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Euclides Sacomboio : “Temos que ter capacidade para recuperar pacientes com quadros graves de Covid-19”

Euclides Sacomboio é doutor em Ciências de Saúde e mestre em Bioquímica e Biologia Molecular. Também é especialista em Microbiologia Médica e Vigilância Epidemiológica. Em entrevista ao Jornal de Angola, elogiou algumas acções até agora executadas, mas lançou um olhar crítico a várias medidas institucionais e ao comportamento das pessoas face à doença. “Nós temos que ter capacidade de recuperar pacientes com quadros graves de Covid-19. Temos pouquíssimos casos onde o paciente vai a um quadro grave e há reversão. Isto é preocupante”, diz o especialista, a propósito do número de óbitos

28/08/2020  Última atualização 03H13
Edições Novembro © Fotografia por: Euclides Sacomboio é doutor em Ciências de Saúde e mestre em Bioquímica e Biologia Molecular

As estatísticas oficiais mostram um número elevado de mortes por Covid-19. Do seu ponto de vista, o que estará na base disto?

As estatísticas oficiais mostram que estamos com 105 casos de óbito, isto é, próximo dos cinco por cento dos casos que temos. Temos mais de dois mil casos e as mortes acima dos 90 por cento. Não é uma taxa muito alta em comparação com o mundo. Mas, o número de mortes está a aumentar muito nos últimos dias, ou seja, sempre que temos um número alto de casos, temos mortes. Isto é preocupante, porque o que parece é que, nos últimos tempos, todos os pacientes com quadro grave acabam por morrer... Esse é um mau prognóstico. Nós temos que ter a capacidade de recuperar pacientes com quadros graves de Covid-19. Temos pouquíssimos casos onde o paciente vai a um quadro grave e há reversão. Isto é preocupante.

O que pensa do tratamento dado às pessoas com doenças pré-existentes?

Na verdade, os casos de pacientes com comorbilidade, ou seja, às pessoas que já têm alguma doença de base, o quadro grave de Covid-19 pode acontecer. Acredito que o atendimento a estas pessoas deve ser mais direccionado, de forma individual. É necessário que, primeiro, os programas de atendimento aos pacientes de Covid-19 estejam direccionados, principalmente, àqueles pacientes com co-morbilidades. Ainda penso que é necessário fazer testes em massa em pacientes com VIH, insuficiência renal crónica, hipertensão, diabetes, anemia falciforme e pacientes que têm problemas de imunidade e que frequentam os hospitais de forma contínua. Isto para fazer um diagnóstico precoce e um atendimento mais antecipado. Se esperarmos que eles desenvolvam um quadro e depois apareçam para serem diagnosticados, teremos um alto índice de pacientes com casos graves de Covid-19. Na minha perspectiva, os pacientes com comorbilidades devem ser testados mesmo sem apresentar um quadro grave de Covid-19, principalmente, os que estão quase sempre nos hospitais... Este seria um caminho mais acertado.

As medidas sanitárias implementadas são suficientes para o corte da cadeia de transmissão do SARS-CoV-2?

As medidas sanitárias até ao momento implementadas pelo MINSA e pela Comissão Multissectorial, de certo modo, permitem reduzir as chances de contaminação, mas não são suficientes. Acredito que estejamos a generalizar as medidas de prevenção contra a Covid-19. Isto é mau. Por exemplo, para Luanda, já devíamos adoptar medidas diferentes em relação às outras províncias. Luanda devia ter medidas mais rígidas e que dessem mais resultados. Não falo de multas por causa da máscara ou outras. Acho que multas não são medidas de educação para a saúde, são mais medidas económicas.

Que medidas efectivas defende?

