Cultura

Ficção, moral e política ou barómetro dos intelectuais?

Luís Kandjimbo |*

Escritor

Os meus exercícios de reflexão sobre este tema são assíduos porque interessa-me compreender a função intelectual e me apaixonam o debate rigoroso e leal, a argumentação, a permanente cultura do sonho e da fantasia.

12/09/2021  Última atualização 07H40
A alegoria de Nadine Gordimer © Fotografia por: DR
Com o título  em  epígrafe anuncio o diálogo com Nadine Gordimer (1923-2014), na imagem, pretendendo deste modo falar de um intelectual concreto. No horizonte tenho a imagem do  intelectual africano  sobre o  qual  incidem as várias  forças  do contexto em que vive. A este propósito, o livro de  Nadine Gordimer é um belo exemplar que permite situar a escritora e, ao mesmo tempo, avaliar os temas que suscitam a sua atenção. A alegoria dos "três na mesma cama” exprime a ideia e a sua interpretação leva-nos aos meandros do pensamento da autora.

Como se pode perceber, proponho a tematização de um tópico que se renova permanentemente. No alvorecer do século XXI, mobilizou diversos debates e iniciativas editoriais, em África. A título de exemplo. Por iniciativa do Presidente Abdoulaye Wade do Senegal, realizou-se, em 1996, a Conferência Internacional dos Intelectuais e Homens de Cultura de África. Seguiu-se o livro do historiador nigeriano Toyin Falola, "Nationalism and African Intellectuals” [Nacionalismo e Intelectuais Africanos], em 2001.

Logo depois, duas publicações do CODESRIA: "African Intellectuals. Rethinking Politics, Language, Gender and Development” [Intelectuais Africanos. Repensando a Política, Linguagem, Género e Desenvolvimento]”, em 2005, e "Intellectuals and African Development. Pretension and Resistance in African Politics” [Intelectuais e Desenvolvimento Africano. Aspiração e Resistência na Política Africana].


Sentido da alegoria

A posicionalidade dos intelectuais em qualquer sociedade pode ter o seu barómetro no modo como se estabelecem as suas relações com a ficção, a moral e a política. Não tenho conhecimento da existência de qualquer instrumento que, em Angola, possa ser tomado como fonte dessa métrica. No entanto, por força das agendas políticas que fazem a actualidade noticiosa têm vindo a intensificar-se os comentários e as interrogações acerca do lugar e da posição que os intelectuais ocupam em Angola, presentemente.

A janela a partir da qual estão a ser lançadas aquelas interrogações tem as características de uma casa da política. Mas, sabe-se que os intelectuais habitam outras casas onde também partilham a cama com personagens que desempenham papeis específicos. No primeiro capítulo de um livro de ensaios, "Living in Hope and History: Notes From our Century”, [Vivendo na Esperança e na História: Notas sobre o Nosso Século] publicado em 1999, a escritora sul-africana Nadine Gordimer opera com uma interessante alegoria em que a ficção, a moral e a política são personagens de uma narrativa em que dormem na mesma cama.

Em seu entender, trata-se de um "perverso caso cultural”. Ficcção e moral são marido e mulher. A política persegue a moral, arrombando a fechadura e imobilizando o sistema de alarme. Na escuridão, a política abraça a ficção que, por sua vez, julga ser o abraço da moral. Não lhe é possível  sentir a diferença. A moral e a política têm uma relação de parentesco. A moral é o antepassado da política. Dessa coabitação perversa, nascem dois filhos, pertencentes à geração seguinte: conformismo e compromisso.

A reflexão de  Nadine Gordimer sobre o conformismo e o compromisso parece ser sugestiva para o estudo da posição e inscrição dos intelectuais angolanos. Por isso, a nossa conversa vai ser conduzida com os olhos postos na subjacente conflitualidade ou promiscuidade entre o conformismo e o compromisso, entre a ficção, a moral e a política. Nadine Gordimer conclui que a moral não se divorcia da ficção. Admite que a relação entre a ficção e a política não é tão pacífica quanto a que se estabelece com a moral. A ficção e a política, no seu "wild affair” [caso selvagem] mantêm uma contraditória relação de lealdade e traição.

Apesar disso, o escritor não escapa aos apelos da política. Aí Nadine Gordimer revela a sua advocacia do compromisso ou engajamento do escritor. De resto, é conhecida a sua adesão à causa do ANC, partido político clandestino que na África do Sul pugnava pela luta armada para derrubar o regime racista do apartheid. Por coneguinte, deduz-se que Nadine Gordimer responde inequivocamente a uma pergunta implícita. Para Nadine Gordimer, em defesa da autonomia perante a política, o estatuto do escritor fundado no engajamento literário é mais importante do que qualquer obediência a ortodoxias ou partidos políticos.

