Opinião

Feliz Ano Novo, vizinhos

Estavam na janela do apartamento, no oitavo andar, quando lhe viram entrar no edifício. Quando chegou à porta do edifício, ele notou que o saguão era tão minúsculo que podia atravessá-lo enquanto a lâmpada no tecto acendia e apagava. Lesto como era, teve tempo para ver a poeira sobre os degraus da escada, a penumbrados andares superiores que chega a porta de entrada dos apartamentos do rés-do-chão e, também, as luzes dos elevadores apagadas.

01/01/2019  Última atualização 09H26

A maioria dos moradores do edíficio tem muita força e coragem para ir singrar fora dele, mas paralisa-lhes o receio, a desconfiança, a timidez e o quererem evitar conflitos: eles rejeitam fazer para a sua comunidade de vizinhos, o que fazem nas suas profissões e ofícios para se realizarem e se sentirem bem.
Visto desde cima, enquanto ia entrando, ele parecia um ponto brilhante a mover-se sobre o único dos espaços comuns do edifício que foi calcetado e convertido em parque de estacionamento: “com o novo ano chegou o novo vizinho, andando ao léu”, isso não passou despercebido aos moradores.
Absorto e sem estar contagiado nem pela euforia, nem pelo entusiasmo da repetida pirueta de calendário e do costume de contar o tempo que foi a passagem de ano, ao novo vizinho fatiga-lhe, mas não se desanimará negociar com os outros as normas de convivência: ele sonha que, um dia, poderão construir uma piscina ou dispor de espaços que, quando não sirvam como lugares tanto para actos sociais como para festas até ao fim da tarde, podem ser alugados a terceiros amialhando algum dinheiro para todos.
Porém, como o novo vizinho se apercebeu depois, teria mais razões para preparar-se para um cenário desafiante: a vigilância e o pagamento dos guardas, a limpeza e a manutenção dos elevadores do prédio são responsabilidades que deveriam ser assumidas por todos, mas não era isso o que acontecia. E mais: existem reminiscências de chico-espertismo evidenciado na ocupação indevida de espaços comuns . Dizem que quem os ocupa é poderoso e influente. Não o são tanto! Se o fossem mesmo, - é o que o novo vizinho pensa-, não estariam ali a morar.
Saindo ou entrando, os moradores do edifício percorrem os sessenta metros do que resta do quintal e em cada passo ou gestos reivindicam o seu lugar naquela comunidade de trinta e duas famílias. No prédio, com apartamentos alugados e outros de uso próprio, há crianças, adolescentes e mais velhos, gente com vários fenótipos, de diversos perfis profissionais, extensão e géneros de família, formações académicas, raças e credos reflectindo a riqueza e a complexidade social das cidades angolanas.
Só se vêem entrar ou ao sair, apenas se conhecem. Na primeira ocasião que se reuniram, mesmo à entrada do edifício, havia instantes em que pairava no ar a tensão dos olhares cruzados, a falta de certo à vontade na forma desajeitada de pararem os corpos em pé, naquela roda de vizinhos que almejava um dia unir-se numa associação: é a maneira mais prática de terem vínculos jurídicos e legais para dar força e carácter vinculativo às decisões que tomarem, nem que for necessário transferirem a gestão para uma entidade externa para evitarem terminar à pancada.
Para além do parque de estacionamento e do pequeno terreno baldio que fica por trás do edifício, duas outras áreas muito amplas que deveriam ser, também, espaços partilhados foram ocupadas por alguns dos moradores do rés-do-chão: ainda por cima, não dão confiança aos outros vizinhos ou, se acontecer coincidirem com eles, exibem logo olhares prepotentes, como se exigissem agradecimentos por cuidarem o jardim porque eles de motu próprio, assim o decidiram.
Os outros vizinhos ficam a chupar o dedo vendo-lhes usufruir como garagem uni-familiar o que deveria ser para todos: “teria sido pior”, - é o que a maioria pensa-, se eles tivessem instalado um bar ou uma discoteca em baixo das nossas orelhas. Isso não lhes justifica! Eles nunca deveriam ter ocupado as áreas que não lhes pertencem. Em parte, a culpa não é deles: a imobiliária que vendeu as casas foi permitindo e nunca ninguém disse nem fez nada para lhes impedir.
 Em Luanda, esta incorrecção é visível em muitos prédios e vem desde os primórdios da Independência: os moradores acederam e, depois, compraram os apartamentos com espaços comuns aos quais não podem aceder livremente, uma vez que alguns, desrespeitando todas as normas de segurança e transgredindo a funcionalidade das regras da arquitectura, se apropriaram deles como se fossem exclusivamente seus.
O novo ano já começou e o nosso novo vizinho pensa que não organizaremos bem as nossas cidades se, também, não nos preocuparmos em cuidar, manter a ordem, o civismo, a limpeza e o convívio dentro das casas e das famílias, nas ruas, nos prédios, nos condomínios, nos bairros e nos municípios, entre os vizinhos que desfrutem de espaços comuns.
*Historiador e crítico de arte

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