Precisamos de aumentar as medidas de educação para a saúde. Precisamos de dar mais autonomia aos centros e postos de saúde... Precisamos de comover as pessoas. Acho que já está na hora de alguns pacientes que foram infectados pela Covid-19 aparecerem e dar o seu contributo, explicando às pessoas o que sentiram, ensinar os primeiros sinais e sintomas e como foi o tratamento e o acompanhamento médico que receberam. Isto para que as pessoas comecem a familiarizar-se mais com os conteúdos da doença e se rompa, principalmente, o tabu que vai ser um dos maiores desafios do MINSA, porque os pacientes assintomáticos passam a ser tratados em casa. Aí teremos desafios de educação e de mentalidade que, talvez, vão impedir que este processo ocorra de forma eficaz. Suponhamos que um indivíduo é assintomático, não acredita na doença, pensa que é só uma invenção do Ministério da Saúde... Ele estará em casa a fazer o tratamento, mas pode sair à rua e infectar outras pessoas. Então, algumas medidas são muito acertadas, outras precisam de ser melhoradas. Tenho vindo a chamar atenção para o começo da realização de estudos que vão mostrar características próprias da Covid-19 em Angola, onde vamos saber qual é o perfil do paciente assintomático ... provavelmente vão ter um sinal. Nós, com base no mesmo, podemos alertar as pessoas para que, caso tenham este ou aquele sintoma, o mais recomendável será fazer um teste rápido ou de RT-PCR ...

O que diz sobre os protocolos de tratamento da Covid-19 em uso nas nossas unidades sanitárias?

Temos que ser mais abertos em relação ao tratamento da Covid-19, porque temos tantos pacientes internados por longos dias, enquanto que em outros países o tratamento é em torno de 15 dias, no máximo, até um mês. Por quê que temos este número alto? O que é que está acontecer? Acho que falta mais clareza em relação aos procedimentos e medidas que são utilizados para diagnóstico e tratamento. Também falta adequar à nossa realidade as medidas de prevenção contra a Covid- 19.

Além das medidas universais, o que fazer atendendo a nossa realidade?

Por exemplo, há uma medida que critico muito, quando se apresenta nas televisões ou se fala em rádios para “não lavar as mãos em bacias nos funerais”. O entendimento que se tem é que não se deve lavar as mãos em bacias. Com esta informação, as pessoas param de lavar as mãos. A maioria da população angolana não tem água canalizada, sempre lavou as mãos em bacias, sempre tomou banho em bacias... Precisamos de fazer entender a população que deve lavar as mãos, independentemente, de qual for a sua condição. Mas que, se for lavar as mãos numa bacia, aquela água não pode ser utilizada por outra pessoa para lavar as mãos. Mas pode ser usada para despejar na sanita... O objectivo de lavar as mãos com água e sabão é inactivar o vírus. Outra medida, por exemplo: “não partilhe pratos e talheres”. Há pessoas que têm poucas condições e não sabem o que fazer... Tem que se dizer a estas pessoas que podem sim utilizar os mesmos utensílios, mas depois de lavados com água e sabão ou que lavem com água quente, porque esta tem uma acção eficaz contra o vírus. E que também, antes da sua utilização, devem secá-los. Dito deste modo, estas medidas vão permitir que a população as incorpore melhor e as acate.

Quando estas medidas forem desrespeitadas, como sancionar os transgressores?

..Defendo que algumas medidas precisam de ser bem descritas... Não sou a favor das medidas punitivas. Sou a favor das medidas de correcção e de incentivo. Há necessidade de maior educação para a saúde. Muitas pessoas, nos mercados, nas ruas e em outros lugares, sabem que devem proteger-se contra a Covid-19, mas não entendem porquê que devem fazer isto ou aquilo...Há uma necessidade de aclarar a informação para que as pessoas entendam o objectivo de cada uma das medidas.

Como encara as cercas sanitárias?

Acredito que as cercas sanitárias e outras medidas já não sejam tão eficientes. O vírus já está em todos os lugares. A cerca sanitária para Luanda, talvez, ainda se aceita, pelo facto de ter infecção comunitária e não querermos que o mesmo aconteça em outras províncias. Mas as outras províncias já deviam ter abertura para fazer a economia circular. Porque a Covid-19 está mesmo a matar a economia do país. Está a aumentar o número de desempregados, numa fase em que estamos em recessão económica há algum tempo. Não podemos continuar a desfavorecer a economia.

Como avalia os diferentes níveis de vigilância sanitária implementados pelo MINSA?

