Entrevista

“Estivemos do lado certo da História”

Isaquiel Cori

Jornalista

Guilherme Ysenbout Mogas, aos 70 anos, tem uma vida tão preenchida de realizações e peripécias que dava para escrever uma bem nutrida autobiografia ou um livro de memórias. Inventor certificado, patentou, entre outras invenções, um “sistema de visão para cegos”, um “colchão ventilável”, um “sistema de segurança por infravermelhos ou ultra sons para viaturas especialmente automóveis contra acidentes” e, mais recentemente, um “dispositivo de combate a incêndios” na forma de um drone, que está em fase avançada de testes em Portugal para sua eventual adopção pelos Bombeiros.

15/05/2022  Última atualização 11H30
Guilherme Ysenbout Mogas © Fotografia por: Edições Novembro

Vai para a Rádio em que ano?

Em 1971. Quando surge o 25 de Abril de 1974 eu estava  na Rádio, na área técnica, e depois faço a transição para Angola Independente. 

 

Na Rádio Nacional muitos problemas técnicos foram resolvidos graças à sua inventiva?

Como disse, criámos um grupo de inventiva na RNA, que tinha essa capacidade de arranjar soluções. No grupo havia o Domingos das Neves, que comungava muitas das minhas ideias e era um técnico brilhante, que deu muita ajuda numa altura em que era precisa muita criatividade. Muitos de vós estão a sentir agora o que é a guerra através do que se diz da Ucrânia... Na guerra a primeira coisa que acontece são os cortes de energia e do abastecimento de água. Sabe o que é fazer radodifusão em Angola com 22 emissoras sem energia eléctrica? Foi preciso uma dose muito grande de resiliência. Quando eu era director e ia para as províncias eu costumava dizer que era um mendigo, no bom sentido, de gasóleo. Eu saía directo do avião para a delegação da Sonangol pedir "por favor, queremos gasóleo, queremos gasóleo”, porque era tudo feito a gasóleo. E a Sonangol para pôr em determinadas províncias gasóleo era muito complicado. E sabe que a dada altura houve uma sabotagem na refinaria de Luanda, que ardeu durante vários dias... Enfim, era um objectivo militar. A situação esteve mesmo complicada. Nesse ambiente fazer radiodifusão exigia uma imaginação muito grande e eu tinha aquele grupo de pessoas com enorme criatividade. Conseguimos resistir e transformar a RNA no que é hoje.

 

Fale-nos agora do livro que, a par da Maria Luísa Fançony, lançou recentemente. Como surgiu a ideia do livro?

Aos 70 anos fui promovido a coordenador. Eu e a Luísa Fançony somos os coordenadores do projecto. Os jornalistas, de uma maneira geral, e os que estiveram connosco nessa "aventura” desde a Independência até 1992 diziam-nos sempre que tínhamos que deixar um legado às novas gerações e que nós é que tínhamos a autoridade moral e a capacidade de coordenar porque estivemos em todos os momentos. Infelizmente muitos dos nossos companheiros que também fizeram essa trajectória já faleceram e coincidentemente somos dos poucos que estão vivos. Olha que no lançamento do livro encontrei o meu grande amigo Lucrécio de Jesus Martins da Cruz. Nos autógrafos do livro fui escrevendo "Fui o culpado”, "Assumo, fui o culpado”...

 

Culpado de quê?

Porque apareceram pessoas que diziam "O senhor Mogas foi o culpado de eu ter ficado na Rádio e ter feito a trajectória que fiz”... Foi-nos pedido por alguns jornalistas que coordenássemos a obra, que tem depoimentos dos que fizeram toda aquela gesta da RNA. Depois do livro feito e após algumas situações que vivi, cheguei à conclusão que devíamos ter feito um capítulo dedicado ao apoio que nós demos aos movimentos de libertação da África Austral e não só. Incrivelmente, no dia 5 de Outubro passado recebi uma mensagem, que para mim é muito comovente, de Timor Leste, a dizer "é o vosso dia e o povo maubere quer agradecer...” Para mim que saí da Rádio há trinta anos! O programa da FRETILIN [Frente Revolucionária de Timor Leste Independente] era feito cá e ia para o ar em ondas curtas. Tive também um incidente, que para mim foi uma espécie de certificado de habilitações, quando há cerca de quatro ou cinco anos visitava a África do Sul com a família, em turismo. Fui visitar a cadeia onde Mandela esteve preso, na ilha de Robben. Quem fazia de guia eram antigos colegas de cárcere de Mandela. Éramos um grupo de montes de turistas, principalmente europeus e americanos. Depois de se fazer a visita o guia perguntou "quem tem dúvidas?”. Toda a gente perguntou coisas das mais díspares e eu só fiz uma pergunta: "Vocês ouviam o programa radiofónico do ANC?”. E ele respondeu: "No meio das restrições que tínhamos aqui, era a única luz ao fundo do túnel”. E perguntei mais: "Vocês sabem onde é que era emitido o programa do ANC?”.  "Da África do Sul é que não, senão as autoridades do apartheid localizavam e partiam tudo”, respondeu o guia. Então expliquei: "O programa era emitido de Angola, da Rádio Nacional de Angola e eu era o director”. O senhor meteu o dedo no ar e disse, com lágrimas nos olhos: "Tu ajudaste a nossa libertação!”. Abraçou-me e todos aqueles turistas não conseguiam perceber o que se passava. Isto é o maior certificado de habilitações que eu transmito aos meus filhos. É que estivemos do lado certo da História.

