da cultura popular

A produção artística da cultura popular angolana tem revelado nomes importantes que vão fazendo história ao longo da sua existência, sem o respeitado e merecido destaque, no âmbito da investigação dos Estudos Culturais Angolanos. Distantes dos holofotes do universo de avaliação académica, a verdade é que muitas dessas figuras, demonstraram na prática a sua genialidade criativa em grupos musicais, produção do Carnaval e na generalidade das artes.

15/06/2020  Última atualização 15H02
Kindala Manuel | Edições Novembro © Fotografia por: Comandante do União 10 de Dezembro foi a enterrar sábado no cemitério da Santa Ana

Embora não tenha conquistado grandes títulos académicos no domínio da criação artística, Pedro Vidal distinguiu-se como compositor, desportista, e, fundamentalmente, coreógrafo do seu grupo de Carnaval, o União 10 de Dezembro. Multi-talentoso, a escola da vida e os ensinamentos inspirados no Mestre Nganhala, do União 54, orientaram a prática artística de um dos foliões mais respeitados do Carnaval luandense e dos circuitos culturais do Bairro Prenda.

Pedro Vidal chegou a Luanda ainda pequeno com os seus pais, proveniente de Malanje, em 1962, viveu nos Bairros, Indígena, Rangel e mudou-se para o Catambor, em 1963. Em 1968, iniciou os estudos primários na Escola do Catambor, junto à sede do Clube Desportivo 1º de Agosto. No entanto, o seu carácter interventivo, motivação social e política começou em 1975, aos quinze anos de idade, com a sua integração voluntária na Organização do Pioneiro Angolano (O.P.A.), do MPLA, na base Pantera Negra, até 1978.

No ano seguinte, contrariando as características de constituição familiar dos grupos de carnaval, no caso o União 54, e pela necessidade de emancipação artística, Pedro Vidal fundou o União 10 de Dezembro com Francisco Pimentel, José Diogo Bartolomeu, Francisco António Mateus, Domingos João Manuel, Agostinho Luís Filipe, Conceição João Manuel e Maria António Mateus. Embora já formado, o União 10 de Dezembro não participou na edição do carnaval de 1978, em se sagrou vencedor o grupo, União Operário Kabocomeu, tendo participado na edição de 1979. Em 1982, ao abrigo da lei do serviço militar, Pedro Vidal foi chamado para o exército tendo sido destacado na província do Cuando-Cubango, onde fez recruta no Centro de Instrução Comandante Marcolino. Chegado a Luanda, pela segunda vez, foi integrado na Força Aérea, até 1983, e depois no Centro de Instrução do Kikuxi da Direcção Nacional de Luta Contra Bandidos, em 1985, tendo terminado a formação com distinção. Durante o período em que Pedro Vidal dirigiu o União 10 de Dezembro, conquistou catorze vezes o título de “Melhor comandante” do Carnaval no desfile central de Luanda e o seu grupo arrecadou quatro títulos nas edições de 1991, 1999, 2002 e 2006, respectivamente.

Filho de Garcia Vidal e de Cristina Balanga Roque, Pedro Garcia Vidal nasceu em Malanje, Município de Kangandala, no dia 12 de Maio de 1962, e faleceu nesta a quarta-feira (10), em Luanda, vítima de doença.

Movimento

Há uma tradição cultural e movimento artístico no Bairro Prenda e Samba, que inclui as regiões do Margoso, Onze Bravos da Samba Pequena, Amazonas, Praça dos kibalas, zona do grupo de Carnaval União 54, espaços que estão na origem dos conjuntos musicais “Ases do Prenda”, “Jovens do Prenda”, “Os Corimbas”, parte do agrupamento “Os gingas” e do cantor e compositor Dino Kapakupaco. São igualmente dos bairros Prenda e Samba, os grupos de Carnaval “Jovens da Cacimba”, União 54, já referenciado, e o célebre, “Feijoeiros do Ngola Kimbanda”, do Mestre Geraldo. À época muitos jovens reuniam-se à volta do “Mbondoyá Mbulungo”, um frondoso embondeiro secular, situado próximo na oitava esquadra, no Bairro Prenda. Pedro Vidal viveu nesta zona, espaço de confluência de múltiplos saberes artísticos, que vieram a influenciar a sua personalidade e activismo artístico.

Desporto

Pedro Vidal foi um destacado futebolista da equipa júnior e sénior do Grupo Desportivo Juventude do Prenda. Sobre o seu perfil como desportista, Teixeira Garcia Vidal, seu irmão, revelou o seguinte, “Mesmo com uma idade avançada o meu irmão ainda chegou a ser contratado para jogar na equipa principal do 1ª de Agosto. De facto, ele era um exímio futebolista, detentor de um pé esquerdo fabuloso com um grande poder de impulso. Em campo ele era uma grande ‘dor de cabeça’ para os defesas da equipa adversária.”

