Opinião

Fake News

Caetano Júnior

Jornalista

A proficiência tecnológica dos nossos dias se tem revelado de grande serventia para o Homem, mas lhe tem, igualmente, provocado dissabores. Fiquemo-nos, aqui, pela Internet, ferramenta de extrema utilidade, que, no seu conjunto, oferece recursos inimagináveis, para quem busca informação, procura por conhecimento; disponibiliza um mundo de alternativas, que vão da prestação de serviços, nas mais diferentes áreas, ao uso belicista.

12/09/2021  Última atualização 07H50
A Internet serve, como era de esperar, nestes adventos das novas tecnologias, o Jornalismo e o Não-Jornalismo, este último algo que se pretende que funcione como contraposição à informação cientificada, sustentada na técnica, apoiada em regras que incluem a ética e a moral. Hoje, dão-se ocorrências em torrente, o que torna difícil aos meios de comunicação segui-las à velocidade que se impõe ou que a necessidade de informação exige. Por isso mesmo, a Media instalou-se online, procurando oferecer os seus serviços em tempo real, mesmo assim vergada pelas obrigações do "guião” que regula o exercício da profissão.

A Internet propiciou, igualmente, o surgimento das Redes Sociais e de plataformas digitais. Estas permitem que pessoas, mesmo geograficamente muito distantes, se liguem, se comuniquem, interajam, enfim, troquem informações. São recursos utilíssimos, práticos, que têm proporcionado vantagens incalculáveis. Também representam, infelizmente, meios perniciosos, que têm sido usados para a proliferação de atrocidades, através, por exemplo, das falsas notícias, que, não sendo eventos novos, conformam, agora, inverdades requintadas, velhos ardis em esmerados revestimentos, para mais facilmente se rodearem de credibilidade.

Com efeito, as falsas notícias não são uma exclusividade dos nossos dias. Remontam ao passado anterior ao Sec. XXI. A História regista eventos comprovativos da disseminação da informação falsa e/ou falseada, na Roma de Marco António ou no Sec. VIII de Constantino. No limbo da Revolução Francesa, falsas notícias circularam, a dar conta do declínio do Governo. Benjamin  Franklin, por seu lado, é descrito como tendo espalhado conteúdos falsos sobre os índios e uma suposta ligação ao Rei George III, para influenciar a Revolução Americana.

Sequer vale a pena lembrar teorias de Joseph Goebbels, o propagandista da Alemanha nazista (1933 e 1945), fervoroso defensor da disseminação do que hoje é, para muitos, a "verdade alternativa”. Talvez por isso, Hannah Arendt, filósofa/política alemã, de origem judaica, defendesse sempre que o totalitarismo massificou a desinformação. Há, pois, um vasto território para explicar as Fake News, espaço que deve incluir áreas do saber como a Sociologia, a Psicologia e outras das Ciências Humanas e Sociais. Não estender a busca da compreensão a estes campos é abordá-las de forma redutora, simplista.

Nos dias mais recentes, as falsas notícias ganharam outra dimensão, com as eleições presidenciais que concederam a Donald Trump o poder, nos Estados Unidos. As falsidades começaram logo no primeiro dia no cargo, com o exagero no número de espectadores na posse, de acordo com relatos da imprensa mundial. Entrou em uso, desde então, uma espécie de neologismo universal: "Fake News”. Com Trump, emergiu, igualmente, o conceito de "Verdade Alternativa”, para justificar a fabricação de notícias. 

Como se vê, as "Fake News” surgem da necessidade deliberada de desinformar, da intenção dolosa de disseminar informação infundada, para criar um estado de opinião favorável aos interesses de quem o faz, individualmente ou ao serviço de um colectivo. As "Fake News” não nascem, necessariamente, como às vezes se pensa, da falta de credibilidade dos Órgãos de Imprensa, nem da inexistência de informação de interesse nestes.

O falseamento de notícias é filho de um propósito bem delineado ou de um conjunto de acções estrategicamente definidas. O Objectivo é influenciar, abalar, criar instabilidade, até porque as "Fake News” são um fenómeno globalizado. Se fossem resultado de um suposto "recolhimento” do Jornalismo, não haveria no Mundo um órgão de imprensa credível. A verdade é que os há.

A título de exemplo, desde o início da pandemia, só o Facebook e o Instagram removeram mais de 20 milhões de conteúdos sobre desinformação relativa à Covid-19. O YouTube, por seu turno, eliminou acima de um milhão de vídeos, pelas mesmas razões. Assim, a Imprensa, pelo Mundo, falhou no tratamento das matérias sobre a pandemia, o que terá motivado o surgimento de "Fake News”? Não é verdade!

As Redes Sociais e as plataformas digitais são também um "habitat” de gente ociosa, à espera de despejar as suas frustrações, a raiva que alimentam, sobre outros; são um lugar de pessoas desinteressadas na informação veiculada pela Media sóbria; equilibrada; são a morada de quem prefere o polémico, o difamatório, o instigador do ataque, da violência, da especulação, da acusação gratuita. Estes espaços chegam, enfim, a ser o pouso preferencial para a informação guarnecida de sangue. Afinal, o Jornalismo não se antecipa aos factos, nem os cria. Apura, avalia e pública.

Não nos esqueçamos nunca que as "Fake News” são só um mal instalado no bem maior que é a Internet. Desagregam valor à comunicação, enchem-na de suspeição. De qualquer forma, a Internet é e será sempre o que nós quisermos que seja. Somos quem lhe dá uso e sentido; não tem vida própria, nem "noção” do poder que reúne. Não calunia, não inventa factos, não produz (des)informação. Fazemo-lo nós. A credibilidade dos conteúdos que circulam depende apenas de nós. A opção é nossa.

A Internet é, de facto, determinante, também pela facilidade no acesso e na velocidade com que as informações se processam. Assim, sequer vale a pena comparar a rapidez das Redes Sociais à dos órgãos de imprensa. Do mesmo modo, não adianta discutir a qualidade e a fiabilidade da informação em cada um dos campos, com natural vantagem para o Jornalismo, que, afinal, só se faz no espaço convencional. Nas Redes Sociais, correm informações - não necessariamente notícias -, grande parte das quais em jeito de denúncia.

Em muitas situações, nas Redes Sociais, o usuário limita-se a reencaminhar o que recebe, sem sequer se preocupar em perceber o conteúdo e avaliar se convém repassar. É a automatização da insensatez, que dá provimento às falsas notícias, num meio que nos oferece uma miríade de opções, para nos tornarmos verdadeiramente construtivos.

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