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Filas à saída de Luanda para o Bengo

“Se quiseres passar, tens de ir cumprir a fila, ali, daquele lado”, indica um polícia em serviço na ponte de Kifangondo, ponto de intercessão entre o município de Cacuaco, província de Luanda, e a localidade do Panguila, no Bengo. Malungani Afonso aborrece-se, resmunga e tranca a cara. Marca um passo para trás e vira-se em direcção ao local onde estão perfiladas outras dezenas de pessoas nessa quinta-feira de manhã, 9 de Março.

11/04/2020  Última atualização 11H22
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À direita, num espaço desaproveitado, para quem atravessa a ponte em direcção ao Bengo, a Polícia organiza os cidadãos em dois grupos. Uma fila está formada por homens e a outra apenas por mulheres. Mas a distância entre os perfilados não é a recomendável. Estão muito juntos. De acordo com as medidas de prevenção à Covid-19, o distanciamento deve ser de, pelo menos, metro e meio.

Na fila dos homens, Malungani acomoda-se na última posição e, de repente, já está mais tranquilo. Tinha mais de 15 indivíduos à frente já foram autorizados a passar. O jovem, que trabalha como despachante, saiu do Cazenga e pretende chegar ao porto seco do Panguila, onde diz ter grandes quantidades de mercadoria para levantar. Até ao momento em que Malungani Afonso foi chamado a prosseguir viajem, havia mais de três dezenas de pessoas atrás dele. O jovem avança satisfeito, mas lamenta a distância, de mais ou menos, cinco quilómetros, que terá de percorrer a pé, da ponte do Kifangondo ao porto seco. Não há táxis.
“Quando cheguei aqui, fiquei surpreendido. Pensei que poderíamos ficar muito tempo ali parados, à espera, mas, em menos de 30 minutos, fui autorizado a passar. O grande problema são os táxis, que não aparecem para nos levar. Vamos, mesmo, ser obrigados a andar a pé”, lamenta.
O silêncio é quase absoluto na fila dos homens. Do lado das mulheres, a “bicha” está desorganizada e há muito barulho. Algumas cantam louvores e outras manifestam alguma impaciência.
“Senhor polícia, nós deixámos os nossos filhos pequenos sozinhos, em casa. Nos autoriza só já a passar. Nos dá prioridade, porque nós é que damos de mamar às crianças”, suplica uma das mulheres.
Entre elas, Fineza José, 32 anos, é a que parece estar mais conformada com a situação. Vive em Viana, na província de Luanda, de onde saiu a pé até Kifangondo. O objectivo é chegar à lavra, na zona do Úcua, no Bengo.
“Se eu não for ao campo, os meus filhos morrem à fome. Não trabalho e o meu marido também não”, disse, para acrescentar que está consciente de que outras pessoas enfrentam a mesma situação.
“Mas o povo precisa de ter fé. Por isso, vamos cumprir as orientações do Governo. O que estamos a passar é normal. Está a acontecer o mesmo nos outros países. Devemos ter muito cuidado com esta doença, para depois podermos cantar vitória”, aconselha.
Com uma banheira recheada de produtos agrícolas à cabeça, Maria Vemba, vendedora de frescos em Caxito, está muito impaciente. Tem os pés empoeirados, quase não se vê a cor das chinelas. À frente, já não está ninguém. É agora a primeira de uma longa fila de mulheres, que almeja atravessar a ponte e chegar a casa ou ao local de trabalho.
A moradora do sector 10 do Panguila, onde vive com os seus quatro filhos e o esposo, soltou um grito de alegria. “Chegou a minha vez. Estou a ir 'mbora”, exclama, depois de receber autorização para continuar a marcha.
“Estou a sair do mercado da Vidrul, em Cacuaco. Há duas semanas que já não saía de casa. Mas a barriga não tem agradecimento. Já não tenho quase nada em casa e a fome já começa a apertar. Comprei couve, cenoura, repolho e tomate. Depois, vou ver se consigo comprar uma caixa de frango num dos armazéns do Panguila”, explica a dona Maria, que fez todo o percurso de ida e volta a pé e agora reclama de dores nos pés.
Agostinho Augusto, 33 anos, recepcionista de uma hospedaria localizada no município do Dande, embrulhou-se todo. Primeiro, disse ao agente da polícia que iria ao Bengo trabalhar, para, alguns minutos depois, explicar que transportava na mochila latas de conservas e massa alimentar para os pais, que vivem no Panguila. O polícia riu-se dele. Mas deixou-o passar.
Quem também vive no Panguila e foi obrigado a ficar na fila foi o professor Jojó de Carvalho, que, no dia anterior, saiu de casa para tratar de assuntos relacionados com o processo de aquisição de residências, na centralidade do Zango 5, e não conseguiu voltar. Segundo ele, os táxis não circulavam. “Já era tarde. Por isso, decidi passar à noite lá mesmo no Zango, na casa do meu primo”.

