Sociedade

Família: o garante da sociedade

Edna Mussalo

Jornalista

São mulheres que têm na família o porto seguro e a vontade para continuarem apesar das dificuldades e limitações. Cada uma com a sua história têm algo em comum, a deficiência física.

15/05/2022  Última atualização 10H15
© Fotografia por: DR

Ana Mutangue é mãe solteira, com uma filha biológica de 11 anos e outra de criação com 12. Vê nas filhas o principal motivo para viver, servir de exemplo e ser o orgulho da pequena.

Deficiente de um dos membros inferiores. A deficiência física de Ana Mutangue, actualmente com 35 anos, é resultante de poliomielite que apanhou aos oito anos. A mulher foi abandonada pelo marido, numa altura em que ela tinha perdido a mãe.

"Depois que a minha mãe morreu, ele pegou nas coisas dele e foi. Era como se estivesse à espera de só uma brecha para me abandonar. A minha filha, na altura, estava com quase dois anos”, lamenta ao acrescentar que a situação a obrigou a viver com a irmã e o cunhado.

Por terem perdido o pai muito cedo, a irmã com quem vive sempre a criou como filha. "Ela é como minha mãe, por isso, acolheu a mim e a minha menina”, realça Ana, enquanto lagrima.

Ana Mutangue diz que a filha, apesar das dificuldades financeiras que a família passa, é bastante inteligente e estudiosa, daí ter boas notas. Essa situação dá a esperança à mulher de que a filha terá um futuro promissor.

Neste momento, ela não recebe apoio do ex-marido. Este dá uma ou outra ajuda para a filha cobrir certas despesas com a escola, mas para o fazer só com muita insistência.

Embora deficiente e desempregada, Ana Mutangue não se sente limitada. É membro da Organização da Mulher Angolana (OMA) e assistente administrativa da Associação Angolana de Direito e Inclusão das Mulheres com Deficiência

(AADIMD), onde tem estado a aconselhar outras nas mesmas condições a não desistirem e acreditarem num futuro com maior inclusão.

Ana Mutangue diz ter a força, porque recebeu da família ajuda emocional. Apesar do estigma e dificuldades financeiras para comprar coisas que qualquer mulher gostaria de ter, ela prefere que nunca lhe falte o amor dos mais próximos.

 

O desafio da inserção social

A directora nacional para as Políticas Familiares e Equidade de Génerodo Ministério da Acção Social, Família e Promoção da Mulher (MASFAMU), Santa Ernesto, disse que as famílias enfrentam vários desafios que se prendem com a sua inserção social e económica, agravada pela pandemia da Covid-19 que impactou negativamente na vida e economia dos países.

De acordo com a responsável, do ponto de vista social, o país depara-se com fenómenos atípicos que em nada se identificam com as famílias angolanas, com destaque para as relações incestuosas e fuga à paternidade.

"Angola é um país africano e rege-se pela cultura tradicional bantu, onde as fontes orais e a educação era exercida pelos mais velhos, anciãos da comunidade, tios, tias, padrinhos e havia uma pressão social, para que todos fossem responsáveis pelo acompanhamento dos filhos e valores”.

Santa Ernesto destacou a importância do resgate de valores morais,cívicos e patrióticos como condição para colmatar vários fenómenos e males sociais. Por isso, avançou que, para isso, 5.960 pessoas foram sensibilizadas, no ano passado, pelo projecto "Jango”.

A directora nacional explicou que este projecto está reforçado pelo Programa de Resgate Morais, instituído através do Decreto 222/19.

Santa Ernesto salientou que o MASFAMU, no âmbito da intervenção e valorização das famílias, controla, por via do Sistema de Informação e Gestão de Acção Social (SIGAS), um total de 48.339 agregados e 116.199 pessoas vulneráveis.

No domínio do referido Programa de Valorização da Família e Reforço das Suas Competências, disse que foram assistidas com bens alimentares 1.369 famílias.

A responsável avançou que o Ministério tem, igualmente, o projecto de promoção do género e empoderamento da mulher, inserido no Programa de Desenvolvimento Local e Combate à Pobreza, em que foram cadastradas um total de 130 mulheres catadoras, concentradas em 37 pontos de concentração de resíduos nas localidades do Belo Monte, Cacuaco e Viana.

Santa Ernesto realçou que foram, também, inseridos em actividades geradoras de rendimento 34.936 pessoas nas áreas de comércio, corte e costura, pastelaria, agricultura, entre outros.

 

"Kwenda” abrange mais de um milhão

A responsável do MASFAMU revelou que o Programa de Fortalecimento da Protecção Social "Kwenda” vai beneficiar, até ao próximo ano, um total de 1.608.000 famílias.

A par desse programa, as autoridades levam, ainda, a cabo os projectos "Valorcriança”, Municipalização da Acção Social e o de apoio ao idoso no lar e comunidades.

Santa Ernesto aponta a gravidez e o casamento precoce como males que enfermam as famílias e cortam o direito da adolescente progredir socialmente, porque a obriga a interromper os estudos, uma vez que mutila a rapariga, se se ter em conta que o seu organismo ainda não está preparado para suportar uma gestação.

"Além da pressão social e da discriminação que a adolescente sofre no seio familiar e fora desse núcleo, se a menina não tiver o amparo dos mais próximos torna-se mais vulnerável e é uma potencial candidata à pobreza”, alerta a directora.

 

"A família é o pilar da sociedade”

O sociólogo António Catemba considerou a família como o pilar fundamental de uma sociedade, sendo parte crucial para a manutenção e preservação dos valores sociais, de modo a manter os padrões culturais e melhorar a regulamentação do comportamento de qualquer cidadão.

Para o sociólogo, a inversão dos valores e desestruturação familiar causam problemas que levam a uma sociedade disfuncional e com vários males.

"Com a desestruturação familiar, vamos ter uma família de potenciais jovens delinquentes, com comportamentos desviantes, onde os seus elementos não estarão à altura de contribuir para uma sociedade sadia”, disse o sociólogo.

Por isso, o sociólogo defendeu que se precisa elevar e cultivar valores éticos, morais e religiosos, para que no futuro não se tenham famílias enfraquecidas, mas grupos familiares que desenvolvam procedimentos pertinentes à sociedade.

António Catemba referiu, igualmente, que vários factores contribuem para a desestruturação da família e consequente disfunção social, entre os quais a guerra, crise económica e a pobreza.

O sociólogo António Catemba sublinhou ser fundamental o cumprimento das normas sociais, valores familiares, cultivo da educação e a valorização da figura do pai como referência para a construção de uma sociedade melhor para as novas gerações do país.

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