Cultura

Felwine Sarr regressa à música

Gaspar Micolo

Autor do livro “Afrotopia”, o economista senegalês Felwine Sarr viu o seu nome na grande imprensa mundial quando, em 2018, publicou, em co-autoria com a historiadora francesa Bénédicte Savoy, um relatório sobre restituição de obras de artes provenientes de África e que estão em museus europeus. Mas, o trabalho do brilhante académico está muito longe de se resumir a isso. Romancista, compositor e intérprete, lançou no passado dia 9 de Setembro o seu primeiro trabalho discográfico a solo nas plataformas digitais.

16/09/2022  Última atualização 06H05
Felwine Sarr ao lado do também influente académico Achille Mbembe, à esquerda © Fotografia por: DR

"Naïssan” marca assim o início do projecto musical individual deste brilhante intelectual senegalês. É que Felwine Sarr começou na música com o grupo ''Dolé'', com o qual produziu três álbuns de reggae, contando com sucesso como ''Civilization or barbarie'' (2000) e ''Le mots du récit”', lançado em 2005, e "Bassaï”, publicado em 2007. Com ''Dolé'', deu mais de 500 concertos em cerca de quinze anos.

Agora, acompanhado do grupo ''Daaray Samadhi'', com canções em que se encontram o espírito e o fôlego da sua obra literária e discursiva, Felwine Sarr traz neste álbum as suas linguagens favoritas que são os traços sensíveis da poesia e da espiritualidade. Os textos e melodias são de grande poder evocativo, num repertório cantado em várias línguas, nomeadamente: em serer, wolof, francês e inglês.

"Essas músicas já andam a vaguear por aí há muito tempo, são íntimas, e fico feliz que finalmente estão a entrar nos ouvidos”, revela Felwine Sarr que, aos 50 anos, é o mais velho de oito irmãos, seis dos quais dedicados à musica, entre autores, compositores e intérpretes consagrados nos mais variados estilos: Há Youssoupha, que oferece o seu rap poliglota e o seu fluxo torrencial sob o nome de Rhapsod. Assinala-se ainda a intoxicante Ngnima, aliás Tie, a poetisa, que pratica Tassû (justa oratória) com tanta facilidade quanto canta, cercada pelos seus músicos; Djibril, apelidado de Majnun, e os seus contos de sonho; Saliou, conhecido como Alibeta, e as suas melodias acústicas.

Entre as 12 faixas estão ''Si Dakar'', ''L'absence'', "Soukeyna Ndong'' ou ''Keppar''. Felwine Sarr está na voz e guitarra neste disco onde Fred Brasset o acompanha no saxofone e Lamine Ndiaye no baixo e percussão. A masterização do álbum gravado e mixado por Arnaud Malandain é fornecida pelo "Studio Laboutik” de Dakar, segundo a produtora Woti Production.

           

Da literatura às oficinas

O seu livro mais recente, um romance lançado em Fevereiro deste ano, intitulado "Les lieux qu’habitent mes rêves” (Os lugares que habitam os meus sonhos, em tradução livre do francês), mantém o encanto dos seus ensaios. O leitor, ao deixar-se levar pelo lirismo das palavras e frases, pelo mistério geral dos universos evocados e pelo andamento lento e enigmático da história, é capturado desde a primeira página. Com este romance, Felwine Sarr apresenta um trabalho imaginativo que relata os percursos de vida no país ou na Europa, de dois gémeos senegaleses. O livro, sem renunciar a uma propensão meditativa, insere-se, igualmente, na sua empreitada de descolonização das representações e saberes dominados pelo Ocidente.

As Oficinas de Pensamento ("Ateliers de la Pensée”, em francês), que nasceram em 2016, na capital do Senegal, Dakar, pelas mãos de dois grandes nomes do continente, o camaronês Achille Mbembe e o senegalês Felwine Sarr, dão a este último um dos principais palcos para fazer ouvir a sua voz. Aliás, não é exagero quando se reconhece que, actualmente, é o evento mais importante no cenário intelectual africano, e também um dos principais no mundo francófono.

Desde o início, a intenção de ambos foi reivindicar a soberania teórica de África e a sua diáspora. Com quatro edições, o evento tornou-se indispensável pela expectativa que suscita, pela capacidade de reunir uma verdadeira constelação de personalidades de todos os horizontes e pela surpreendente lucidez e pluralidade de propostas. A quarta edição das Oficinas de Pensamento foi realizada de 23 a 26 de Março, no simbólico Museu das Civilizações Negras de Dakar, reunindo um número considerável de público presencialmente – cerca de 200 pessoas por dia, segundo a organização –, além de mais de 1.000 seguidores online pelas redes sociais, tanto dentro como fora de África.

Afrotopia, ou a escolha de um caminho

Além de economista, Felwine Sarr é filósofo, escritor e músico ao mesmo tempo. Nas suas principais abordagens, o académico convida África a sair dos modelos impostos e a pensar em novas utopias, assim como critica o modelo clássico de desenvolvimento.

É que seis décadas se passaram desde o início do maior processo de descolonização da história do continente, que deu origem a dezenas de países africanos. Mas a receita para o desenvolvimento do continente ainda é concebida nas capitais ocidentais e, mais recentemente, na China.

Para Felwine Sarr, foi proposto aos africanos, com a cumplicidade de intelectuais do próprio continente, uma espécie de "prêt-à-porter social”. Ou seja, parâmetros externos para definir o que seria a felicidade africana. Esse conceito e as suas implicações são centrais no seu livro "Afrotopia”, já disponível em língua portuguesa, numa tradução de Marta Lança.

Felwine Sarr é membro de uma geração que actualiza um dos movimentos intelectuais mais fortes de África nas últimas décadas, a "Negritude”. Para isso, defende, é necessário haver uma mudança de mentalidade. "Os jovens africanos têm uma má imagem de si próprios, pois isso foi sempre dito a eles pelas lentes do economicismo, de que você está para trás na comparação com o Ocidente. Há muita riqueza, capacidade e frescor na sociedade africana, mas isso não é considerado um indicador de felicidade”, diz o professor da Universidade de Duke, na Carolina do Norte (EUA).

A chave para a África deixar o ciclo de instabilidade, defende, não é transformar as  cidades em cópias de metrópoles do mundo desenvolvido. É investir na Educação, Cultura, valores democráticos e uma relação aberta, mais equilibrada com o resto do mundo. Só assim se pode chegar à "Afrotopia” do título, à utopia de um continente que não precisa alcançar ninguém. "Não precisa mais correr nos caminhos que lhe indicam, mas sim caminhar com presteza na trilha que escolher para si”, escreve.

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