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Estudo: Só os pobres reduzem emissões de carbono

A redução de emissões de gases com efeito de estufa (GEE) é feita essencialmente pelos europeus mais pobres, indica um estudo. O estudo, “Confrontar a Desigualdade de Carbono”, é da responsabilidade da Oxfam, uma organização internacional presente em mais de 90 países, que procura soluções para a pobreza e a desigualdade.

14/12/2020  Última atualização 11H50
Emissões anuais de GEE cresceram quase 60%
A organiza-se baseia-se num trabalho de investigação do Stockholm Environment Institute sobre as emissões associadas ao consumo de grupos com diferentes rendimentos, entre 1990 e 2015. No documento, a Oxfam começa por afirmar que, apesar das fortes quedas nas emissões de carbono este ano, devido à pandemia de Covid-19, "a crise climática continuou a crescer” e novas pesquisas "mostram como a extrema desigualdade de carbono nas últimas décadas trouxe o mundo à beira do colapso climático”.

E estima que, no mundo, num período (1990-2015) em que as emissões anuais de GEE cresceram quase 60%, e em que as emissões acumuladas duplicaram, os 10% mais ricos do mundo (630 milhões de pessoas) foram responsáveis por 52% das emissões de carbono e os 50% mais pobres (3,1 mil milhões) apenas por 07%. Dos resultados, destaca-se que na União Europeia (UE) os 10% dos mais ricos têm aumentado as emissões de GEE, pelo que as reduções de GEE são resultado dos esforços dos cidadãos com rendimentos médios e baixos.

No período em análise, segundo o estudo, os 10% dos europeus mais ricos foram responsáveis por 27% das emissões de GEE, o mesmo que toda a população mais pobre, enquanto a classe média produziu 46% das emissões. Por outro lado, os europeus mais pobres reduziram as emissões em 24% e os europeus com rendimentos intermédios reduziram em 13%. Os 10% mais ricos não só não reduziram como ainda as aumentaram, em 03%. 

E uma subdivisão entre a classe rica indica que os 01% muito ricos aumentaram as emissões de GEE em 05%. O Acordo de Paris sobre a redução dos GEE, assinado há cinco anos, indica a necessidade de manter o aquecimento global abaixo de 1,5 graus Celsius (1,5ºC), pelo que, nas contas da Oxfam, para que tal aconteça, os 10% dos europeus mais ricos terão de reduzir 10 vezes a pegada carbónica e os 01% muito ricos terão de diminuir 30 vezes. 

Em contrapartida, os 50% mais pobres só terão de reduzir para metade. E segundo as mesmas contas, há ainda uma grande desigualdade em termos de emissões de GEE dentro dos estados-membros da UE e entre eles. Os 10% mais ricos da Alemanha, Itália, França e Espanha (quase 26 milhões de pessoas), exemplifica-se, produzem a mesma quantidade de emissões que a população de 16 países da UE, aproximadamente 85 milhões de pessoas. Para a investigação, foi considerado para os muito ricos um rendimento superior a 89.000 euros por ano (em 2015), os ricos com mais de 41.000 euros ano, os de rendimento médio entre 20 e 41.000 euros, e os pobres até 20.000 euros.

Acordo para redução em 55 por cento até 2030

Os líderes europeus, reunidos em Bruxelas, chegaram a um acordo ao início da manhã de sexta-feira, para reduzir as emissões de dióxido de carbono (CO2) em 55% até 2030, em relação aos níveis de 1990. O Primeiro-Ministro António Costa fala num acordo "histórico". O acordo foi anunciado pelo presidente do Conselho Europeu, Charles Michel, após um longo debate que se prolongou durante a madrugada.

"A Europa é líder na luta contra as alterações climáticas. Decidimos reduzir as nossas emissões de gases com efeito de estufa pelo menos 55% até 2030", escreveu na rede social Twitter Charles Michel. O Conselho Europeu já se tinha comprometido, em Dezembro de 2019, em atingir a neutralidade climática até 2050, tendo a Polónia - com mais de 75% da sua economia e cerca de 80 mil mineiros dependentes da indústria do carvão - recusado a assinar a declaração, na altura.

Os líderes dos 27 mantinham-se, no entanto, reticentes em aceitar a nova proposta da Comissão de reduzir as emissões em 55% até 2030, substituindo a meta anteriormente estipulada na lei Europeia do Clima, que previa um corte de 40% das emissões. Já o Parlamento Europeu (PE) aumentou as ambições da Comissão, pedindo um corte de 60% das emissões em 2030 na sessão plenária de Outubro, tendo os eurodeputados referido que é a única maneira de a UE "estar em linha com a ciência".

