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Etiópia realiza eleições num clima de incerteza

A Etiópia realiza, amanhã, as sextas eleições gerais num clima de incerteza e receio de uma nova espiral de violência étnica e onde cresce a contestação às políticas do Primeiro-Ministro, Abiy Ahmed.

20/06/2021  Última atualização 02H00
As eleições de amanhã decorrem apenas em um quinto do território devido à insegurança © Fotografia por: DR
Na divisão da Etiópia num Estado federal étnico em 1995, liderado então pela Frente de Libertação do Povo Tigray (TPLF), apesar das constantes queixas de exclusão dos outros grupos, encontra-se na origem das actuais tensões e desconfianças tornadas mais visíveis pelas reformas democráticas do Primeiro-Ministro, Abiy Ahmed, de etnia Oromo, e no poder desde Abril de 2018.

As promessas de uma Etiópia unida e centralizada sob a liderança do Partido da Prosperidade (PP) com o qual pôs fim à Frente Popular Democrática Revolucionária Etíope multiétnica - controlada durante 27 anos pela TPLF - não se concretizaram.

Em pouco mais de três anos, o líder, de 44 anos, amnistiou milhares de presos políticos e permitiu o regresso dos partidos de oposição exilados - entre outras medidas - mas as suas políticas também levaram a um aumento exponencial de pessoas deslocadas, a uma guerra civil na região de Tigray, onde depôs a TPLF, e a novos massacres interétnicos.

"Abiy abriu espaço político, mas não implementou o Estado de Direito. Nunca teve uma conversa séria com a oposição”, recorda o jornalista etíope Tsedale Lemma, fundador do jornal "Addis Standard”.

"Fez mais para embelezar a capital Addis Abeba e construir parques públicos do que para resolver alguns dos problemas mais prementes, como a segurança”, acrescenta Tsedale, crítico em relação à guerra desencadeada pelo Governo etíope em Tigray.

O facto de estas eleições não ocorrerem em todo o país, juntamente com o boicote anunciado pelos partidos nacionalistas Oromo, cujos líderes permanecem na prisão, pode desencadear uma nova crise de violência num país de cerca de 110 milhões de pessoas e mais de 80 grupos étnicos.

"O facto de tanto o Congresso Federalista Oromo (OFC) como a Frente de Libertação Oromo (OLF) não estarem a concorrer a estas eleições devido a queixas de repressão governamental canalizou alguma dessa energia da oposição para uma insurreição armada em Oromia”, adiantou William Davison, um analista do International Crisis Group (ICG) para a Etiópia.

Desde o final do ano, o Governo etíope tem culpado o Exército de Libertação Oromo (OLA) - uma cisão da OLF e designado como organização terrorista em Maio - pelo massacre de cerca de 300 civis do grupo Amhara, principalmente na região de Benishangul-Gumuz.

Centenas de milhares de amharas manifestaram-se em Abril nas ruas de várias cidades e vilas da região com o mesmo nome para protestar  os ataques contra os membros desse grupo étnico.
As tensões foram exacerbadas nos últimos sete meses pelo conflito do Tigray, no qual Abiy tem confiado militarmente tanto nas milícias amhara, que pretendem anexar Tigray Ocidental como nas tropas da vizinha Eritreia, ambas acusadas de possíveis crimes de guerra pelas Nações Unidas.
"O grau de violência vivido em Tigray torna difícil imaginar uma reconciliação entre a TPLF e o PP no poder, entre as autoridades de Tigray e os líderes federais ou entre as populações de Tigray e da vizinha Amhara”, conclui o perito.

"Embora felizmente ainda haja um longo caminho a percorrer antes de podermos falar de uma verdadeira desintegração da Etiópia”, um país cuja Constituição reconhece não só o direito à autodeterminação, mas também o direito à secessão das suas dez regiões, "há razões para grande preocupação com o futuro da Etiópia”, prevê Davison.


Acusações da UE

Enquanto isso, Addis Abeba rejeitou as acusações do enviado da União Europeia a este país, que afirmou que líderes etíopes comunicaram a intenção de fazer uma "limpeza étnica” na região de Tigray, onde o Governo mantém uma ofensiva armada desde Novembro.

"Quando encontrei os líderes etíopes em Fevereiro, usaram esse tipo de linguagem, que iam destruir as pessoas de Tigray, que iam aniquilá-los por cem anos”, disse o enviado e ministro dos Negócios Estrangeiros da Finlândia, Pekka Haavisto, num briefing do Parlamento Europeu, na terça-feira.

O Governo etíope, que sempre considerou a pressão internacional a favor da cessação das hostilidades como uma interferência na sua soberania, também acusou Haavisto de querer "minar o Executivo” e denunciou que as suas palavras têm um "tom colonial”.

A guerra em Tigray deflagrou a 4 de Novembro, depois de o Governo central ter atacado a FPLT em retaliação a um suposto ataque das forças de Tigray a uma base do Exército federal.
Desde então, milhares de pessoas morreram, cerca de dois milhões foram deslocados internamente na região e pelo menos 75 mil etíopes fugiram para o vizinho Sudão, um país que faz fronteira com Tigray, segundo dados oficiais.


A Etiópia realiza as sextas eleições gerais em 21 de junho.

O Primeiro-Ministro etíope, Abiy Ahmed, disse, na quarta-feira, último dia de campanha para as eleições legislativas e regionais, que espera eleições pacíficas no país, apesar da guerra e conflitos que atingem o país.
As eleições, apresentadas como nacionais, não serão realizadas em quase um quinto dos 547 círculos eleitorais do país.

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