Cultura

Festas da Nossa Senhora do Monte aquecem Lubango

Estanislau Costa | Lubango

Jornalista

A ementa recheada da presente edição está a cativar os devotos e empresários nacionais e estrangeiros, com realce para os da Namíbia, África do Sul, Portugal, Brasil, Eritreia e Espanha, para a festa religiosa de 15 de Agosto, Expo-Huíla, Feira do Gado, entre outras actividades programadas.

07/08/2022  Última atualização 14H59
© Fotografia por: DR

O presidente da Associação Agropecuária Comercial e Industrial da Huíla, Paulo Gaspar, considerou especial a Expo-Huíla devido às eleições, também tidas como a festa da democracia e por mostrar as iniciativas e progressos em prol do fortalecimento económico do país.

O programa da Expo-Huíla inscreve os workshops do BAI, BFA, Sogester, Porto do Namibe e do Governo Provincial da Huíla, que vão abordar o projecto da Baía de Moçâmedes, impacto dos investimentos no terminal para a cadeia logística e o transporte logístico no corredor do Sul e produtos financeiros para o sector real da economia.

O governador provincial, Nuno Mahapi Dala convidou a classe empresarial, investigadores, religiosos e não só, a apostarem nas potencialidades destas paragens e na cultura Nkhyneka Nkhumby por serem uma referência no contexto mundial.

Nuno Mahapi Dala considerou este Agosto especial pela razão dos angolanos se encontrarem em período eleitoral e frisou que as festas de Nossa Senhora do Monte são também um motivo para os crentes vaticinarem para um espírito de paz e de reconciliação nacional no pleito eleitoral.


Uma festa com muita história

A primeira edição das Festas da Nossa Senhora do Monte, refere o Boletim Municipal da Câmara de Sá da Bandeira (1971), ocorreu a 15 de Agosto de 1902. A génese do evento sempre foi a capelinha, local em que os devotos provenientes da Madeira (Portugal), solicitaram ao pároco de S. José do Lubango, Padre Manuel Francisco Pessoa da Luz, um patrocínio para a edificação da capela em honra à Nossa Senhora do Monte, precisamente em 1901.

O pároco e gente interessada foram, no dia 6 de Outubro do mesmo ano, à Povoação de Cima, com o objectivo de escolher um local apropriado para a construção da capela. Apareceu-lhes então o "colono” António Firmino Júnior, propondo a venda de um terreno que possuía à entrada e à direita do actual Parque de Nossa Senhora do Monte. A sua proposta de venda do terreno e da casa que nele existia foi aceite.

O mesmo grupo reuniu-se ainda no mesmo dia na residência paroquial, para eleição de uma comissão constituída pelo pároco na presidência e os seguintes vogais: Pio Alberto Marques de Miranda, João da Ressurreição, Casimiro Caldeira Júnior, Ricardo Rodrigues, António Roque de Freitas e António Rodrigues Brunido, João da Ressurreição e Gualdino da Paixão de Sousa ficaram a desempenhar, respectivamente, as funções de tesoureiro e secretário.

Foi, no entanto, aberta uma subscrição pública para angariar fundos. A referida comissão adquiriu o terreno e começou as obras da capelinha. Parte do terreno era cultivado sob a orientação da Comissão de Nossa Senhora do Monte, revertendo os lucros em favor de melhoramentos que se iam efectuando no local. Orientaram as obras do pedreiro Jacinto Rodrigues e as do carpinteiro João da Silva.

As obras prosseguiam devagar e foi junto da capela, ainda em construção, que o sacerdote celebrou missa campal em 15 de Agosto de 1902, diante de uma imagem de Nossa Senhora da Conceição. Estas foram as primeiras Festas de Nossa Senhora do Monte.

A empreitada continuava, bem como os melhoramentos do local e seu acesso. Foi construída uma estrada e desmatou-se a região. O entusiasmo entre os habitantes do burgo aumentava. A Comissão trabalhava sem descanso para levar a bom termo a sua incumbência.

O tesoureiro João da Ressurreição, antes de partir para a sua terra natal, em meados de 1903, ofereceu o baldaquino; o secretário Gualdino da Paixão de Sousa mandou construir à sua custa o altar e José Venâncio Ferreira Rodrigues ofereceu a imagem de Nossa Senhora do Monte, que em cumprimento de um voto mandou comprar na cidade do Porto.

A imagem chegou a Sá da Bandeira em 29 de Junho de 1903. A companhia dos Dragões do Planalto ofereceu o missal, o sino e outros bens. Em 10 de Julho tomava posse o novo tesoureiro, João José Caldeira, sendo que as obras prosseguiam com mais entusiasmo até se concluir a ermida.

 

Capela abençoada

O novo pároco, Padre José Martins, devidamente autorizado pelo Bispo de Angola e Congo, procedeu à bênção da capela, em honra a Nossa Senhora do Monte, no dia 14 de Agosto de 1903. Do acto solene lavrou-se um auto, que foi assinado na presença de quase toda a colónia, pelos seguintes nomes: Padre José Martins, João Caldeira, António Júnior, Casimiro Caldeira Júnior, Eduardo da Costa e Gualdino de Sousa.