Os níveis de vigilância sanitária perderam um pouco o sequenciamento ou não estejam muito baseados na visão epidemiológica. Estabelecemos Estado de Emergência com quatro casos. Prorrogamos e depois começamos a fazer o desconfinamento quando os números de casos aumentavam. Estamos a fazer desconfinamento para Luanda e, do mesmo modo, para outras províncias. Luanda tem circulação comunitária e estamos a falar em trabalho a 50 por cento nas empresas. Estamos a falar que daqui a pouco vamos abrir as actividades desportivas, os shows... Parece haver um descompasso naquilo que é a condição epidemiológica e os níveis de controlo da doença. Não estou a entender muito bem o que a Comissão Multissectorial quer fazer. De qualquer forma, como profissional, posso dizer que desse jeito estamos a promover o aumento das infecções, a cadeia vai ser maior... Da forma que está, a ideia é que toda a gente viva ou conviva com o SARS-CoV-2 e, daí em diante, não se tenha mais um controlo da doença.

Qual é o seu conselho?

Se quisermos ter o controlo da doença, temos que avaliar os índices de infecção comunitária e restabelecer medidas de restrições mais adequadas. Organizar os serviços, reorganizar a actividade nos mercados que hoje têm dias próprios para abrir. Acho que não é o mais adequado, porque todo o mundo vai fazer compras naquelas datas e há maior fluxo de pessoas. Acredito que seja necessário abrir os mercados todos os dias e seleccionar pessoas que vão trabalhar em dias alternados. Isto fará com que se diminua o número de pessoas a vender, também vai reduzir o fluxo de pessoas nos táxis e nos mercados. Em relação às empresas, deve-se encontrar medidas para que possam trabalhar, nem que seja um trabalho de 24 horas, mas por escalas. Isto reduz muito o número de pessoas que circula nas ruas. Reduz a possibilidade do vírus infectar um grande número de pessoas ao mesmo tempo e estabelece parâmetros mais adequados. Assim, muitas medidas, em função dos níveis de vigilância que o MINSA ou que a Comissão Multissectorial decidiu implementar, precisam de ser revistas urgentemente. Se não, corremos o risco de ter toda a cidade de Luanda infectada com o SARS-CoV-2 devido a forma como estamos a gerir a situação epidemiológica.

Entre à espera da vacina e à testagem em massa, onde nos encontramos a nível de saúde pública?

Tenho receio, em função da espera da vacina e das condições de atendimento. Está na hora do MINSA dar autonomia e condições aos centros e postos de saúde. Muitos deles não têm nem luvas, nem máscaras e os profissionais não estão orientados sobre como atender um doente com a Covid-19. Precisamos de dar formação aos profissionais de saúde. Quase todos profissionais de saúde do país devem estar preparados para atender pacientes com SARS-CoV-2. Devem ter em mãos luvas, máscaras e outros materiais, em especial testes rápidos, pelo menos. Devem ter noção de que a Covid-19 agora é um inquilino permanente em Angola. Por isso, devem estar alerta. As pessoas devem ter a oportunidade de ir ao posto de saúde, dizer o que estão a sentir e ali mesmo se fazer o diagnóstico. É necessário que se descentralize este quadro em que a Covid-19 é responsabilidade da ministra da Saúde, do secretário de Estado, dos governadores provinciais. Está na hora de dar responsabilidade aos profissionais que trabalham nas unidades de saúde e permitir que eles sejam os precursores do processo todo.

Ao aguardarmos pela vacina,a luta é não estarmos infectados

É imperioso uma vacina?

A vacina, provavelmente, chega a qualquer momento. O que o país tem de fazer é lutar ao máximo para que o menor número de pessoas esteja infectado. Se tivermos um alto índice de infecção, vamos ter também maiores dificuldades caso saia uma vacina. Porque a vacina é para aqueles que não foram infectados pelo SARS-CoV-2 e não para infectados. A vacina não é um tratamento. Temos que fazer com que as pessoas não se infectem, para que, quando a vacina chegar, possa ser aplicada às pessoas e, deste modo, elas possam ficar protegidas contra o vírus. Sinto que as últimas medidas tomadas pela Comissão Multissectorial acabam por promover mais o convívio com a infecção do que reduzi-la. Isso preocupa-me. Precisamos de lutar contra isso de todas as formas... Ainda existe outro factor a considerar: em alguns casos, a convivência com o vírus reduz a sua letalidade. Para o vírus, não é vantajoso que a pessoa morra, porque ele precisa das células do indivíduo para que continue vivo. Talvez, com o passar do tempo, o vírus tenha uma letalidade bem menor do que a que tem agora e venha a ser como o vírus da gripe, com o qual convivemos no dia-a-dia... Mas, esta é outra história... Por enquanto, o SARS-CoV-2 é uma pandemia, tem uma alta taxa de infecção e de mortalidade.

