Economia

Feliciano Lucanga: “O grande problema do BPC está no capital humano”

Versado em assuntos de finanças, o nosso entrevistado considera que a capitalização do BPC não é a solução.

26/06/2020  Última atualização 12H29
Edições Novembro

Na qualidade de entendido em matérias de contabilidade e gestão bancária e acumulando uma experiência profissional de 27 anos, como avalia a questão dos desequilíbrios do Banco de Poupança e Crédito (BPC)?

Em meu entender, sendo o maior banco de capital público, consequentemente o seu maior cliente, ou seja, a sua carteira de clientes é constituída maioritariamente pelos funcionários público (função pública).
Nesta óptica, deveria ser o Estado por intermédio dos seus accionistas (MINFIN e outros), criar condições, regulamentar e controlar em algumas operações de âmbito institucional, por forma a que este banco não se desvie da regulamentação e dos objectivos da sua criação.
Pela minha experiência, apesar de ser na contabilidade onde são martelados os dados, acho não constituir o maior problema o desequilíbrio da contabilidade. Na minha visão, o problema está no capital humano. O BPC está a ser gerido por grupo de famílias completas, que estão enraizadas em todas as direcções. Obviamente, acontecer assim, ninguém controla ninguém, pois não existe segregação de funções. Se existe, está entre famílias e as operações são tratadas em casa. A capitalização, ou seja, injecção de capital não é a solução. A solução passa pela reestruturação do capital humano. Se quisermos, ver este banco a funcionar e dar resultados favoráveis, temos que destruir e implementarmos o sistema americano e Inglês, que não podemos ter duas pessoas da mesma família a trabalhar no mesmo banco. Temos que ter coragem!.... o problema do BPC está identificado e não podemos fingir. Devemos evitar o conflito de interesses, tráficos de influências e maus vícios que se considera normal aos funcionários do BPC.
Para que o BPC seja de facto e exerça de facto a sua função e papel de banco de capital público tem que ser reestruturado da base, com a criação de uma Direcção de control Room para reestruturar a partir do capital humano, sistema informático no geral, sistema de controlo internos, procedimentos e normas internas e auditoria. E responsabilizar todos aqueles que directa ou indirectamente contribuíram ou ainda contribuem no mal momento menos boa que a instituição está a passar.

Como justifica o rombo de 400 milhões de kwanzas?
Ora, o rombo de 400 milhões não é grande coisa, pelos rombos que a instituição já sofreu. Justifico apenas como sendo o valor que a população tomou conhecimento, em função da democracia e da liberdade de imprensa que se vive no país. Em suma, tudo aliado às redes de famílias a trabalharem na instituição nada se espera senão o que vemos hoje no BPC.

Há uma fragilidade no controlo da massa monetária no maior banco público?
Certamente. Temos de ter sistemas de governança sólidos e alinhados com as práticas internacionais. Não pedimos independência de gestão, mas acho que a autonomia e uma gestão sã e prudência poderiam ajudar, que não existe, infelizmente, na instituição pública. Como instituição, deveria fazer melhor e é obrigação da instituição fazer melhor para dar exemplo. A fragilidade no maior banco público, não é só no controlo da massa monetária, mas sim, a fragilidade está generalizada. Portanto, é urgente criar-se um novo BPC.

Acha que o BPC deve divulgar a lista dos maiores devedores?

A transparência ajuda sempre. No entanto, se assumirmos este caminho, não podemos “escolher” com quem vamos ser transparentes e com quem não vamos ser. Ou somos com todos, ou não somos. Para mim, não é a melhor solução até que o BPC tem quadros que conhecem as melhores técnicas para que de facto agente consiga recuperar os créditos sem, irmos por este caminho. Se não aplicam é porque não querem e sabem porque que estão a primarem por este caminho, pois, não é com a divulgação das listas que se irá recuperar as dívidas. Será que constam na lista os nomes e empresas dos funcionários BPC? Se, de facto, queremos ser transparentes deveríamos constar na lista de particulares e das empresas dos funcionários.

A fragilidade do BPC é derivada por má gestão ou por outros factores externos?

Creio que há mais que um factor a influenciar. E má gestão, ou seja, a gestão danosa pode ser um dos factores a considerar, no entanto, temos de ser honestos e procurar saber quais os objectivos que foram colocados aos gestores do BPC, quando nomeados? Se o desvio for grande e com impacto negativo a roçar a ilegalidade, temos de procurar analisar a questão do ponto de vista económico, político e judicial. Mas temos de ver se houve má gestão da parte de quem? Somente dos gestores do BPC? E a gestão que supervisiona o Banco (BNA)? E aquela que audita o Banco (auditores externos)? Qual tem sido o papel dos accionistas?

Comentários

Seja o primeiro a comentar esta notícia!

Comente

Faça login para introduzir o seu comentário.

Login

Economia