Reportagem

Falta completar a emancipação da mulher

Francisco Curihingana | Malanje

Jornalista

Anabela Tomás Kidiaca é docente universitária, analista política residente da Rádio Malanje, palestrante e mãe. Formada em Relações Internacionais pela Universidade Técnica de Angola (UTANGA), tem outras formações profissionais, como cursos de Marketing Digital, Oratória e outros que lhe permitem acompanhar o processo da globalização.

10/04/2022  Última atualização 12H40
Anabela Tomás Kidiaca é docente universitária © Fotografia por: Edições Novembro

A sociedade dos nossos dias, disse Anabela Kidiaca, é cada vez mais exigente, daí a necessidade de procurar constantemente por actualização. "Como professora e analista, devo estar sempre dentro daquilo que se passa, não só no nosso país, mas também a nível internacional. Sempre que me deparo com um curso profissional que vai surtir efeitos na minha prática diária, enquanto profissional, tenho estado a aderir”, destacou.

Ao referir-se ao processo de emancipação, Anabela Tomás Kidiaca reconhece que ainda não foi cumprido na totalidade, porque há ainda realidades no país com algumas resistências quer por parte de homens e quer também de algumas mulheres.

Define a emancipação como a igualdade de direitos entre o homem e a mulher. Acrescenta o critério do empoderamento, que tem a ver com a autonomia da própria mulher, a independência, quer financeira quer política e social. "É um complemento que falta para que possamos ter aquilo que, enquanto mulher, desejamos”, frisou.

Reconhece que existem ainda homens que mostram resistência dentro do próprio lar e também há mulheres que têm medo do processo de emancipação. "Encontramos um terceiro modo, que são aquelas mulheres que conseguiram a emancipação mas que de certa forma tendem a confundir com arrogância dentro do lar ou diante da própria sociedade”, completou.

 

Investimento na educação

Anabela Tomás Kidiaca considera ser necessário investir na educação, partindo da base, que é a família. "Temos tantos problemas sociais mas esquecemos-nos de atacar a causa do problema. Se nos virarmos para as famílias e conseguirmos criar políticas sobretudo métodos de como preservar o papel do homem e da mulher no processo de educação familiar, concerteza que iremos ter uma sociedade melhor porque todos saimos das famílias”, realçou.

Acrescentou que as famílias estão em constante decadência, bastando olhar para o próprio processo de desestruturação das famílias. Anabela Tomás Kidiaca apontou ainda como exemplos a separação de casais, resultando no abandono dos filhos, o que tem contribuído na desestruturação das famílias.

Lembra que quando o casal se separa os filhos são abandonados, como se fossem os culpados dos problemas. "Outro grande factor também é a própria fuga à maternidade, que temos estado a vivenciar nos últimos tempos, para além da própria violência doméstica que também é um dos grandes impasses que impede que tenhamos famílias saudáveis” indicou.

Anabela Kidiaca considera que a religião pode jogar um papel importante no equilíbrio da sociedade, partindo de três eixos, nomeadamente, a família, a sociedade e a própria educação. "Refiro-me à escola, as pessoas que fazem a religião saem das famílias, por isso me apego sempre às famílias porque é o núcleo de qualquer sociedade. Todos que estão na sociedade saem das famílias, se endireitarmos as famílias vamos projectar uma sociedade melhor”, justificou.

Empoderamento da mulher ajuda a equilibrar as famílias

Anabela Kidiaca diz que o empoderamento das mulheres, através de microcrédito ou ajudas financeiras directas, deve ser aplaudido. Apesar de serem valores ínfimos, sublinhou, "para quem não tem nada é muita coisa e se for muito bem gerido chega a ser muito mais rentável do que para quem tem um rendimento mensal mais elevado”.

"Por aquilo que temos vindo a constatar nos órgãos de comunicação social, muitas famílias estão a gerir de maneira eficaz este valor e conseguem desenvolver outras actividades económicas”, realçou.

O valor concedido, acrescentou, muitas famílias empregam-no na agricultura, outras criam pequenos negócios. "É uma política que o Executivo está a tomar no sentido de ajudar a colmatar esse problema da pobreza no seio das famílias. Mas é importante que ao concederem este valor às famílias que sejam também acompanhadas de formação sobre empreendedorismo”, sugeriu.

 

Homenagem às zungueiras

Para Anabela Tomás Kidiaca, as mulheres zungueiras são guerreiras. "A essas tiro o chapéu, ajoelho-me e rendo a minha homenagem porque são batalhadoras. A maior parte delas são pai e mãe (duplo papel), sustentam os filhos mesmo com o pai presente. A maior parte delas tem a actividade da zunga como base para o sustento da família”, notou.

Nas vendas, relata, as zungueiras estão sempre acompanhadas de um bebé às costas e algumas vezes estão grávidas também. "É muito sacrifício e dói à alma porque enquanto mulheres nós devíamos ajudar a passar a informação que é possível haver um planeamento familiar, em função da nossa renda”, disse a interlocutora, que por alguns instantes ficou tomada pela emoção.

Lamentou o facto de essa classe de mulheres ser a que mais sofre injustiças, desde a violência doméstica a outros males.

Nota que as vicissitudes por que passa a mulher zungueira não beliscam a sua vaidade. "Se reparar na pastinha que a acompanha sempre tem um batom, um lápis. Quer dizer, a mulher na sua essência é vaidosa, independentemente do seu estrato ou condição social, ela é vaidosa. Por isso é que eu disse que a mulher é um ser diferente dos homens”, completou.

Considerou que o homem não é capaz de fazer muita coisa ao mesmo tempo, mas a mulher consegue cuidar da sua beleza, da família, do marido, olhar para os filhos, cuidar de si e da área profissional. "A mulher está sempre aí, preocupada com a sua essência, o seu perfil enquanto mulher”, disse.

Anabela Kidiaca considerou que a mulher deu um salto muito grande, comparando com o passado. No passado a mulher estava simplesmente reservada às tarefas do lar e foi assim durante muitos séculos. "A mulher viveu assim, era normal, era natural. A mulher tinha uma essência, ocupar-se simplesmente das tarefas do lar, agora não”, concluiu.

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