Entrevista

Euclides da Lomba: “Se não fosse a música, dançaria merengue na areia”

Manuel Albano

Jornalista

Euclides da Lomba completou oficialmente 38 anos de carreira em Julho deste ano. O “menino” de Cabinda, que começou a trilhar os palcos em 1984, em entrevista, ao Jornal de Angola, afirmou que gostaria de ser lembrado apenas como “um bom homem”.

12/11/2022  Última atualização 08H35
© Fotografia por: DR

Quando é  que começou a carreira?

É difícil explicar exactamente quando e como começou a minha carreira. Foi a música quem me escolheu e não fui eu que escolhi a música. Comecei timidamente nos acampamentos da Organização dos Pioneiros Angolanos (OPA). Sempre fiz parte dos grupos de dança e dos movimentos culturais escolares na minha infância e juventude, na Escola Ho Chi Minh, em Cabinda, até a ida para Cuba, em 1982.

Foi em Cuba onde tudo começou?

É verdade. Foi em Cuba onde aprendi a fazer alguns acordes de guitarra. Alguns amigos na época como o Machado e o Gabriel tinham alguma paciência de estar comigo. Estava mais sensível em ser desportista do que músico. Enquanto estudante em Cuba, fiz boas marcas a nível do atletismo, joguei andebol e futebol, mas a música acabava por ser sempre aquela reserva moral. No horário de dormir, às 22h00, geralmente ficava a tocar e fazia barulho. Os colegas de quarto mandavam-me calar e quando não tocava, também, perguntavam-me e assim comecei a participar nos festivais, cruzando-me com grandes cantores cubanos até que entro para os Estrelas de Angola, que foi praticamente a minha consagração.

 Como se caracteriza como artista?

Sempre fui um artista que gostou de músicas de intervenção, de pendor político e da nova trova cubana. Tudo isso estava muito associado pelo contexto da época e porque a música latino-americana era uma arma de denúncias por causa das questões geopolíticas dos EUA no território cubano.

Fui influenciado pelas canções de intervenção dos cantores cubanos Violeta Parra, Pablo Milanes, Sílvio Rodriguez, Tânia Libertad, Sara González. E do Brasil, como de Chico Buarque, Djavan, Milton Nascimento e Caetano Veloso. Dos Estados Unidos, ouvia muito Elvis Presley e outros da época. As minhas origens também me facilitaram o acesso à música. Todos eles faziam parte do nosso quotidiano em casa. Comecei a observar que tinha mais inclinação à composição e tocava violão, porém, dava as minhas músicas às outras pessoas para as interpretar, infelizmente, notei que as pessoas não as interpretavam correctamente. No entanto, decidi ser eu mesmo a interpretar as minhas canções, e começo a ser uma referência em alguns festivais.

 

Em que momento ocorreu o seu regresso ao país?

Depois da minha formação em Pedagogia na especialidade musical, regresso ao país em 1993. Quando cheguei, observei que havia um défice de professores no país e, a convite do Humberto Baptista, comecei a dar aulas em Cabinda. Analisei o que se fazia no mercado musical angolano e decidi dar continuidade aos meus projectos musicais. Passei por alguns apertos e desprezos. Levei ao pé da letra o que aprendi sobre algumas ideologias políticas, o que me levou a ser, de certa forma, agressivo nas minhas abordagens como forma de autodefesa e à procura da minha autodefinição.

 E como se tornou famoso a nível musical?

Foi num programa de política cultural do então governador José Amaro Tati, em que permitia que todos os anos tinha que sair alguém para gravar um disco. Em 1998, gravei o disco "Livres Serás” e dei-me a conhecer ao país. Até hoje, esse disco tem-me dado de comer (risos). Tenho apenas cinco álbuns publicados e a maior parte das minhas composições não estão editadas.

 Previu o sucesso do primeiro disco, "Livre Serás”?

É engraçado! Existem pessoas que pensam que tenho apenas um único disco no mercado. O primeiro disco, "Livre Serás”, abriu-me às portas, mas o segundo, "Desejo Malandro”, foi o que mais sucesso fez porque cheguei a ter nove músicas e terminei o Top dos Mais Queridos, em 2002, com sete canções. Estava a competir praticamente comigo mesmo. À época, tinha como concorrentes o grupo N’Sex Love e o cantor Maya Cool. Isso não é obra do acaso. Chegámos numa fase em que precisamos saber que, quem faz os artistas são as pessoas que gostam do nosso trabalho e pagam para estar nos eventos. O artista tem a responsabilidade de trazer alegria e conforto ao público. A permanência no mercado é que dita a carreira de um artista, e temos prova disso.

 Como gostaria de ser lembrado …?

Gostaria de ser lembrado pelo conjunto das minhas obras, sobretudo, apenas como um bom cidadão.

 Euclides da Lomba se revê em ideologias de algumas figuras políticas. Porquê?

Gosto de pessoas que têm ideologias bem marcadas, como Agostinho Neto, Nelson Mandela, Amílcar Cabral, Samora Machel, Ché Guevara. Neto era o meu preferido porque tinha discursos poéticos, introspectivos. Era alguém sufocado, que precisava idealizar as suas acções. Infelizmente, hoje, tenho dificuldades em gravar um disco, pois, precisamos de apoios.

