Economia

Falta de insumos condiciona produção de alimentos no país

Grande parte das fazendas criadas por entidades privadas continua com os níveis de produção estáveis, apesar de se queixarem da limitação de recursos humanos e disponibilidade de peças de reposição no mercado nacional para manterem intacto os seus projectos.

21/05/2020  Última atualização 19H32
DR © Fotografia por: Gestores agrícolas trabalham de forma empenhada para que a relação entre o campo e a cidade se mantenha e se facilite os mecanismos de intercâmbios

Alguns produtores contactados pelo Jornal de Angola afirmaram que a média de produção actual em comparação com os períodos antes da pandemia de Covid-19 se mantém inalterada, uma vez que os ciclos das plantas serem muito superiores à duração do Estado de Emergência. 

 O administrador da Fazenda Santo António, José Alexandre, realçou os prejuízos inerentes à paralisação da actividade industrial nos períodos do Estado de Emergência, muito mais a ver com os técnicos que não podem vir do estrangeiro para solucionar questões pontuais e o impedimento na importação de peças de reposição por falta de logística no exterior.

A Fazenda Santo António, criada em 2006, na Quibala, Cuanza Sul, produz cereais, carne bovina e suína e possui uma unidade de transformação alimentar. No local, são produzidos anualmente 21.360 toneladas em bovino, suíno, milho e soja. No total, o projecto agro-industrial tem 500 trabalhadores.

Apoio do Estado

José Alexandre considera que os incentivos concedidos pelo Estado não têm sido abrangentes a todos produtores, facto que desencoraja muitos investidores do ramo agro-industrial.  “Nós não somos incluídos em incentivos, continuam a aplicar o IVA no milho, não há benefícios fiscais, temos de pagar IRT e Segurança Social”, reclama.

Questionado sobre as razões da subida constante dos preços dos princípios bens agrícolas, sobretudo em Luanda, José Alexandre justificou a desvalorização da moeda e pelo facto de praticamente os insumos ter de serem importados, o que se reflecte necessariamente no preço ao consumidor final.  Mencionou que não há qualquer tipo de subsídio ao sector agrícola, ao contrário de muitos países que apostam forte nesse segmento.

O gestor agrícola apela à criação de estratégias eficazes para que os níveis de produção se mantenham estáveis ou aumentem significativamente.
“A estratégia é planear o melhor possível e gerir com base nos escassos recursos existentes no país”, salienta para acrescentar que os riscos devem ser cada vez mais mitigados para que se evite receios de se investir no negócio. “Se tivermos máquinas avariadas, teremos de assumir os prejuízos, pois as lojas estão fechadas e as importações de alguns países também pararam”, sustenta.

Desafios actuais

Já Adérito Costa, engenheiro, natural do Negage, um empreendedor agrícola em ascensão disse que um dos grandes desafios actuais do Estado é empenhar-se na reabilitação ou terraplanagem de algumas vias de acesso aos municípios potencialmente produtivos. O proprietário do projecto de fazendas DGIL-Angola Agricultura, de produção e comercialização, cujo trajecto já leva há mais de 10 anos, sugere a criação a que se chamou de “linhagem” apropriada para os produtos do campo, cabendo a responsabilidade de os governos provinciais ajudarem na distribuição.

“Cada Direcção Provincial da Agricultora devia estar doptada de meios de transportes e de logística de acomodação dos produtos e estratégica de distribuição dos bens na própria província e o excedente passaria para as regiões vizinhas ou de maior de consumo”, sugere o empresário, evocando a aplicação do princípio da permuta para permitir a troca de bens e serviços entre regiões.

“Imagine que em Luanda tenha um conjunto de camiões que não estejam a ser usados, então o GPL pode emprestá-los para outros governos limítrofes, por forma a levar os produtos cultivados”, disse. O empresário apela igualmente a uma maior intervenção do Estado para uniformizar os preços das sementes a nível nacional. Nos trinta dias do Estado de Emergência, as empresas agrícolas tiveram enormes dificuldades para a aquisição de imputes, mas que, posteriormente, foram superadas.

“Fomos obrigados a sacrificar algumas culturas, dando prioridade àquelas que são extremamente necessárias e urgentes”, disse.  Adérito Costa afirmou que a redução de pessoal nas unidades fabris contribuiu para a baixa da produção. Antes da Covid-19 produziam acima de 30 toneladas por semestre. Actualmente, anda à volta de 20 toneladas por trimestre.

A DGIL - Angola Agricultura foi criada em 2008 e legalizada em Abril de 2014. Hoje, conta com 280 trabalhadores e 75 expatriados espalhados por diversos projectos criados em Luanda, Bengo, Bié e Moxico. Um dos sonhos do proprietário é poder ter a decisão sobre as condições agrícolas no país, para uma alimentação mais orgânica e equilibrada para as famílias.

Na campanha agrícola 2019/2020 estão disponíveis mais de 5.600 milhões de hectares para 2.846.912 famílias camponesas. Desta franja, apenas se beneficiaram de assistência técnica 1.474 milhões. Para facilitar a mecanização agrícola, o Governo distribuiu 990 tractores a grupos organizados.

UNACA defende novos métodos para o escoamento de mercadoria

Apesar da pandemia de Covid-19, os níveis de produção agrícola mantêm-se altos, devendo serem adoptados novos métodos para o escoamento de mercadorias, defende o presidente da Confederação das Associações de Camponeses e Cooperativas de Angola (UNACA), Albano Lussaty.  Realçou que a campanha agrícola 2019/2020 está prestes a terminar, pelo que sugere a criação de mecanismos para o escoamento dos produtos.

Uma das ideias avançada é o credenciamento dos agentes para evitar que os camponeses se desloquem das zonas rurais para as cidades, a fim de comercializarem os seus produtos. Na óptica de Albano Lussaty, seriam os próprios agentes que pudessem ir ao encontro dos comerciantes, com vista a evitar-se o contágio da doença.

“É importante que haja uma campanha de sensibilização sobre o distanciamento social para se evitar o contágio no meio rural”, defende, para acrescentar que já decorrem a promoção de palestras junto das comunidades locais. Disse que os camponeses têm de produzir e vender para criar as condições de aquisições de materiais de lavoura, já a pensar na campanha agrícola 2020/2021. Caso não aconteça, os homens do campo encontrarão enormes dificuldades.

“É preciso re-distribuir mais imputes agrícolas”, apelou o presidente da UNACA.  Na campanha 2019/2020, os camponeses receberam meios de mecanização agrícola embora em muitas regiões do país não tivessem cumprido com que o Governo decidiu sobre o funcionamento de brigadas de mecanização agrícola devido aos preços altos praticados para a lavoura.

Albano Lussaty elogiou os incentivos que o Governo adoptou no âmbito do alívio fiscal sobre a Covid-19, tendo ressaltando que se criou um ambiente de negócios salutar no campo, mas apela ao maior acompanhamento, dando inclusive formação aos agricultores. Questionado sobre as razões da subida dos preços dos bens agrícolas essenciais no mercado informal, o responsável associativo alegou a inflação como estando na base da subida dos preços, inclusive da cesta básica no mercado.

Apesar disso, realça que o mais importante é que haja o aumento do consumo dos produtos nacionais em comparação com os períodos anteriores à crise económica e financeira em 2014.

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