Cultura

“Eu frequentei o Barracão”

Era uma escolinha de artes e ofícios que havia nas barrocas do Cazuno na Cidade Alta em Luanda. Chamava-se “Escola de Experimentação Técnica e Artística”. Era uma construção simples, telhados inclinados, parecia um desenho infantil duma fábrica mas sem a chaminé. Paredes chapiscadas de cimento pintada de branco.

23/11/2022  Última atualização 08H14
O reencontro em 2015 entre a professora Cecília Martins e antigos alunos © Fotografia por: DR

Estávamos em 1976, tinha 9 anos. Os professores eram muito jovens, exceptuando a professora Teresa Gama (já falecida), que iniciou o projecto e a cineasta Virgínia Silva. O primeiro grupo de "juventude” que nos formou foi  Cecília-Cilita, Garção, Gumbe, Xaxado, Van, Tirso, António Salu, Matondo, Tomás Vista e Lazulano. A maior parte dos alunos era do Lar dos Pioneiros de Guerra, 120 de manhã e 120 de tarde. Aprendíamos sem pagar nada, tecelagem, desenho, escultura, cerâmica, gravura, até cinema infantil. Fizemos uma série televisiva "Os meninos à volta da fogueira” inspirada no teatro de marionetas, passou na TPA, ainda "Popular”. No intervalo jogávamos à bola no meio das barrocas entre outras diabruras.

Falar da história das artes plásticas de Angola e não falar do Barracão é como falar de futebol sem falar da bola. Foi no Barracão onde nasceram praticamente todos os projectos das artes plásticas que culminaram com a fundação da UNAP. Os quadros do Barracão estavam no Departamento de Arte do Ministério da Cultura, nos Centros de Cultura Popular, de Caxito, do Cacuaco e do Sumbe então Ngunza. De lá saíam os artistas para as exposições e feiras internacionais, os artistas que pintaram todos os murais de Luanda incluindo o mais famoso, o do Hospital Militar que resiste até hoje.

 

Luandino de Carvalho*

* Adido Cultural em Lisboa

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