 

Havia programas dedicados também à SWAPO...

... À FRETILIN, à Frente Polisário... Tínhamos até um spot que dizia "No Zimbabwe, na Namíbia e na África do Sul está a continuação da nossa luta”. 

 

Esses programas eram realizados por profissionais dos  países a que os movimentos de libertação pertenciam?

Exactamente. Os sonorizadores eram angolanos mas os realizadores eram daqueles movimentos. Nós dávamos o suporte técnico para a emissão. Em matéria de conteúdos eram independentes. Conheci o Sam Nujoma, o Mari Alcatiri... na Rádio Nacional. No fundo dávamos aos movimentos de libertação o que faziam connosco em Brazzaville, onde o MPLA teve esse apoio e realizava o programa "Angola Combatente”. Se fizermos uma segunda edição do livro vamos ter que incluir um capítulo dedicado aos programas dos movimentos de libertação.

 

Hoje sente saudades da Rádio?

Claro que sim. Dediquei os meus anos de juventude à Rádio. E quando me cruzo com aquelas pessoas que estiveram nessa aventura comigo há um reconhecimento de que estivemos bem. É claro que há coisas que não fizemos bem, mas tentámos estar à altura do momento. Não foram fáceis, como deve imaginar, as aventuras em que estivemos mobilizados. Fizemos formação, muita formação, porque os quadros começaram a sair pelas portas da antiga Emissora Oficial, era toda a gente a ir embora. Só nos diziam "têm de agarrar, têm de agarrar a situação”. É normal que tenha a minha vida muito ligada à Rádio. A minha família goza comigo, eu já saí há trinta anos mas tenho algumas medalhas no corpo ligadas à Rádio Nacional e não posso me desligar... E quando até a integridade física está em causa criam-se relações humanas para toda a vida.

Contribuiu também para o aparecimento das grandes vozes, dos grandes profissionais da RNA. Pode mencionar aqui nomes de profissionais para cujo aparecimento contribuiu?

Fizemos coisas muito criativas. E uma delas foi a criação do Círculo de Interesse da Rádio Nacional no Instituto Makarenko. Uma vez por semana o programa da juventude era feito a partir de lá e eu ficava atento às vozes. Quando ouvisse uma voz que suscitava interesse ia lá ao Makarenko e gritava "quem é que fez o programa?”. Às vezes ia até à sala de aula e dizia ao jovem "vá à Radio Nacional que tens uma boa voz e tens futuro na Rádio”. Alguns desses jovens até eram menores. Por exemplo a Carla Castro foi descoberta assim. Do Centro de Interesse do Makarenko descobrimos também o João Carlos Van-Dúnem, a Milú Monteiro...

 

O programa "Hora Jovem” emitido a partir do Makarenko era apresentado pelo Zé Neto e a Amélia Pombo...

Tenho uma relação muito privilegiada com essa malta toda. O Amílcar Xavier...

 

O Amílcar Xavier também veio do Makarenko?

Não, o Amilcar Xavier era do programa das Forças Armadas, de onde o "roubámos”. Nós íamos "roubar” os melhores em todo o lado.

 

E qual é a história da descoberta do Mateus Gonçalves no Lubango? Pode contar para os nossos leitores?

É uma história muito bonita. Nós fazíamos ofensivas às províncias...

 

Ofensivas como? Os jovens de agora vão precisar de uma explicação...

Eram visitas de ajuda e controlo, com assembleias de trabalhadores que duravam às vezes doze horas. As pessoas aproveitavam para desabafar e faziam queixas de tudo. Eu substituí o Rui Carvalho na direcção da RNA. O Rui Carvalho tinha muitas valências mas tinha horror a andar de avião. Nunca foi a uma província porque não podia ir de avião. Eu como chefe de departamento já ia às províncias e como director dei continuidade a essas viagens. Um dia desses fomos ao Lubango e encontramos lá vários jovens bons, o Lubango sempre gerou bons locutores. A Cristina Miranda é um dos que veio do Lubango. Outro jovem muito bom locutor que encontramos  é o Mateus Gonçalves. Dissemos-lhe "tens de ir connosco a Luanda”. Ele disse "têm de ir falar com o meu pai, mas acho que ele não vai deixar”. Acho que se não era menor tinha muito respeito pelo pai, porque o senhor Gonçalves era daqueles pais à antiga, um patriarca a sério. Acho que na altura era o director de uma fábrica de panelas de pressão. Eu e a Luísa Fançony fomos falar com o senhor Gonçalves, que nos disse "não me levem o miúdo para aquela bandidagem de Luanda”. Dissemos-lhe "senhor Gonçalves ele está a perder-se aqui...” Para convencê-lo foi muito difícil. Outros bons quadros vieram do Uíge, por exemplo o Luís Fernando... Naquela altura não havia cunhas, era mesmo o reconhecimento do mérito. O Manuel Rabelais também foi descoberto por mérito. Ele era dos miúdos que faziam o relato dos Caçulinhas da Bola. Nós ficávamos a ouvir as vozes que relatavam. Ele uma vez disse-me que num sábado ou num domingo apareceu um Land Rover com uma certa velocidade no campo da FTU, alguém saiu do carro, bateu com a porta e perguntou "quem é que fez o relato do jogo?” O Rabelais aflito levantou o dedo e disse "fui eu”. Eu era o tal indivíduo do Land Rover, que na altura disse ao miúdo "olha na segunda-feira vai lá à Radio para falar comigo”. Foi assim que ele começou. Estávamos sempre a lançar jovens, que misturávamos com os mais velhos.