 A falta de apoios continua a ser um problema recorrente no país?

O país precisa rever e continuar a melhorar as políticas de apoio à classe artística, de maneira a torná-las mais atractivas. Não há no mercado a circulação dos bens e consumo de produtos culturais. Precisamos esclarecer melhor a questão do mecenato que é a disponibilidade de um empresário em apostar na área da cultura, por via das compensações fiscais, embora não se note visibilidade, porque a maioria dos empresários desconhece que a opção de patrocinador um artista estará sempre a sua marca relacionada ao produto artístico.

 Como analisa a relação entre os músicos e os patrocinadores?

É uma situação que muito me entristece... Não é possível um músico,por exemplo, com a carreira prestigiada de Eduardo Paim, não ter um patrocinador oficial. Queremos tentar descobrir coisas novas quando já existem, no seio da classe artística angolana. Não devemos sentir vergonha de criarmos os nossos ídolos, trazê-los para a academia e serem estudados, publicar livros sobre os mesmos. O que seria o Brasil, e os Estados Unidos sem a música? Às vezes, sinto que as pessoas não têm muita noção das coisas que falamos, ou têm, mas ignoram-nas. O que dá um pouco de dinheiro aos artistas são os concertos e não a venda de discos. Temos um mercado que ainda não nos beneficia, pelo contrário, nos prejudica.

 Como músico, consegue viver apenas da arte?

Sempre fui sustentado pela música ao longo desses anos de carreira. Pode parecer um contra-senso, mas não é o salário de director nacional que paga as despesas da minha família. A casa e tudo que até agora consegui foi pela música. Se não fosse a minha arte – música - estaria a dançar merengue na areia…”

 Como se explica a sua simplicidade de encarar o quotidiano?

Fomos formatados pelo sistema comunista. Essa é a educação do povo cubano. Podes ser o que quiseres, mas precisas ser humanista, por isso, são povos muito solidários. Um homem quando não está formatado para ser humanista, mais facilmente está condenado ao fracasso. Isso também acontece nas nossas instituições públicas, porque não estamos educados e orientados para sermos humanos. Às vezes, confundimos tudo pelo facto de estarmos numa posição vantajosa, comparativamente ao nosso próximo.

 Por que razão prefere, sempre, valorizar a consideração que as pessoas têm pelo seu trabalho?

O dinheiro é importante, mas nunca deixei de receber "cachés” abaixo daquilo que cobro. Recentemente, fui cantar no aniversário da anciã Madalena Dinis, de 92, cujos filhos queriam fazer um agrado à sua mãe. Uma senhora daquela idade gosta do meu trabalho e isso não há dinheiro que se pague. É desta forma que precisamos fazer alguns acertos para merecermos respeito dos nossos admiradores. Devemos valorizar o esforço que as outras pessoas mostram por nós, sobretudo, em retribuição a essas pessoas. Estamos a falar novamente da humanização…

 Alguma vez pensou em desistir da música?

Penso todos os dias em desistir, mas não o faço porque tenho uma família para sustentar, e pelo facto de ser a música, mesmo com todas as dificuldades, a minha principal fonte de rendimento. Quem sustenta o director nacional da Cultura é o músico Euclides da Lomba. Tenho uma carreira consolidada, mas foi com muito sacrifício.

Precisamos profissionalizar, preservar e conservar o que está a ser feito. Por outra, temos que ter uma circulação de bens e serviços culturais com eficácia, para termos um mercado de consumo. Para construirmos uma carreira com sucesso precisamos ir para a academia e estar comprometido com as coisas. Deveríamos criar um Fundo de Apoio de Desenvolvimento Artístico, onde cada um pudesse candidatar-se mediante apresentação de projecto.

Internamente, oiço e observo as tendências do mercado discográfico, pois, a minha formação não me permite olhar para as coisas de forma isolada. Temos bons cantores, mas a música como arte precisa de ser também estudada para evitar o amadorismo, e o Estado tem um papel importante na criação de políticas mais inclusivas. Há um investimento que tem sido feito pelo Executivo no sector das artes, para o seu profissionalismo, mas ainda é muito pouco para satisfazer as necessidades do mercado.

O que representa Eduardo Paim para si?

Hoje, sou o que sou pelo Eduardo Paim. Considero-o como uma escola por tudo já deu e continua a emprestar à música angolana. Foi ele quem fez os corredores para gravar o meu primeiro disco na editora Vidisco, em Portugal. Não tenho outra forma de agradecer e sempre que tiver a possibilidade de o agradecer o farei pelo que representa no início da minha carreira.

Euclides Barros  da Lomba

Nasceu a 18 de Fevereiro de 1966, em Cabinda, e começou a carreira musical como trovador, em 1984, em Cuba, país onde fez a formação académica em Música. Cresceu num ambiente artístico-cultural onde coexistiam os hábitos angolanos, congoleses e cabo-verdianos.
Foi secretário provincial da Cultura de Cabinda, estreou-se no mercado com o álbum "Livre Serás”. Foi adido Cultural da Embaixada de Angola na Itália.



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