Perde-se na poeira do tempo a época gloriosa da cotonicultura angolana (cultivo de algodão). Os investimentos públicos feitos no sentido de revitalizar o sector “encalharam” no Sumbe, município sede da província do Cuanza-Sul, onde o Estado despendeu, em 2011, dezenas de milhões de dólares num projecto piloto, na expectativa de incluir o também chamado “ouro branco” na grelha de produtos geradores de divisas.
O Mercado da Mabunda, localizado no distrito urbano da Samba, é um dos maiores fornecedores de peixe fresco, senão mesmo o maior da capital do país. É o destino preferido de centenas de citadinos. Isso apesar de constrangimentos tais como a falta de higiene e a presença constante de larápios que, volta e meia, podem deixar o visitante aos prantos. Há ainda o desrespeito total às regras de distanciamento físico em tempo de Covid
Logo à porta da maternidade Lucrécia Paim, o cenário provocado pelo amontoado de gente, familiares das pacientes internadas, quase que tira a paciência dos agentes de segurança e dos militares das Forças Armadas Angolanas que procuram assegurar o bom funcionamento da instituição.
O comportamento dos familiares das pacientes é considerado indecoroso pelos agentes. A cada cinco minutos põem-se defronte da porta do hospital para forçar a entrada. Fazem muita confusão, gritam, proferem palavras ofensivas e falam de qualquer maneira, quando sabem de antemão que não lhes será permitido o acesso, porque, no âmbito das medidas do combate ao Covid-19, estão proibidas as visitas aos hospitais.
Para dar resposta a este impedimento legal, a instituição disponibilizou um número telefónico aos familiares para que possam obter toda a informação referente ao estado clínico dos seus pacientes. As chamadas são atendidas no período das cinco horas da manhã ao meio-dia.
Discursos reflectem comportamento
Maria Zua, 65 anos, revelou à reportagem do Jornal de Angola que, há seis dia, dorme na rua, junto da igreja Sagrada Família, por causa da filha que teve um bebé, no sábado, 4 de Abril, através de uma cesariana. Segundo a mais velha, o genro é o único que tem contacto com a parturiente, através do telefone, mesmo assim, não está sossegada.
Por esta razão, a mulher abandonou a sua casa, no Prenda, para ficar perto da Maternidade Lucrécia Paim. Mesmo sem poder ver a filha, sente-se mais tranquila. Questionada sobre as medidas de prevenção ao Covid-19, a senhora explicou que não está sozinha no espaço onde dorme e que o grupo criou todas as condições para que, regularmente, lavem as mãos com água e sabão.
Samuel Bernardo estava na maternidade, desde às três da madrugada. A irmã deu à luz por volta das seis horas. Não teve alta, devido a hipertensão. O jovem vive no Morro Bento e manteve-se ali, com receio de que a irmã precisasse de alguma coisa e não tivesse alguém para ajudá-la.
“Os táxis estão difíceis, ir e voltar é muito complicado. Os seguranças e os militares das FAA nos pedem para ficar em casa. Mas, em casa a preocupação é maior, nem sempre temos saldo para ligar para a paciente”, disse o jovem.
Samuel Bernardo aproveitou a reportagem do Jornal de Angola para pedir à administração da maternidade e entidades competentes para que melhorem as condições de trabalho no hospital Municipal da Samba. Segundo o mesmo, levaram a irmã à maternidade Lucrécia Paim, por falta de parteiras naquela unidade sanitária periférica. Acrescentou que lá, os doentes têm de comprar luvas e outros materiais e que a ambulância dificilmente funciona.
“ Pedimos aos técnicos, em serviço no hospital Municipal da Samba, para que disponibilizassem a ambulância para levar a minha irmã até à maternidade Lucrécia Paim, porque queixava-se de muita dor. Mas, não atenderam o nosso pedido. Logo pedimos ajuda de uma vizinha…”explicou o jovem .
Insólito
Tão logo acabamos de entrevistar um oficial das FAA, surgiu uma idosa a chorar. Andava de um lado para o outro, movia os braços e gritava: “me deixam entrar, me deixam entrar... quero ver o meu neto, ele morreu”. Os seguranças, de imediato, foram ter com a senhora, encaminharam-na para o gabinete do utente.
Já se sabe que, além dos pacientes, os acompanhantes não devem entrar e que qualquer informação desejada obtém-se por telefone. Ainda assim, ninguém colabora. Os efectivos do Exército e homens da segurança civil dizem que não lhes deixam fazer o seu trabalho. Quando pedem aos familiares para sair da porta, vão se agrupar debaixo de árvores, nos passeios, dentro ou por detrás dos edifícios que estão defronte da maternidade, nos carros, junto da igreja da Sagrada Família e de uma conhecida empresa internacional.
As pessoas aglomeradas estão desprotegidas e não cumprem com o distanciamento recomendado entre elas, apesar dos apelos e das notícias nacionais e internacionais que dão conta de pessoas mortas e infectadas por Covid-19.
Tais cidadãos estão mais preocupados com o estado de saúde de seus familiares do que com a pandemia causada pelo Coronavírus. “ Controlar estas pessoas é difícil”, desabafou um oficial das Forças Armadas Angolanas. O quadro demonstra que a comunicação não está a fluir. “ Quando pedimos para deixar a porta livre, começam logo com a confusão. Ficam nas entradas dos prédios, passeios e outros locais. Depois de cinco minutos tornam a voltar”, explicou um segurança, acrescentando que não consegue perceber o comportamento das pessoas, uma vez que a direcção do hospital disponibilizou um contacto telefónico para os familiares ligar para o gabinete do utente e obter toda a informação necessária sobre os pacientes.
O cenário e o comportamento dos familiares na maternidade Lucrécia Paim é semelhante ao da maternidade Augusto Ngangula.
Moradores
Os moradores ao redor das maternidades citadas estão agastados com a situação, pedem o apoio da Polícia Nacional e de outros órgãos para tratarem do assunto.“Voltamos ao pesadelo”, disse Maria Fernandes, moradora do Alvalade, que já assistiu algum há tempo episódios como estes.
“As nossas vidas estão em perigo, deixamos de ter privacidade e corremos o risco de apanhar o vírus, porque estas pessoas comem, tomam banho, fazem as necessidades menores e maiores dentro do prédio”, desabafou Maria Fernandes que pede medidas firmes para pôr fim ao problema.
Gertrudes Eduardo partilha da mesma opinião. No sábado, foi assaltada dentro do prédio por pessoas que estavam a dormir lá. Estas moradoras queixam-se também que já não conseguem manter os prédios limpos, porque as pessoas deixam lixo nos cantos e até lavam a roupa dentro dos edifícios.
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