A escritora sul-africana considera que se a ficção literária pôde ter servido legitimamente a política, tal deve-se à transformação da imaginação que não tem dependência institucional e à vocação transformadora da ficção. Neste sentido, a posição dos escritores e intelectuais tem muito a ver com as relações que estabelecem no campo literário e outros em que intervêm, tais como o académico, o cultural e o político. E numa perspectiva dialéctica pesam na balança as suas práticas discursivas e o conteúdo das obras que produzem. Mas há uma pergunta que não se cala. Até que ponto um escritor se deve juntar a um partido político e estar ao seu serviço como um crente?


Posicionalidade e inscrição

A resposta à pergunta implica uma outra posicionalidade e um outro papel. Isto quer dizer que já não é o escritor que responde. É o intelectual que entra em cena. Tal como se depreende da reflexão de Nadine Gordimer, não existem modelos de escritores e intelectuais válidos à escala global. Por isso, justifica-se uma clarificação. Se se pode dizer que nem todos os intelectuais são escritores, também é certo que nem todos os escritores são intelectuais.

Em  1972, o ensaísta  mexicano  Octavio  Paz  fazia a destrinça entre escritores  e  intelectuais. E numa perspectiva que parece equívoca afirmava que nem  todos  os  intelectuais  são  escritores, porém  todos ou  quase  todos  os escritores são intelectuais. No entanto, com as devidas distâncias que os contextos impõem, é possível identificar uma zona tangencial em que os respectivos campos em que intelectuais  e  escritores operam, se intersectam. Trata-se de uma intersecção que permite efectuar uma categorização social e reconhecer o exercício da função intelectual no desempenho de uma determinada pessoa.

Decorre daí o processo de inscrição no espaço público que se traduz na aptidão para tomar a palavra em diferentes matérias, entre as quais as  respeitantes à política, no sentido mais amplo do termo. A definição de intelectual, enquanto categoria social, é contextualmente dependente. O que distingue o intelectual são comportamentos típicos de uma categorização sociológica e filosófica. Para o efeito, faz-se referência ao pensamento crítico sistemático sobre a condição humana, a sociedade, as instituições e a natureza. Ainda subsistem controvérsias sobre o que poderia ser a melhor definição.

Apesar de ser um substantivo de origem latina existente nos vocabulários das línguas europeias, o seu referente existe igualmente nas línguas africanas. Em língua Umbundu, corresponde a "(Ò)ngándji”. A interpretação das máximas proverbiais em língua Umbundu contribui para a compreensão do sentido da palavra. Trago à liça três enunciados e proposições: 1) "Opopiya ongandji, omalapo osoma”, [O intelectual fala argumentativamente, a  decisão  incumbe ao  titular do poder político]; 2) "Ongandji  yateta onimbu” [O  intelectual sintetizou]. Quer dizer, o intelectual elabora sínteses, quando fala. 3) "Ongandji  omunu, ongundji  uti, esokiyo  haliyo”, [O  intelectual é uma pessoa, a  forquilha  é  uma árvore, ambos  ordenam (classificam)  de modo criterioso].

O pluralismo das sociedades africanas contemporâneas permite apreender a coexistência dos vários papeis atribuídos aos intelectuais. O trabalho notável do filósofo queniano Odera Oruka sobre a filosofia da sageza como tendência em que se desenvolve a filosofia africana confere a devida importância aos intelectuais "não-eurófonos” das diferentes comunidades urbanas e rurais. Os cultores desta prática filosófica levam a cabo tarefas relevantes na sua qualidade de intelectuais.

As respostas às interrogações e a análise aos comentários sobre o papel dos intelectuais no contexto angolano podem contar com o imprescindível conhecimento de outras experiências. No texto inserido na colectânea editada pelo CODESRIA em 2005, [Intelectuais Africanos. Repensando a Política, Linguagem, Género e Desenvolvimento], o historiador burkinabe Joseph Ki-Zerbo afirma que os intelectuais não devem ser necessariamente membros de partidos políticos e muito menos de partidos da oposição. Mas recomendava a adopção de uma neutralidade activa e uma autonomia positiva contrária a qualquer outra que seja inerte, amorfa e muda. Para ele isto significa que é legítimo assumir uma perspectiva engajada, defender ideias políticas ou recusar a indiferença.

Portanto, qualquer juízo de valor que se possa fazer sobre o comportamento dos intelectuais requer o conhecimento do tipo de intervenções a respeito de questões políticas e outras matérias. Do ponto de vista moral não parece correcto determinar o maior ou menor exercício de actos que configuram a função intelectual, a  partir da simples mediatização de opiniões sobre notícias da actualidade política
”.
 * Ensaísta e professor
universitário

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