Opinião

Expectativas e receios

Luciano Rocha

Jornalista

O tempo entre o anúncio da composição dos novos parlamento e Executivo, bem como dos governadores provinciais é curto para tirar grandes ilações, embora uma ou outra frase, mesmo palavra, ouvida ou lida, possam entreabrir portas de esperança.

29/09/2022  Última atualização 06H55

As primeiras expectativas de eventuais ventos de mudanças foram criadas, uma vez mais, por João Lourenço, quando, implícita ou explicitamente,  referiu a necessidade de melhor comunicação, consciente de que a falta dela caracterizou os últimos tempos do anterior Governo,  com resultados nefastos, designadamente para ele próprio, o partido a que preside, acima de tudo e todos, o país.

A alguns dos mais atentos ao que lhes é dado observar ao escutarem ou lerem as frases do reeleito Chefe de Estado e Executivo veio à memória o discurso que fez na tomada de  posse do mandato anterior, que provocou onda de esperança renovada entre a esmagadora maioria dos angolanos. Foi, na altura, mais do que um toque do render da guarda. Constituiu o anúncio de novo renascer da alvorada tingida, durante excessivo período, pelo cinzento das noites cacimbentas e frias que atingem, principalmente, aqueles cujos salários - os que os tinham e recebiam - não permitiam "luxos”. de aquecedores, sequer atear fogueiras.

Verdade é que, por causas conhecidas, a esperança da nação angolana voltou a esmorecer. Umas vezes previsivelmente, pois conhecidas a tempo pelos exemplos vindos de fora, mas inevitáveis num país falho, em quantidade e qualidade, de serviços e servidores. Alguns exemplos? Desvalorização do petróleo - uma das riquezas da nossa desgraça -, logo, por arrastamento, da moeda; surgimento da Covi-19, com efeitos evidentes que se juntaram às do paludismo, atulhando cemitérios; instalação de unidades sanitárias, aquisição de fármacos e material para as tornar eficazes; crise económica e financeira que varreu o Globo de um extremo ao outro. A  lista podia continuar, mas não cabia no espaço da crónica.

Todo aquele amontoado de desditas pode ter feiro abrandar o cerco aos responsáveis pelo desbaratamento da coisa pública, que o tomavam como deles, iniciado logo a seguir à primeira tomada de posse de João Lourenço como Chefe de Estado e do Executivo, quando a preocupação imediata era apanhar "os cacos”, que restavam da "grande farra”, para os tentar colar.

 Aquela atitude surpreendente - coroada com as primeiras detenções pouco tempo após a posse de há cinco anos - redobrou a confiança do angolano comum em mudanças reais neste país adiado, que, contudo, parece terem abrandado ainda antes  da Covid-19.  Talvez por ter perdido o impacto da novidade, o que não tem de reflectir falta de investigação. Outra hipótese a considerar é a tal falta comunicação - ou deturpada, acrescentamos nós - na verdadeiro sentido significação, ventilada, agora, por João Lourenço . Causas à parte , ressurgiu a desvergonha, a destapar trunfos viciados de baralhos batoteiros dos mesmíssimos jogos, especialidades, em Angola e fora dela, da pequena burguesia impreparada e derivados incapazes de esconderem vaidades bacocas.

O momento que vivemos não é de euforias devido às perseverantes debilidades e causas que as mantêm, mas, outrossim, pelas que podem estar para vir. É que Angola, estranhamente ao que alguns demonstram, não é bolha isolada do Mundo, logo da turbulência que o sacode. Fossemos o país que já podíamos ser e as consequências do que aí vem não eram tão espinhosas. Mas, não somos e se a solução dispensa choros sobre "leite derramado”, jamais será procurar esconder verdades, enfeitá-las com ramos de bajulice. O combate à corrupção e nepotismo está acima de tudo, é umas das pedras dos alicerces da Verdade, que dispensa o culto de quem é medíocre.

As expectativas de mudanças recentemente lançadas reanimam expectativas, mas também receios fundamentados.   

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