Economia

Famílias confinadas: Poupança prejudicada pelos níveis de consumo

A poupança das famílias, ao longo dos 60 dias de confinamento, viu-se bastante prejudicada pela alta das despesas com alimentação, bens, serviços e também telecomunicações.

24/05/2020  Última atualização 19H23
João Gomes | Edições Novembro © Fotografia por: Donas de casa apontam eventual subida de preço nos bens essenciais como principal razão

Tratando-se da parte da renda que, normalmente, não é gasta no período corrente, as famílias contactadas pelo Jornal de Angola disseram ter sido difícil, quase que impossível, pensar em reservas financeiras pelo facto de terem os filhos em casa e um consumo fora do habitual.

A professora universitária Júlia Makanga, residente na Centralidade do Kilamba, deixou de retirar neste período mínimo de 10 mil kwanzas do salário para poupança familiar, como faz habitualmente, em função do confinamento que, segundo ela, obrigou a maior consumo de alimentos. Residente num apartamento T5, a professora que vive com o marido, três filhos e uma irmã, gastava 100 mil kwanzas com alimentação antes do confinamento obrigatório.

Ao manter-se em casa, para evitar o contágio por Covid-19, Júlia Makanga chega a desembolsar 170 mil kwanzas só em alimentação para a família.
“Esperávamos que com o confinamento, pudéssemos poupar, sobretudo a despesa de combustível das viaturas, mas afinal, ficou mais difícil. Tivemos que aumentar na alimentação, uma vez que de hora em hora os miúdos querem comer”, disse a mãe de três rapazes, de oito, seis anos e o mais novo de seis meses.

Segundo ela, um orçamento mensal de 400 mil kwanzas não chega para suprir todas as necessidades. A variação diária dos preços das hortícolas impede de calcular o pouco que resta depois de ter gasto com congelados como frangos e peixes, comprados alternadamente.

A professora universitária de língua francesa chega a gastar com o consumo de água e energia 50 mil kwanzas todos os meses, gastos aos quais acresce-se o dos colégios dos filhos e a funcionária doméstica.

Já Isaura Estêvão outra residente do Kilamba, com os três filhos, mãe solteira e economista de profissão, afirma que o salário auferido não chega para custear as despesas dos filhos nesta fase de confinamento.

Do orçamento, retira 270 mil kwanzas para as despesas de casa. Os gastos com alimentação e colégios das crianças, conta, nunca ultrapassou os 100 mil kwanzas. Desde finais de Março, que se sentiu obrigada a aumentar o valor para 130 mil kwanzas só para garantir a alimentação.

“Sempre fiz compras para todo mês e os gastos permitiam-me poupar algum dinheiro, que servia de suporte para qualquer situação de emergência”, explica.

Nesta fase, Isaura Estêvão afirma ser sofrível conseguir manter na sua conta bancária 30 mil kwanzas, pois os gastos, conforme conta, acontecem por força do momento que se vive, sem que se permita pensar em poupar, mas sim gastar para comer.

Telma Alexandre, engenheira agrónoma, vive o mesmo cenário. Casada e mãe de dois filhos, conta que as despesas estão cada vez mais altas e os salários nada compensam. Dos 300 mil kwanzas que aufere, diz ser impossível poupar com as despesas da alimentação que superam os 200 mil.

Euglênia Silva de 41 anos de idade, vive no Maculusso, e queixa-se do mesmo. Mãe de filhos menores de 12 anos, foi dispensada do trabalho efectivo. Diz que apesar de estar em casa, a situação económica em casa apertou, tendo que reforçar a dispensa com mais produtos alimentares para manter o confinamento dos filhos com tranquilidade, boa saúde e alimentação saudável.

Explica que neste período, contabiliza mais de 500 mil kwanzas gastos só em alimentação, situação que afectou as suas poupanças.

A auxiliar administrativa numa empresa pública de referencia, nem com o apoio do esposo diz conseguir ter a situação controlada, porque com os filhos em casa 24/24, a rotina alimentar mudou significativamente.

Se de um lado está uma classe que o dinheiro disponível não chega, na zona do Benfica, município de Belas, encontramos dona Juliana Matias. Mãe e pai dos seus quatro rebentos, que tudo faz para com os 35 mil kwanzas que consegue, no mês, colocar o pão, que ela chama de bênção, à mesa para saciar a fome dos filhos. As vezes com uma ajuda suplementar de irmãos, admite que o sistema de sócia (comprar bens por grosso repartindo os gastos com mais duas ou três pessoas) tem sido o meio para atenuar a carência e os desafios do consumo por estes dias.

Em situação parecida a de Juliana está Teresa Cristo. Vive no Mundial e por estes dias de confinamento, despachada pelo patrão de quem era doméstica e sem os salários ainda, pois o empregador é também funcionário de um hotel e queixa-se de seus salários, Tia Tresa, usou da imaginação e meteu-se às ruas. Emprestou 25 mil kwanzas e no mercado do Mundial, comprou tomate, cebola, peixe seco cabuenha (nos Ramiros) e fuba de milho branca para meter a bancada à porta de casa. Juntou massa de tomate, sal e óleo, que recebeu de kilape na cantina do Brahim, ao lado de casa, para com isso manter o seu fogão aceso, como ela mesma disse.

“O bocado é teu, o muito é dos outros”, cantou o refrão que muito se ouve pelas ruas.

Comentários

Seja o primeiro a comentar esta notícia!

Comente

Faça login para introduzir o seu comentário.

Login

Economia