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Etiópia anuncia expulsão de sete funcionários da ONU

O Ministério dos Negócios Estrangeiros (MNE) da Etiópia anunciou, quinta-feira, que vai expulsar do território sete responsáveis de agências das Nações Unidas, acusando-os de ingerência nos assuntos internos, nomeadamente sobre o Tigray, tendo os Estados Unidos condenado esta decisão.

02/10/2021  Última atualização 06H00
Director humanitário das Nações Unidas teceu duras críticas ao Governo de Addis Abeba © Fotografia por: DR
"O Ministério dos Negócios Estrangeiros etíope, em cartas emitidas, declarou sete funcionários que trabalham para várias ONG internacionais na Etiópia 'persona non grata' por interferirem nos assuntos internos do país”, lê-se na página do Facebook do MNE, citada pela AFP.

"Em virtude das cartas dirigidas a cada um dos sete indivíduos abaixo indicados, todos eles devem abandonar o território da Etiópia nas próximas 72 horas”, acrescentou ainda o Governo etíope, apresentando os nomes de sete funcionários de agências da ONU, incluindo o Fundo das Nações Unidas para a Infância (UNICEF) e o Gabinete de Coordenação dos Assuntos Humanitários da ONU (OCHA).

A guerra dura há mais de dez meses na região nortenha de Tigray, para onde o Primeiro-Ministro, Abiy Ahmed, enviou o Exército para derrubar as autoridades regionais da Frente Popular de Libertação do Tigray (TPLF), que acusa de orquestrar ataques aos campos militares federais.

"Mancha na consciência”
O comunicado do MNE etíope surge no dia seguinte à divulgação de uma entrevista do chefe humanitário das Nações Unidas à agência noticiosa Associated Press (AP), na qual classificou a crise na Etiópia, onde crianças e adultos morrem à fome na região de Tigray devido a um bloqueio governamental de alimentos, material médico e combustível, como uma "mancha” na consciência.

Numa entrevista à AP, Martin Griffiths fez uma das mais severas críticas até agora formuladas sobre a pior crise mundial da fome numa década, após quase um ano de guerra.Griffiths descreveu um cenário de privação em Tigray, onde a taxa de desnutrição é agora superior a 22 por cento - "aproximadamente a mesma que na Somália em 2011, no início da fome” naquele país, que matou mais de um quarto de milhão de pessoas.

A guerra na Etiópia começou em Novembro de 2020, perto da época da colheita em Tigray e a ONU disse que pelo menos metade da próxima colheita irá falhar. Testemunhas disseram que as forças etíopes e aliadas destruíram ou saquearam as fontes de alimentos.


A crise da Etiópia levou a ONU, os Estados Unidos e outros a instar as partes beligerantes a parar os combates e a tomar medidas para a paz, mas Griffiths advertiu que "a guerra não parece estar a terminar tão cedo”.

Pelo contrário, nas últimas semanas espalhou-se pela vizinha região de Amhara. Griffiths disse que as linhas de batalha activas estão a fazer com que seja um desafio conseguir ajuda para centenas de milhares de pessoas a mais.

A Etiópia vai assistir à formação de um novo Governo na próxima semana com mais cinco anos de mandato para o Primeiro-Ministro. Griffiths, que disse ter falado pela última vez com o Chefe do Executivo, Abiy Ahmed, há três ou quatro semanas, manifestou a esperança de uma mudança de direcção.

Sanções de Washington
Os Estados Unidos condenaram "veementemente” a ordem de expulsão dos sete responsáveis de agências da ONU, acusados de interferência nos assuntos internos do país, indicou a porta-voz da Casa Branca, Jen Psaki.
Washington "não hesitará” em "usar qualquer ferramenta à sua disposição”, acrescentou, lembrando que as autoridades norte-americanas têm a possibilidade de aplicar sanções financeiras aos protagonistas do conflito que assola o Norte da Etiópia.

Por sua vez a ONU, depois da anunciada decisão do Governo etíope, reafirmou, em comunicado, que mulheres grávidas e lactantes no Estado etíope de Tigray sofrem de subnutrição "sem precedentes” após 10 meses de guerra.


O Escritório das Nações Unidas para a Coordenação de Assuntos Humanitários (OCHA) descreveu ainda num relatório publicado na Internet o aumento "alarmante” da desnutrição entre as crianças, à medida que o espectro da fome crescia. "De mais de 15 mil mulheres grávidas e lactantes monitorizadas durante o período de estudo, mais de 12 mil, ou cerca de 79 por cento, foram diagnosticadas com desnutrição grave”, concluiu o OCHA.

O Secretário-Geral da ONU, António Guterres,  manifestou-se "chocado” e fontes diplomáticas junto das Nações Unidas informaram que uma reunião de emergência do Conselho de Segurança da ONU seria realizada à porta fechada, hoje, em Nova Iorque. "Todas as operações humanitárias da ONU são guiadas pelos princípios fundamentais da humanidade, imparcialidade, neutralidade e independência”, salientou Guterres.  
Eleições podem confirmar vitória do partido de Abiy Ahmed

A Etiópia realizou, quinta-feira, eleições gerais sem incidentes, em locais que não puderam ir a votos em 21 de Junho, devido a irregularidades e problemas de segurança, nomeadamente pela guerra interna no país.

A votação em todos os círculos eleitorais dos três Estados regionais decorreu sem problemas, à excepção de uma breve interrupção numa mesa de voto na região de Somali”, disse a presidente da Comissão Nacional de Eleições da Etiópia (NEBE), Birtukan Midekessa, numa conferência de imprensa em Addis Abeba.

A Frente de Libertação Nacional de Ogaden (ONLF), o principal partido da oposição na região de Somali, retirou-se há semanas da corrida eleitoral na região e em Harari, declarando que existiam irregularidades e assédio aos seus membros.

O Partido da Prosperidade (PP), liderado pelo Primeiro-Ministro etíope, Abiy Ahmed, foi declarado vencedor das eleições de 21 de Junho pela NEBE em 10 de Julho.


O PP ganhou 410 dos 436 círculos eleitorais que representavam o número de assentos da assembleia legislativa que foram às urnas. Esta vitória assegura que, independentemente dos resultados das eleições de quinta feira, Abiy renova o seu mandato por mais cinco anos.
Espera se que o Primeiro-Ministro anuncie um novo Governo na próxima segunda-feira. As eleições, que foram consideradas as mais democráticas da história da Etiópia, foram o primeiro teste nas sondagens para Abiy Ahmed, vencedor do Prémio Nobel da Paz de 2019, desde que chegou ao poder em 2018, com um programa muito reformista. Mais de 40 partidos apresentaram candidatos alternativos ao PP, mas este era apontado, desde início, como vencedor face a uma oposição fragmentada.










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