Automobilistas também circulam

A Polícia colocou uma barreira logo à entrada da ponte sobre o rio Kifangondo, onde os automobilistas, todos, são obrigados a parar. Apresentam as declarações e passes de serviço e, de seguida, são autorizados a passar. Circulam de um lado para outro.
Há muita gente que vive em Luanda e trabalha na província do Bengo, sobretudo nas localidades de Panguila e Caxito. No sentido inverso, existem outros tantos, que vivem naquelas localidades e trabalham em vários pontos de Luanda. Todos os dias vão e voltam.
O funcionário bancário Nicolau de Sousa vive no Panguila e trabalha num dos balcões do centro da cidade de Luanda. Conta que, nos dois primeiros dias, não conseguiu sair da localidade onde vive, porque não tinha a declaração de serviço. Mas, agora está tudo bem, confirma. “Passo à vontade e já não tenho queixas”.
Outro automobilista, Afonso João, que saía do Bengo em direcção a província de Luanda, tem duas esposas. Uma vive no Panguila, a outra num dos bairros da capital do país. À reportagem do Jornal de Angola, o contabilista e coordenador financeiro numa empresa privada de prestação de serviços, em Talatona, confessa que não chegou a enfrentar as dificuldades dos primeiros dias, porque estava confinado, em Luanda.
“Vou saber qual é a disponibilidade financeira, para ver se posso fazer já o pagamento de salários aos trabalhadores”, disse. O jovem automobilista tinha, no interior da viatura, máscaras, álcool gel e luvas, para se prevenir da Covid-19.

Uma corrida até ao Uíge

Na quinta-feira, 9, minutos antes do anúncio da prorrogação do período de Estado de Emergência, a equipa de reportagem do Jornal de Angola saiu de Luanda e percorreu cerca de 371 quilómetros de estrada até Uíge, passando por Caxito, província do Bengo.
Ao longo da via, o movimento de viaturas era muito fraco. A estrada estava livre. Alguns veículos, muito poucos, faziam linhas curtas, Caxito - Úcua, Caxito - Piri; outros saíam de Caxito até Quibaxi e vice-versa.
Depois de Caxito, a primeira paragem aconteceu na aldeia Ambuleia, onde a Lu e a Judite, duas mulheres em estado de mãe, lamentavam a falta de clientes. Comercializam bebidas alcoólicas e refrigerantes. Mas também tinham na bancada algumas frutas, como laranja, limão e abacate.
A comuna do Úcua, que era paragem obrigatória de viajantes, está às moscas. As barracas de comes e bebes estão encerradas. Quase não há ninguém nas ruas, apesar de haver no mercado local, que fica ali mesmo na via, grandes quantidades de produtos agrícolas. No Quibaxi e no Piri, as ruas estão desertas. Nas duas localidades, as vendedeiras aguardam pelos clientes.
O Jornal de Angola seguiu em direcção à ponte do rio Dange, na divisão entre as província do Bengo e do Uíge. Depois dos efectivos da Polícia Nacional analisarem, de forma rigorosa, a documentação dos repórteres, estes foram submetidos a um exame de rastreio ao Covid-19.
Da ponte sobre o Dange até à cidade do Uíge, a distância é de mais de 140 quilómetros, percorridos sem quaisquer tipos de impedimento.

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