Cultura

“Faz Lá Coragem Camarada” é a primeira ficção angolana

Francisco Pedro

Jornalista

“Faz Lá Coragem Camarada” é o primeiro filme do género ficção produzido em Angola independente, realizado pelo cineasta Ruy Duarte de Carvalho.

07/01/2022  Última atualização 07H45
Um dos momentos da rodagem da primeira ficção angolana na cidade de Benguela com a participação de militantes e populares © Fotografia por: DR
Rodado em Benguela, em 1977, o filme narra as peripécias vividas por meia-dúzia de militantes do MPLA, durante a histórica agressão militar das tropas sul-africanas. O pânico alastra-se no seio dos populares na cidade de Benguela, com a ocupação efectiva das tropas racistas da África do Sul. Instala-se uma resistência urbana.

Uns se refugiam em casas de desconhecidos, outros conseguem chegar às suas próprias residências, até os mais altos dirigentes do Partido MPLA, diante do fogo e patrulha do Exército sul-africano, a solução obriga-os a caminhar entre plantações de cana-de-açúcar e bananais, para chegarem a um local aparentemente seguro.

Em Benguela vivem comunidades cabo-verdianas, desde o longínquo Século XIX. Uma senhora descendente de famílias cabo-verdianas esconde, em sua casa, meia-dúzia desses militantes do MPLA. Depois de várias temporadas, ou semanas sob esconderijo, e tremidos, aos poucos os militantes começam a idealizar diferentes maneiras de como poderão inverter o drama em que vivem, bem como obter apoios para defenderem a população indefesa, e restabelecer a vida normal da cidade.

A trama do filme é, também designada por "A Noite dos Cem Dias”, diante desse cenário a alegria de um povo livre há menos de dois anos desaparece quase na totalidade. Mais tarde, a mulher que os salvou e que algumas vezes se dedica na cozinha para dar de comer esses militantes, os encoraja dizendo: "Faz Lá Coragem Camarada”! Essa frase, "Faz Lá Coragem Camarada”, que marca o amargo episódio, inspira Ruy Duarte de Carvalho para dar título ao clássico filme, protótipo da ficção angolana.

De acordo com a sinopse, o filme tem duas horas, e trata-se de uma reconstrução dramática das aventuras vividas por um grupo de militantes do MPLA durante o período em que a coligação FNLA-UNITA-sul africanos ocupou a cidade de Benguela. Refere ainda que, os actores do filme, ainda em vida e residentes na cidade das acácias rubras - Benguela - são os próprios militantes do MPLA.

A acção dramática respeita a sequência e a natureza das situações ocorridas no período em que as forças sul-africanas tinham sobre controlo a cidade de Benguela. Mais do que denunciar a agressão dos racistas sul-africanos, "Faz Lá Coragem Camarada” revela, também, a tensão conflituosa no seio das populações angolanas em que vários grupos demonstravam descontentamento pelo não   içar da bandeira da jovem República Popular de Angola, entre as Nações recém-independentes do jugo colonial português.

O filme, uma produção em película de 16mm, da então Televisão Popular de Angola, além do realizador Ruy Duarte de Carvalho, teve uma equipa constituída por Asdrúbal Rebelo (assistente de realização), Beto Moura Pires, Henrique Silva e Pedro Macoça (operadores de câmara), Orlando Martins (operador de som) e Emídio Canha (montagem).

Actualmente, a Cinemateca Nacional não dispõe de condições para visionar ou exibir o filme, seja em circuito restrito, para estudos, tão pouco para as salas de cinema, em circuito comercial ou festivo. A produção cinematográfica consta entre as centenas de filmes produzidos no período áureo do cinema angolano, cujo acervo encontra-se em péssimas condições de preservação.


Evidência explícita sobre o nascimento de um novo país

"Urgentes também se revelaram para nós, em Fevereiro de 1976, a necessidade e a vontade de mergulhar, atrás das tropas angolanas que retomavam o território aos sul-africanos, num país que iríamos redescobrir, então, destruído, paralisado, mas, no entanto, fremente de excitação: era a independência, era a guerra, era o começo de uma nova era, longamente aguardada.

A mesma euforia de um extremo ao outro de Angola e que tamanha diversidade, no entanto, entre os actores dessas manifestações, de todo inéditas, que pouco a pouco tentaríamos fixar apoiados nos meios operacionais de que dispúnhamos. Estávamos perante a evidência explícita do nascimento de um novo país africano, de uma consciência nacional alargada pela Independência a toda a extensão de um território ainda ontem dividido num considerável número de ex-nações, de acordo com a terminologia que doravante passaria a utilizar-se.

Ao longo dos 3000 quilómetros percorridos desde Luanda até ao interior do deserto do Namibe, havíamos atravessado quatro das nove áreas linguísticas do pais e nada menos de quinze populações etnicamente diferenciáveis. Desta viagem resultaria uma série de dez documentários cuja estruturação e montagem nos impuseram uma reflexão que muito rapidamente nos conduziria para além do domínio do cinema”.

* extracto do ensaio "A Câmara, a Escrita e a Coisa Dita... – Fitas, Textos e Palestras...”, de Ruy Duarte de Carvalho, publicação do INALD, 1997.

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