Opinião

Faca de duas faces

Luciano Rocha

Jornalista

A Internet, que alterou hábitos, encurtou distâncias, esbateu fronteiras e aumentou o crime, equipara-se a faca, que tem duas faces, tanto pode ser útil, como desastrosa, depende de quem a utiliza.

17/06/2021  Última atualização 06H00
A Internet, como a conhecemos hoje, começou a despontar nos anos de 1980 e nunca mais interrompeu a caminhada, num galope impressionante, cujo fim é impossível de prever, com consequências imprevisíveis. A mente humana não tem limites, independentemente de género, nacionalidade, idade, formação académica, área, profissão, analfabetos, incluindo os que quererem fingir que não são, alguns deles com diplomas universitários.

A evolução das técnicas da "comunicação escrita” continua entusiasticamente imparável. Sem necessidade de recorrer à "época da arte rupestre”, refira-se que alguns leitores - não muitos, mas ainda há - escreveram as primeiras letras com aparos adicionados e canetas de pau a molhar em tinteiros colocados em concavidades nos topos das carteiras. Ao mínimo descuido, "borrava-se a escrita”. Por isso, a operação era acompanhada de mata-borrão para evitar algumas reguadas ou proibição de recreios. De um ao outro castigo viesse o diabo e escolhesse. Isso era no tempo em que se escreviam cartas, enviavam-se bilhetes, pediam-se avios, nas lojas de vender tudo, levados por meninas e meninos.

As comunicações entre locais mais distantes eram feitas "via morse” descodificadas por "técnicos especializados”. O tempo do telex ainda estava longe, quanto mais o telefax surgido nos anos de 1970, com a particularidade de emitir fotos no imediato! Com pouca qualidade, mas publicáveis. E quase num repente aparece a escrita por computador, a interacção imediata entre os pontos mais distantes do globo e tudo mudou. Verdades e mentiras, elogios sinceros e oportunistas, reparos fundamentados e calúnias, vidas expostas e difamadores encobertos, conselho sábio e palavra charlatã, debate franco e proveitoso, palavreado sem nexo, informação útil e vigarice pegada, transcrições correctas e truncadas, mau e o bom no mesmo espaço. Como dois lados da mesma faca dependentes de quem as usa.

A má utilização da faca não lhe pode ser atribuída. Por ela própria é inofensiva, necessita de alguém que a maneje, bem ou mal. Com as novas tecnologias passa-se o mesmo. Acusá-la pelos crimes dos utilizadores é o mesmo do que, na hora, higiene oral da manhã, confundir raspadeira com lâmina ou creme de barbear com pasta dentífrica.
As novas tecnologias, cada vez mais sofisticadas, nasceram para facilitar a vida no corre-corre que caracteriza as sociedades modernas ou em vias disso, de alunos e professores, trabalhadores e empresas, mestres e aprendizes. Também como passa tempo, é facto, mas nunca com fins movidos por vaidades bacocas, intriga, tão-pouco como réplicas de pombos correio. Diferentes dos autênticos, que foram, até certa altura, importantes meios de comunicação, leais aos donos, a merecerem o que comiam, ao contrário dos de agora.

O problema, reconheça-se, é mais difícil de resolver do que parece. A solução que vem à boca de muitos dos leitores é de "trancar” determinados textos, designadamente os que, encobertos pelo anonimato, atentam contra o bom de alguém, mas a pergunta que se segue de imediato é se a medida não atenta contra liberdades individuais, das bases de uma sociedade democrática como a que se tenta edificar em Angola. Verdade que o direito de expressão é lato, mas inclui a difamação?

A solução, uma vez mais, passa pela "revolução de mentalidades”, a mais difícil de todas, até por ser morosa, mas algum dia tem de ser tentada, não com discursos balofos, também eles nocivos ao nosso desenvolvimento como país. Talvez, quem sabe, no ensino, que requer, igualmente, discussão atenta.

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