Há uma corrida muito grande pela vacina. Que comentários?

Ao aguardarmos pela vacina, a luta é não estarmos infectados. Outra coisa que precisamos de fazer é participar dos estudos de vacinas. Acho que está na hora do MINSA negociar isto com países que têm cooperação com Angola e que já têm a vacina na fase III dos testes. Um acordo pode facilitar para que também recebamos doses de vacina e testemos os nossos irmãos e em nós mesmos. Porque, por vezes, uma vacina tem eficácia para uma população, mas não tem para outra. O facto de não estarmos a participar de nenhuma fase das investigações faz com que a vacina, quando estiver no mercado, seja mais cara para nós. Outro aspecto é que, se recebermos amostras e formos testando, quando descobrirmos que vacina funciona, muitos angolanos já terão sido vacinados e teremos um número menor de pessoas para vacinar. Até que saia uma vacina, também é necessário que se estabeleçam prioridades, por exemplo, as pessoas com co-morbilidades devem ser as primeiras a ser vacinadas. Depois os idosos - grupo já com grande risco de morrer com a Covid-19-, as crianças, os profissionais de saúde e os outros grupos.

Dados do MINSA mostram que os jovens dos 30-39 anos representam uma taxa de infecção mais alta. O que estará na base disto?

Os estudos mostram que os jovens, realmente, têm menor risco de desenvolver infecção grave por Covid-19... Na verdade, os estudo até mostram que os jovens têm sido os promotores das infecções, principalmente, as comunitárias. Têm tido atitudes irresponsáveis, se infectam e acabam por infectar. Para o caso de Angola, os jovens, na faixa dos 30 aos 40 anos, é um grupo que também já desenvolveu algumas co-morbilidades, é o caso do HIV, anemia falciforme, hipertensão, diabetes... Dormimos pouco, curtimos nas festas de forma exagerada, estamos nos bares e nos restaurantes, estamos na rua o dia todo e muitos de nós está na rua e no trabalho. Isto também favorece a infecção. O SARS-CoV-2 não escolhe idades. O que acontece é que, para os idosos acontecem os quadros mais graves e para os jovens, os quadros mais leves. Entretanto, em termos de infecção, os jovens são os promotores da infecção por SARS-CoV-2. Por isso é que eu falava em educação para saúde. Há a necessidade de direccioná-la de forma mais adequada aos jovens. Tudo isso permitirá aos jovens prevenirem-se melhor. Pois são os jovens que querem ficar sem máscara ou andar com a máscara no queixo. Estas falhas todas vão fazer com que a taxa de infecção seja maior nos jovens do que noutras idades...

Os homens também são mais infectados do que as mulher. Qual é a explicação?

Realmente. Há várias razões que levam a isso. Estudos que temos vindo a desenvolver para a malária, tuberculose, diabetes e outras doenças, mostram que os homens são os mais infectados por causa do comportamento. As mulheres têm um pouco mais de cuidado em relação a saúde. Neste momento, as mulheres acatam mais as medidas de assepsia e anti-sepsia, no que toca à desinfecção e lavagem das mãos. Se andar pelas ruas, vai perceber que a maior parte das pessoas que está a usar as máscaras de forma incorrecta é de homem, independentemente das idades. Fiz esta observação nos últimos tempos e percebi claramente isto...As mulheres são as que estão a sair menos de casa, estão com mais cuidados, estão sempre com álcool em gel na pasta, quando tiram as máscaras colocam num lugar seguro. Os homens não o fazem... Por estas razões, os homens serão mais infectados do que as mulheres e vão levar as infecções para suas casas, pelos hábitos de irresponsabilidade masculina. Somos os que acreditam que a doença não existe e somos os que mais promovemos actividades onde o vírus circula. A maioria das doenças infecciosas atinge mais homens do que mulheres. As mulheres, mais do que os homens, quando sentem alguma coisa, tendem a recorrer mais aos hospitais. Isto é visível em Angola... já os homens não, menosprezam a dor... Por fim, acabamos por desenvolver quadros mais graves e temos de ir ao hospital com Covid-19 ou outra doença...

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