Reportagem

Estudo revela um elevado grau de ameaça ambiental

Silvino Fortunato

A área do Pingano está localizada na província do Uíge, abarcando concretamente os municípios de Ambuila, Uíge e Kitexi, tendo uma extensão territorial de 43.700 Km2. É uma cadeia montanhosa de terreno acidentado com fortes desníveis, escarpas, sendo assimétrica, com uma vertente mais inclinada e a outra menos acentuada.

20/02/2022  Última atualização 09H20
Serra do Pingano © Fotografia por: DR
Segundo o estudo elaborado pelo professor de Geografia Tiago Muana, a Serra do Pingano distingue-se de um maciço por possuir montanhas singulares em vez de agrupadas. A serra é um subconjunto de montanhas que está dentro de outro conjunto maior e mais extenso, ao qual se dá o nome de cordilheira.  Tiago João Muana revela que a sensibilidade ambiental da Serra do Pingano foi obtida por via de um cruzamento de dados e sobreposta com as informações constatadas no terreno.

 

Ameaça à biodiversidade

Os níveis de ameaça ambiental relacionados com a presença das populações e fazendas estão na base da perda da biodiversidade nesta região. "Na serra do Pingano a população tem a agricultura e a caça como as suas principais actividades”, esclarece o académico.

O aumento das zonas de produção ameaça a cobertura do solo contra os factores ambientais como chuva, vento e insolação, assim como está a provocar a erosão hídrica e superficial, estimulando já certa desertificação, realça o estudioso, acrescentando estarem também a diminuir os recursos hídricos. Notou haver igualmente a diminuição das chuvas, o aumento da evaporação da água e o assoreamento dos rios lá existentes. 

O estudo demonstra que a serra contém uma área cultivada a rondar os 23.739 hectares, com um total de produção anual de 148.904,48 toneladas de diversos produtos. A actividade agrícola é exercida por 33 associações de camponeses com 245 associados, duas cooperativas e 20 pequenos agricultores. 

 

Devastação florestal

Muitas das fazendas dependem do consumo de madeira em tora. Os dados mais recentes, recolhidos do Instituto de Desenvolvimento Florestal, segundo o estudo, "apontam para um aumento significativo entre 2004 e 2018. Em 2004, o consumo de toras foi de 14,5 milhões de metros cúbicos; em 2018, foi de 24,2 milhões de metros cúbicos”.  

A devastação da área florestal da cordilheira teve como maior responsável a expansão de actividades agrícolas, de acordo com os dados obtidos em campo, que apontam para cerca de 236.600 km² de áreas desflorestadas para a implantação de fazendas. O estudo revela que os meses de Julho e Agosto são os que têm o maior índice de registo de incidência de queimadas na serra do Pingano e aponta como consequência a extinção de espécies florísticas ainda não catalogadas. "Sob o ponto de vista agronómico, as queimadas eliminam nutrientes essenciais às plantas, como o nitrogénio, o potássio e o fósforo”. 

Das pessoas entrevistadas, 80 por cento afirmaram que realizam as queimadas somente em uma pequena parcela, cerca de 20 por cento afirmaram não praticarem essa actividade. Segundo constatações de Tiago Muana, fazer queima é uma prática comum dos agricultores no período que antecede o preparo do solo para a lavoura. A queima é realizada durante o dia, aumentando a sensação térmica do ar. 

 

Preocupação com a caça furtiva

Tiago Muana alerta que são preocupantes os níveis da caça furtiva, que se centra em especial em três grupos de mamíferos (ungulados, primatas e carnívoros), que, segundo o especialista, têm atingido os mais importantes ecossistemas da serra do Pingano. O investigador teme que a actividade furtiva possa provocar o desaparecimento de espécies desconhecidas do bioma Caatinga.  "Embora não existam levantamentos actualizados, há sinais dramáticos das consequências desta prática na redução das populações de animais. Em alguns lugares da área de estudo é notória a falta de reservas de mamíferos de grande, médio e pequeno porte. Tornam-se cada vez mais raros em determinadas regiões”. 

Como o estudioso faz saber, a pobreza cada vez maior nas comunidades e o rápido crescimento demográfico nas cidades ao longo da província estão também a contribuir directamente para a destruição da biodiversidade na cordilheira antes coberta totalmente por uma floresta densa.  A qualidade ambiental de uma área, de acordo com o especialista, depende de uma série de variáveis condicionantes, dentre elas a vegetação, o solo, a declividade, a pluviosidade, o uso do solo e a litologia. Estes são factores que, dependendo da sua situação actual, podem influenciar mais ou menos na delicadeza do ecossistema. 

As desigualdades sociais, na óptica de Tiago Muana, reflectem-se na forma como uma larga maioria vive em condição de pobreza e na forma não equitativa como os recursos estão a ser explorados.

 

"Exploração madeireira ilegal é significativa”

Apesar do reforço das medidas de combate aos processos de desmatamento, a ilegalidade no sector ainda é significativa, salienta Tiago Muana, precisando que esta razão, aliada ao facto de que tal sector é extremamente dinâmico e difuso, torna difícil o monitoramento e o acesso a dados concretos relacionados com as actividades de exploração madeireira. 

A província do Uíge conta com 44 empresas de exploração de madeira, das quais oito são de grande dimensão. O estudo aponta que a província ocupa um espaço importante no segmento da madeira, sendo desde 2012 a maior produtora de madeira a nível do país, ao contribuir anualmente com cerca de 52 por cento da produção. A madeira no Uíge é explorada nos municípios de Ambuíla, Milunga, Quimbele, Songo e Bembe.  

Comentários

Seja o primeiro a comentar esta notícia!

Comente

Faça login para introduzir o seu comentário.

Login

Reportagem