Falecidos

A corte é o espelho de qualquer grupo de Carnaval e as características da sua exibição são relevantes para a classificação das competições do grande desfile central. Várias figuras importantes do Carnaval desapareceram ao longo da história do Carnaval e são merecedoras de uma maior valorização académica, na história da cultura angolana. Destacamos os nomes de António Paquete, António Francisco João, vulgarmente conhecido por, “Man Godó”, Valéria de Almeida, Joana José Pinto e Luísa Bernardo, todos do União Mundo da Ilha. Merece destaque e importância histórica, entre outros, não menos importantes, o grande bailarino, Joaquim António, o carismático, “Desliza”, operário de construção civil que trabalhou nos armazéns da firma, “Diogo e Companhia”, na época colonial, do União Operário Kabocomeu, grupo fundado no dia 2 de Janeiro de 1952, em Luanda, igualmente falecido.


Estudos

As maiores dificuldades que os pesquisadores encontram quando decidem estudar o Carnaval angolano, são a carência de livros especializados e a quase inexistência de documentos e registos escritos. A história do carnaval angolano e o perfil biográfico das suas principais figuras, reclama uma investigação sistematizada, incluindo a consequente publicação de títulos bibliográficos especializados sobre o Carnaval.

 

Homenagem

O grupo de Carnaval União 10 de Dezembro foi homenageado em Fevereiro de 2011. Tratou-se de uma distinção de mérito realizada, anualmente, pelo Ministério da Cultura, pelo contributo dos grupos de carnaval na afirmação da identidade cultural angolana. O grupo foi distinguido, igualmente, pelas suas inovações na dança e empenho na preservação da tradição do carnaval. Na sequência da homenagem o grupo, União 10 de Dezembro recebeu um diploma de mérito.


Emocionante depoimento de Paulo Gomes sobre Pedro Vidal

Paulo Gomes, radialista e um dos mais importantes investigadores da história do Carnaval, referiu-se ao Comandante Pedro Vidal, nos seguintes termos: “Conheci o Pedro Vidal nas suas múltiplas facetas. Um homem talhado para ser um bom aglutinador de afectos e um bom motivador de talentos para o carnaval e desporto. No nosso Bairro Prenda sempre estivemos mergulhados num ambiente cultural de riqueza imensurável. Na sua extensão geográfica, germinaram núcleos fervorosos de activos promotores culturais que, em certos momentos, empreendiam cenas de rivalidade sem, no entanto, afectar a salubridade da emanação essencial de espontaneidade e do convívio social direccionado à disseminação de valores. Na sua dimensão cultural, Pedro Vidal é o resultado da influência de um movimento cultural juvenil que floresceu no final dos anos setenta, mais propriamente em 1978, quando ocorre a primeira edição do Carnaval de Angola do pós-independência. Movidos pela vontade de ingressarem na elite da principal referência carnavalesca do bairro, o União 54, brotaram várias réplicas independentes de agremiações juniores sedimentadas pela fórmula da transmissão hereditária do espólio artístico que vertia ainda robusta no desempenho dos mais velhos. Pedro Vidal rompeu os padrões tolhidos na génese do Carnaval de Luanda, ao manifestar inconformismo e têmpera que lhe levaram a conquistar, por mérito próprio, um lugar de destaque entre os principais cultores do semba, através da criação de uma geometria coreográfica magnífica, com adaptações de passos de comando originais do finado mestre Nganhala, do União 54, seu ídolo. Contudo, ultrapassando-o de forma meteórica pela capacidade invulgar na concepção e organização dos vários blocos de bailarinos e varinas, sem esquecer a corte, espalhando assim um brilho resplandecente na sua forma de brincar o carnaval. O altruísmo era outra das suas virtudes, ou seja, Pedro Vidal nunca guardou para si os mistérios para o sucesso do seu 10 de Dezembro e as técnicas que o tornaram no mais titulado comandante do carnaval de Luanda. Transmitiu para os líderes dos grupos rivais tudo que sabia. A competição não lhe tirava a vontade de doar o conhecimento acumulado em anos de pesquisa e ensaios suados em busca da eterna perfeição. Pedro Vidal é um ícone do nosso Prenda, por ser uma figura com aprovação generalizada naquele meio social. A explicação para esta sua ascensão ao panteão dos especiais pode estar no misticismo do nosso “Mbondoya Mbulungo”, o embondeiro secular, fonte de fortalecimento das afinidades culturais que se ramificaram em várias correntes de expressão e de afirmação das nossas gentes. Pedro Vidal é a tradução do orgulho de quem nasceu e cresceu no areal de um bairro que forjou uma plêiade de talentos nos campos da música, dança e desporto, cujas marcas ainda cintilam como referências sagradas e perpétuas do nosso mosaico cultural. Que o seu legado seja valorizado!”

 

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