Acordo "histórico"

O Primeiro-Ministro de Portugal, António Costa, qualificou o acordo de re-dução em 55% das emissões de gases com efeito de estufa até 2030 de "histórico", sublinhando ser necessário fazer agora o "maior esforço", para reverter a tendência de aquecimento global. "Se queremos salvar o planeta, se temos bem consciência da emergên-cia climática, era mesmo agora que tínhamos de to-mar esta decisão e o maior esforço de combate às alterações climáticas tem de incidir precisamente nesta primeira década", sublinhou o Primeiro-Ministro português, em declarações aos jornalistas após o Conselho Europeu.

Costa disse que o compromisso alcançado acontece num "momento muito importante", a poucos dias do 5.º aniversário do Acordo de Paris e porque a futura administração americana já disse que regressará ao acordo no dia em que entrar em funções. "Estamos a poucos dias de celebrar o 5.º aniversário do Acordo de Paris e é muito importante que, neste momento em que a nova administração americana já disse que o primeiro gesto que tomará no primeiro dia em que exercer funções é regressar ao Acordo de Paris, que possamos celebrar o 5.º aniversário do acordo de Paris com a UE, no conjunto dos seus 27 Estados-membros, a assumirem este compromisso", frisou António Costa.

O Primeiro-Ministro português sublinhou ainda que as negociações para um acordo sobre as metas prolongaram-se pela madrugada porque "os pontos de partida" dos diferentes países são diferentes, estando Portugal no plantão da frente. "O ponto de partida dos países para a adaptação climática é diferente, os seus recursos naturais são diferentes, e a sua história é diferente. Portugal (...) é o país que está em melhores condições para alcançar estas metas, porque foi também dos países que mais cedo começou a in-vestir nas energias renováveis", referiu.

António Costa destacou ainda que o combate às alterações climáticas é "um dos importantes motores" para a recuperação económica da Europa, frisan-do que não se trata de um "constrangimento". "Não é um constrangimento, é uma oportunidade. E é uma oportunidade para a qual nos temos de mobilizar, e que é um dos motores, a par da transição digital, sobre o qual deve assentar a recuperação económica da Europa", frisou António Costa.

Pandemia faz baixar emissões

A pandemia confinou populações, reduziu viagens e quase paralisou a economia, levando o planeta a diminuir emissões de dióxido de carbono (CO2) em 7%, a maior queda de sempre, segundo dados preliminares de um grupo de cientistas. O Projecto Carbono Global, formado por dezenas de cientistas internacionais, calculou que o mundo terá lançado 34 mil milhões de toneladas de CO2 para a atmosfera em 2020, contra 36,4 mil milhões de toneladas em 2019, segundo um estudo publicado quinta-feira na revista Earth System Science Data.

Segundo os cientistas, a histórica redução deve-se sobretudo ao facto de as pessoas terem ficado em casa, viajando menos de carro e de avião. O transporte terrestre re-presenta cerca de um quinto das emissões de dióxido de carbono, provenientes da combustão de combustíveis fósseis, principais responsáveis pelo aquecimento global que dá origem a alterações climáticas.

"Claro que o confinamento não é de maneira nenhuma a forma de combater as alterações climáticas" Os cientistas alertaram, no entanto, que as emissões de gases poluentes voltarão a aumentar após o fim da pandemia. "Claro que o confinamento não é de maneira nenhuma a forma de combater as alterações climáticas", disse Corinne LeQuere, cientista climática da Universidade de East Anglia e co-autora do estudo.

O grupo de cientistas tinha previsto quedas nas emissões de 4% a 7% este ano, dependendo da progressão da pandemia de Covid-19. Uma segunda vaga do novo coronavírus e reduções contínuas nas viagens levaram a diminuição a atingir os 7%, explicou LeQuere. As emissões diminuíram 12% nos Estados Unidos e 11% na Europa, mas apenas 1,7% na China, que iniciou mais cedo o confinamento e não registou segunda vaga, com a indústria a ser igualmente menos afetada que noutros países.

Apesar da redução sem precedentes das emissões de CO2 em 2020, o mundo colocou em média 1075 toneladas de dióxido de carbono na atmosfera a em cada segundo.Os cientistas esperam que o mundo tenha aprendido algumas lições com a pandemia. "À medida que as pessoas se habituam a fazer teletrabalho um par de dias por se-mana ou se apercebem que não precisam de fazer tantas viagens de negócios, poderemos ver diminuir as emissões futuras relacionadas com o comportamento", apontou o diretor do Stanford Woods Institute for the Environment, Chris Field, citado pela agência de notícias Associated Press (AP).

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