Opinião

Exemplos ignorados

Luciano Rocha

Jornalista

Nesta fase atribulada do Mundo, em que escasseia o que devia abundar e há excesso do que existe para ser excepção, os bons exemplos são preteridos a favor do vulgar, até do condenável.

12/05/2022  Última atualização 08H45

Ao Mundo, na esmagadora maioria dos segmentos que o preenchem, faltam-lhes referências. As que existem são minorias. Por isso mesmo, com frequência, maioritariamente sufocadas, marginalizadas, perseguidas, de maneira velada ou descarada.

Os praticantes e cultores do faz de conta, tal como os da submissão, não os toleram. Recorrem a todas as manigâncias para os subtrair. O "nós” a favor do ”eu” caiu em desuso. Em contrapartida, fanfarronices e vaidades alastram-se, de modo galopante, impondo-se à moral. São uma espécie de larva de vulcão que, após extinto, deixa poeiras venenosas.

Ao Mundo faltam referências, exemplos a seguir, não deuses, simplesmente pessoas, com defeitos e virtudes. Incapazes, contudo, de se porem em bicos de pés, procurarem, a todo o custo, as "luzes da ribalta” em forma de câmaras de televisão ou fotográfica, injustificados títulos de imprensa. Ao invés, optam pela sobriedade e sobrepõem o "nós” ao "eu”.

A vulgaridade, revelam as evidências, espalhou-se, tal qual gangrena, por todos os continentes, dos ditos mais evoluídos aos menos. As excepções são isso mesmo. Pepetela, em recente entrevista à Zimbo, referiu Che Guevara, argentino de nascimento, Julius Nyerere, tanzaniano, e o angolano Câmara Pires como referências de História mundial recente. Qualquer deles devia figurar em compêndios escolares de todo o Mundo, em zonas nas quais as opressões mais se sentiram.

Dos três exemplos citados, o primeiro continua a ser, porventura, o mais conhecido. Por enquanto… pois, pela maneira como a História tem vindo a ser contada e escrita, não tarda que nem a camisola com o rosto estampado e a boina com a estrela o lembrem. O segundo, talvez seja recordado por alguns dos que, de uma ou outra forma, participaram nas lutas de libertação nacional. Garante quem o conheceu ser cortês, calmo, um sábio. Do terceiro, ainda hão-de de ser incomparavelmente menos a saberem quem foi, sequer que existiu.

Câmara Pires integrou, pasme-se, no único Governo Republicano que houve em Espanha. Porquê? Pelo apego à liberdade. Essa  é  a causa que o levou a participar na guerra contra a ditadura monárquica. Foi, provavelmente, o único angolano a fazê-lo.

A derrota não lhe esmoreceu o sentido de justiça, nem o amor pátrio. Pelo contrário, o compromisso com a libertação de Angola do jugo colonial manteve-se. Homem culto, de   fácil  trato, a guerra em Espanha não lhe deixou apenas amarguras. Permitiu-lhe estabelecer conhecimentos e amizades com outros internacionalistas que lhe foram úteis nas ajudas a compatriotas, designadamente estudantes que fugiam de Portugal, passando por Espanha, França, Alemanha antes de rumarem a outros destinos, um dos quais as diversas frentes de luta armada contra a ocupação portuguesa, como recordou Pepetela na entrevista à Zimbo.

Câmara Pires é figura grande da nossa História que não pode continuar esquecido. Nem pelas gerações de hoje, nem das dos amanhãs todos que se seguem. São exemplos como os dele que merecem ser propagandeados, seguidos, estudados, principalmente nestes dias que vivemos cercados de enfatuados, com e sem fato, de vaidades que substituem vergonhas caídas em desuso.

Assembleia Nacional, Governo, forças políticas, estabelecimentos de ensino de diferentes graus, organizações civis, no fundo, todos nós, cada um, servindo-se dos meios de que dispõe, tem a obrigação moral de divulgar figuras mundiais, africanas, angolanas que honram passados e presentes, pela forma de estarem na vida e permanecem no esquecimento.

Câmara Pires não foi o único. Mesmo entre nós, houve outras figuras ignoradas pelo presente que têm de começar a ser enaltecidas. Sobretudo as que optaram pelo "nós” e detrimento do "eu”.

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