Política

Félix Tshisekedi é investido em Kinshasa

O Presidente eleito da República Democrática do Congo, Félix Tshisekedi, toma posse hoje, no Palácio Presidencial das Nações, marcando a primeira transição de poder pacífica da RDC desde que conquistou a independência da Bélgica nos anos de 60. 

24/01/2019  Última atualização 08H14
DR © Fotografia por: Sucessor de Joseph Kabila no cargo é o quinto desde a independência do país em 1960

Para o acto de investidura devem estar presentes alguns Chefes de Estado e de Governo. O Presidente da República de Angola, João Lourenço, é representado pelo ministro das Relações Exteriores, Manuel Augusto.

 Sem horário oficial e com as informações oficiais a saírem à conta gota, vários espaços tinham sido apontados para a realização da investidura, com realce para o Estádio dos Mártires e a “La City de L’UA, Mont Ngaliema”. Segundo, Lydie Omanga, encarregue da organização da investidura, o evento tem lugar hoje, no Palácio das Nações. Está tudo muito fechado para saber quem serão os Chefes de Estado e de Governo que chegaram ontem e chegam hoje à Kinshasa para a cerimónia de tomada de posse de Tshisekedi, que deve acontecer sobre um forte aparato de segurança.

Na véspera da posse, a Comissão para Integridade e Mediação Eleitoral (CIME) pediu a Tshisekedi a pautar pelo diálogo e pela unidade nacional para a preservação da Nação. Ainda em vésperas da investidura, a União Europeia e a União Africana, duas organizações continentais, reconheceram e felicitaram Félix como novo Presidente eleito da RDC.  Em Kinshasa, esta notícia fez manchete nos principais jornais: La Prospérité, L’Avenir, Le Phare e o Le Potentiel. 

 

Expectativas da posse

A expectativa dos cidadãos de Kinshasa continua a ser forte. Esperam por um discurso de equilíbrio, de apelo à unidade do povo congolês, à paz e progresso. Porém, uns  revelam mais optimismo, outros nem por isso. Mas, do universitário ao Polícia, do Executivo ao comerciante, das famílias de mesa farta aos pobres, há, claramente, uma dúvida que paira no ar e que só o tempo vai dissipar: o estilo de governação de Félix Tshisekedi. 

 Muitos, como é o caso de Didier Bugumba, um pescador fluvial de 43 anos, dizem que Félix Tshisekedi só vai conseguir transformar o país e materializar as expectativas e esperanças dos congoleses se se demarcar das alianças que formou com o anterior Presidente Kabila e outros partidos. 

É nas margens do imponente Rio Congo, que também passa rente ao bairro Ngaliema, uma localidade emblemática de Kinshasa, que partilhamos com os congoleses os encantos da esperança, mas também de pessimismo crú e nú.   

 Didier, bastante lúcido e ao mesmo tempo exaltado, espera um Presidente com ideias próprias, originais e baseadas nos verdadeiros anseios de um povo que só se quer reencontrar com a paz, bem-estar social e económico. Pede, enfim, que sejam limpas as margens do rio Congo, actualmente infestada de plásticos, latas e outros resíduos que afugentam o peixe para zonas quase inacessíveis, tornando a captura mais laboriosa e difícil. Mais do que isso, espera por um discurso equilibrado e que apele à unidade.

Com expressão serena e ar cansado, Angelique Wassotolo, vendedora de peixe, 62 anos, está contente pela eleição do novo Presidente. Apesar de contente, tem fortes receios de que  Tshisekedi venha a ser, talvez, orientado por Joseph Kabila. Expressa a sua cidadania com convicção, tal como espera numa mudança efectiva e real da condição de vida de quem cresceu a ver apenas uma realidade de pobreza e violência. “Nós da zona rural e dos bairros periféricos, gostaríamos que olhassem mais para nós”, apela. 

 Farta de políticos cinícos, frios e insensíveis ao sofrimento alheio, Betrice Unfoló de 55 anos de idade é também uma cidadã cheia de cepticismo. Ainda assim, deseja apenas que sejam retirados os resíduos que vão, cada vez mais, matando as espécies que “povoam” o rio Congo e que garantem o mínimo da sua sobrevivência. Por conta disso, o que mais lhe faz falta agora é o peixe que há muito se pôs à milha para mais distante, deixando famílias com fome e sem recursos. “Olho para tudo quanto está a acontecer e o que tenho ouvido, parece que as coisas vão permanecer tal como eram. Tenho pouca esperança de que o cenário mude, pois por detrás de Tshisekedi, estará Kabila”, refere para acrescentar: “oxalá, esteja redondamente errada. Há ainda tempo para esperança e para a vida”. 

Para muitos, o que importa mesmo, é que a transição se está a efectivar de forma pacifica, o móbil para o regresso em catadupa dos que por receios de convulsões e opacidade da política no pós eleitoral, passaram para a outra margem do Rio Congo, ou seja, para Brazzaville, capital da República do Congo com quem Kinshasa tem apenas ligações fluviais por via de barcaças, vulgo chatas. Para a travessia, só com 50 dólares em dias de pouca procura e mais de 50, em dias de grande procura. 

Agora, com o renovar das esperanças, há até tempo para pequenos prazeres, pequenas vaidades: fazer manicure, ficar bonita, não importa a idade. È o que faz, nas margens do Rio Congo, a Avó Veró Okako que nasceu em Kindu, há 81 anos. Debita a sua opinião sobre política com admirável lucidez. “Meu filho, digo-te uma coisa: a paz é a melhor coisa que um povo pode ter. A guerra é das coisas que definitivamente devíamos deixar para traz. Eu não gosto, nem de ouvir falar”, diz a anciã para acrescentar: “sei mesmo que Kabila é que está na base da vitória de Tshisekedi. Eu vou fazer o quê?, questiona, num gesto de conformismo que a muitos remete para resignação e silêncio.

 Ainda assim, Veró tem esperança de que a situação do cidadão congolês melhore, “mas não sei bem se devo ter esperança, afinal Félix é “igual” a Kabila”. 

 

Comunidade angolana

A comunidade angolana em Kinshasa é expressiva. Por estimativa, está próxima dos 700 mil. O coordenador da Casa de Angola em Kinshasa, Afonso Todo mencionou as dificuldades pelas quais os angolanos têm passado ao longo destes anos. Para Afonso Tokio era preciso que as autoridades olhassem para a situação de centenas de angolanos que até à data se encontram sem documentos de identificação, emprego e há filhos sem escola.  Espera que o novo Presidente seja favorável ao reforço da cooperação entre os dois paises  a bem dos dois povos. “Se as relações políticas forem boas, as relações entre os povos serão também boas”. 


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