Especial

Estradas de Lucira têm histórias de arrepiar

Jacques dos Santos

Escritor

Fustigado ao longo da viagem pelos raios dardejados pelo sol abrasador de fim de Abril, o nosso Toyota avança ladeira acima com o motor a resmungar.

11/05/2021  Última atualização 09H30
Após atingir o cume, voltamos a descer uma encosta íngreme no lado oposto da serra. Os quatro pneus do veículo todo-terreno vão calcando o piso de pedra e areia, projectando lascas e pedras para as bermas, estamos num sobe-e-desce há duas horas. Rodamos na Estrada Nacional 100, de Benguela para o Namibe, num troço bastante crítico da também chamada via da Lucira. Nas lonjuras, coada pela distância, a paisagem é deslumbrante. Do lado direito, onde ficam as pescarias da Equimina e do Meva, não muito longe, está  o mar. Do lado esquerdo, estendem-se os maciços rochosos da grande montanha "Munda-yo-Vambo” rodeada de nuvens muito brancas como flocos de algodão, debaixo do céu pintado de um azul intenso. Com a tracção as quatro rodas engrenada, vamos avançando no terreno. Notamos sinais de que havia homens aqui a trabalhar, num passado mais ou menos recente.

À medida que a nossa viatura vai devorando os quilómetros, encontramos inúmeras pontes de betão que ficaram por concluir, bem como vestígios das fortes explosões com cargas da dinamite utilizada para diminuir a pendência do traçado na travessia das zonas montanhosas. Nas partes laterais dos tabuleiros das pontes abandonadas, os varões metálicos enferrujados apontam para o espaço vazio e são prova de que a erosão vai fazendo valer os seus efeitos negativos no material ferroso que ficou exposto aos elementos. O mar não se encontra longe daqui e a aragem salitrosa provoca uma degradação acentuada dos metais ferrosos que se utilizam na construção civil. Pensamos com os nossos botões que surgirão inevitavelmente acréscimos no valor da empreitada quando os trabalhos retomarem.O preço estabelecido no contrato entre o Estado angolano e o empreiteiro, quando se retomou a execução da obra, em Junho de 2020, ronda os 37 biliões de kwanzas. Os trabalhos deveriam estar concluídos em 24 meses, conforme se pode ler numa placa cravada na margem da estrada, nas imediações do desvio da Lucira, onde come-ça o asfalto até ao desvio do Namibe, onde liga a Estrada Nacional 236.No percurso até Lucira encontramos dois estaleiros industriais encerrados. Vimos igualmente, do lado esquerdo, uma máquina niveladora estacionada junto à estrutura de uma ponte também não concluída, isto depois do Catara, onde deixamos outra ponte na mesma situação. Pastores com as suas manadas resguardavam-se do sol debaixo do esqueleto da ponte, enquanto o gado bebia água em buracos abertos no areal do rio seco. Apenas nesse troço de 109 quilómetros contámos 16 pontes inacabadas. Dizem-nos que as obras paralisaram no final do ano passado por efeitos da pandemia da Covid-19. Os técnicos estrangeiros que estavam ao serviço da firma Planasul, Lda, a em-preiteira da obra, retiraram-se do local e não mais voltaram. Não foi mero acaso que ao longo de 4 horas e meia de viagem apenas cruzamos com três automóveis."Não é a primeira vez que isso acontece, até parece ser uma maldição que persegue a estrada da Lucira, as obras começam, mas nunca acabam”, disse-nos um camionista no Namibe. Conhecedores da história da referida via, não duvidámos das palavras do nosso interlocutor. Realmente a estrada da Lucira tem uma história com contornos de arrepiar, como as suas subidas e descidas.

Actualmente, parece que voltou a ser esquecida, mas bastaria recuar no tempo pouco mais de 20 anos, para ficarmos a conhecer um pouco da reputação que já gozou a estrada da Lucira. Naquela altura, a circulação de pessoas e bens entre províncias estava praticamente interrompida, por causa da guerra que grassava o país. A Lucira com as suas íngremes montanhas empedradas, detentoras de nomes sugestivos como "Tira-Chapéu”, "Tira-Bikini” e "Morro dos Macacos” ganhara fama nacional. Era a única via relativamente segura, para garantir a ligação de Benguela com a região Sul, até à fronteira com a Namíbia, para onde os co-merciantes angolanos se dirigiam, a fim de adquirirem pro-dutos para os seus estabelecimentos nas províncias do Huambo, Bié e Benguela.A presente viagem pela estrada da Lucira teve um sabor especial para o autor desta reportagem, pois naquela altura estava entre os poucos homens que milagrosamente conduziam camiões de mercadorias nesta via.