Já no dia seguinte, celebraram-se as segundas Festas de Nossa Senhora do Monte com missa cantada, bazar de prendas e mais divertimentos com a presença de muita gente da cidade e de outras localidades de Angola. A partir daí as Festas de Nossa Senhora do Monte continuaram a celebrar-se com uma certa imponência, todos os anos no dia 15 de Agosto.

A morte foi ceifando os vogais Ricardo Rodrigues, António Rodrigues Brunido, João José Caldeira e António Roque de Freitas. Por isso, em 19 de Novembro, foi escolhida uma nova comissão constituída pelo novo pároco Padre Claudino de Nazaré Brites, Manuel Joaquim Fernandes, Jaime Caldeira, António da Paixão de Sousa e Joaquim Roque de Freitas, que tomaram posse no fim da missa celebrada na capela de Nossa Senhora do Monte, em 25 de Dezembro.

 

Nova capelinha

João Henriques de Azevedo entendeu agregar, em 1919, um grupo de cidadãos com o fim de substituir a velha capela por outra mais apropriada, a construir no monte que até hoje pode-se visionar a partir do centro da cidade do Lubango. O povo de Sá da Bandeira e dos arredores não se sentiu satisfeito. Os madeirenses pretendiam imitar mais perfeitamente as tradições da sua terra.

A capelinha não podia ser vista de longe, como a Senhora do Monte da Madeira. No parque estava muito escondida. Queriam poder olhá-la das suas casas. Desejavam que a Senhora do Monte os visse a trabalhar nos seus campos e contemplasse as suas sementeiras para as abençoar. Ansiavam viver permanentemente sob os olhos de Nossa Senhora do Monte.

Esta nova comissão era constituída pelas seguintes entidades: Dr. Alfredo Lobo das Neves. Américo Manjericão, Emídio Fernandes, Francisco de Meireles, José Maria da Costa Simões, Luís Marques de Miranda e João Henriques de Azevedo, que logo entraram com 900 escudos cada um para as primeiras despesas a realizar.

João Henriques de Azevedo fez o projecto da actual capela, imitando a traça do templo de Nossa Senhora do Monte, na Madeira. Foi empreiteiro da obra Constantino Roumeliotis, que ergueu a actual ermida. Foram utilizados tijolos e madeira da antiga capela.

A nova ermida, ainda em vias de acabamento, foi solenemente benzida em 16 de Agosto de 1921, sendo o auto assinado pelo Padre Manuel António Dourado, Gualdino da Paixão de Sousa, Casimiro Caldeira, Jaime Mendonça Caldeira, Manuel Joaquim Fernandes e António da Paixão de Sousa. Houve missa cantada pelo Padre Henrique Aucopt e sermão pregado pelo pároco Padre Dourado.

O terreno com a casa do local onde existira a antiga capela foi comprado por João Ricardo. Já as festas do ano seguinte foram presididas pelo Vigário Geral da Chela, Padre Benedito Mário Bonnefoux, que celebrou missa solene.

Seguiram-se outras comissões que assumiram a celebração das Festas da Nossa Senhora do Monte, todos os anos. Foi a partir de 15 de Agosto de 1930 que a imagem de Nossa Senhora do Monte era trazida em procissão da sua capela para outra improvisada no Parque, pois tornava-se difícil a muitos devotos, já velhos, subirem a encosta do monte.

Uma nova comissão, empossada em 1931, era constituída pelo Padre Manuel António Dourado, Gualdino da Paixão de Sousa, Carlos Teixeira Velosa, Raul da Paixão de Sousa e Francisco Baptista.

Já a Comissão de Melhoramento pretendia abrir uma estrada de quatro metros de largura até ao meio da encosta, seguida de uma escadaria até à capela, um coreto, bazar e bar, em estilo árabe-oriental com influências portuguesas. O conjunto ficaria integrado no Parque de Nossa Senhora do Monte, cujo projecto foi realizado pelo Dr. Luís Miranda. Foi ainda constituída uma Comissão de Senhoras, que tomou a seu cargo coadjuvar nos trabalhos de aformoseamento e de conservação da capela.

A tradição das Festas da Nossa Senhora do Monte à certa altura quase se perdia. Apenas alguns madeirenses subiam todos os anos, a 15 de Agosto, até a capelinha, que continuou sendo a encarnação viva da saudade da sua terra distante, mas nunca esquecida.

Depois da romagem piedosa, ficavam-se ali pelo Parque, meio selvagem, mas sempre belo, comendo os seus ranchos cozinhados à base de tradicionais pratos madeirenses. A romaria foi-se reduzindo a uma tênue chama, que os velhos colonos teimavam em mantê-la acesa e transmitir aos filhos e netos em toda a sua pureza saudosa. Mas, em 1952, um grupo de homens desta cidade tomou a peito a tarefa de fazer reviver com todo o brilho a antiga tradição.

Assim, a 15 de Agosto, todos os caminhos vão dar à capelinha da Nossa Senhora do Monte, um dos pontos de referência obrigatória para os católicos e turistas nacionais e estrangeiros.

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