Provavelmente os mais novos não saibam, mas no período a que nos referimos, Angola encontrava-se a viver múltiplas amarguras em consequência do conflito armado. As pessoas simplesmente lutavam para sobreviver e entre a vida e a morte havia que es-colher. A estrada da Lucira tornou-se então a opção para as pessoas romperem o cerco das cidades e conseguirem mercadorias que escasseavam por todo o lado.Era a galgar os pedregulhos do Cimo até a Lucira que os camiões conseguiam chegar ao Lubango e daí baixar para Santa Clara, na fronteira com a Namíbia. A viagem, sobretudo a de regresso, era dura e carregada de peripécias. O calvário começava logo após o desvio da Lucira, mas quando se chegasse à montanha do "Tira-Chapéu” acontecia a parte mais dramática da viagem. Os homens do volante crispavam as mãos no volante e os seus ajudantes cerravam o cenho com os olhos bem abertos. Estes últimos eram muito sacrificados, pois, tinham de subir a pé, correndo ao lado das rodas gigantes dos camiões com grossos tacos feitos de madeira nas mãos, com os quais travavam a roda dos camiões se estes começassem a recuar. Muitos estavam carregados com 30 to-neladas de carga, que podia ser uma mistura de sacos de 50 quilos de arroz ou farinha de trigo, ou caixas de cerveja sul-africana, para além de bijuteria de toda a sorte.

Nos morros íngremes como o "Tira-Bikini”, a metade da mercadoria tinha de ser descarregada para o chão e o veículo subia para até ao topo onde o pessoal descarregava a outra metade. Depois o carro voltava a descer para pegar a parte deixada, com a qual voltava a subir até ao local onde descarregara na primeira escalada. Ali os homens estavam irremediavelmente extenuados e tinham de descansar. Acendiam-se fogueiras para confeccionar alimentos e afugentar as feras. Os que não tinham camas nas cabines dos camiões montavam tendas para dormirem. Uma operação desse tipo podia levar de dois a três dias, mas ninguém estava preocupado em contar o tempo. A meta era chegar a casa vivo e com o mínimo de prejuízo material.

As pessoas não tinham outro remédio senão suportar as agruras da estrada da Lucira, porque na tradicional via, na parte que sai de Catengue, atravessa Quilengues e sobe até a Cacula, aconteciam emboscadas frequentes e o accionamento de minas escondidas nos buracos da estrada. Esses engenhos traiçoeiros não escolhiam as suas vítimas. Ninguém se atrevia a passar por ali sem uma escolta militar.Na verdade, pela orla marginal de Benguela a Moçâmedes, nunca houve uma estrada digna desse nome. Até ao fim do domínio de Angola, as autoridades coloniais não construíram uma estrada asfaltada para a Lucira. Provavelmente por não vislumbrarem, na altura, qualquer importância económica e social para considerá-la como uma prioridade. Algumas pessoas idosas que encontramos no Dombe-Grande, após rolarmos 75 quilómetros de bom asfalto desde Benguela, falaram vagamente num projecto que existia para ligar as duas cidades através de uma marginal, mas nada de concreto foi realizado.

Após a independência desenvolveu-se pelo menos uma tentativa de tornar a via transitável. O que se observou no decurso dos anos 80/90 foi uma intervenção da antiga empresa de obras militares, a Aerovia, mas as obras seriam abandonadas devido às dificuldades do meio.Aqui a água escasseia, os raios do sol dardejam impiedosamente ao longo de toda a jornada. Sob um calor infernal, o que se encontra é apenas pedra atrás de pedra. Mas quando chegam as chuvas o cenário se inverte de maneira inacreditável. Os leitos sequiosos e abrasadores dos rios de areia repentinamente se tornam caudalosos, como o Cimo e o Catara, tornando-se capazes de engolir camiões inteiros nas suas entranhas onde repousam os insondáveis mistérios dos povos mucuísse e mucubal que habitam a região. Uma vez atolados, ninguém conseguia mais tirá-los de lá, mesmo quando o caudal do rio baixasse. Isso ninguém precisou contar-nos, porque fomos participantes de muitos episódios dramáticos que culminaram com a perda de veículos e muitos bens materiais nessas armadilhas da mãe-natureza.

Desde sempre, passar por aqui de carro significa lutar contra a natureza inóspita e agreste. Apenas o indómito espírito humano ousaria abrir uma estrada entre os contrafortes que iniciam logo após a travessia do leito arenoso do rio Cimo e posteriormente se estendem por 100 quilómetros, até se descer abruptamente para o desvio da Lucira. A partir daqui começa o asfalto da estrada até à bifurcação que conduz para Sul, em direcção a Moçâmedes, e a outra para Norte, rumo ao Lubango.

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