O Africano Neto fez uma crónica maravilhosa em que dizia que eu conhecia o nome de toda a gente, ia às províncias e sabia o nome de todos os que encontrava. Mas eu tinha os meus truques. Viajava sempre com o director das emissoras provinciais que me adiantava as informações.

A nossa vida era muito dinâmica, eram muitos acontecimentos e era preciso decidir minuto a minuto. E ainda hoje carrego traumas da guerra. Por exemplo, quando viajo, só quando as rodas do avião tocam na pista, mesmo que esteja a aterrar na Austrália ou nos Estados Unidos, é que fico aliviado e suspiro "desta já me livrei”. Andávamos muito de Antonov e Illiuchin militares para as províncias e quando aterrasse lá era um alívio dos diabos.

Naquele fase, anos 80, a RNA era muito fértil em ideias e iniciativas e o foco da sua actuação ia muito além do fazer rádio. Produziam espectáculos e concursos musicais, organizavam campeonatos de futebol infantil... Hoje seria impensável fazer tudo isso?

O contexto também mudou. Por exemplo, fizemos um estúdio de captação de música, do melhor que há. Porquê? Uma das críticas que nos eram feitas, justamente, era que a percentagem de música angolana que passávamos era muito baixa. Não tínhamos discos herdados do tempo colonial suficientes para alimentar uma emissão de 24 horas e em vários canais. Então tínhamos de meter música estrangeira. Como é que podíamos ultrapassar a situação?  Fizemos o estúdio de captação de música, do melhor que há, a CT1, e todos os músicos começaram a gravar lá. A CT1 foi construída por serralheiros, carpinteiros e técnicos de som da Rádio Nacional. Aqui é obrigatório destacar o grande técnico que é o Domingos Neves, que esteve na origem da CT1 e que a idealizou. E mesmo os giradiscos só comprámos a parte de cima, os pés eram feitos mesmo nas oficinas da Rádio. Isto para poupar dinheiro, porque tínhamos um orçamento reduzido.

Na RNA fazíamos tudo de A a Z. Fizemos um estúdio, que teve muito sucesso, que era o Transparente. Era um estúdio todo em acrílico e em que o operador e o locutor viam-se em cima de um atrelado. Íamos para a frente de uma fábrica e o programa era feito, durante a manhã, a partir daquele estúdio. Os trabalhadores ficavam admirados ao saberem que era assim que se fazia rádio. Foi um sucesso muito grande.

 

Na sua opinião qual deve ser a linha motriz de uma Rádio Nacional?

Uma Rádio Nacional não é bem como uma rádio privada, que tem o objectivo de fazer lucro para ser auto-sustentável. Uma Rádio Nacional representa a opinião do Governo do país e tem que ter a capacidade de informar, recrear e educar, enaltecendo e repetindo até à exaustão os bons exemplos e criticando os maus exemplos, para que tenhamos uma sociedade melhor amanhã. E tínhamos muito esse foco. Para que a nossa sociedade fosse melhor amanhã tínhamos de ter músicas que tivessem um conteúdo qualquer e não banalidades e asneiras. Na CT1 só se gravavam músicas que tivessem o mínimo de qualidade. E apareceram músicas naquele estúdio que marcaram toda uma época. Não foi o Guilherme Mogas que fez. Foi todo um colectivo que fez tudo aquilo e deixámos como legado. Tínhamos bons captadores de música, como o Ferreira Marques, o Artur Mendanha Arriscado, o Álvaro da Fonseca, o Zé Gabriel Lopes da Silva... eram fulanos que tinham capacidades e trabalhavam empolgados. Dávamos estímulos morais e materiais aos trabalhadores. Estipulamos medalhas de ouro, de prata e de bronze e diplomas de mérito. Não recebi nenhuma porque eu é que entregava [Risos]. Os estímulos materiais iam desde motorizadas Simson, aparelhagens montadas cá em Angola... era o que havia. Os trabalhadores ficavam encantados, estimulados e vestiam a camisola da RNA.

Inventor de um drone de combate a incêndios

A sua última invenção é um dispositivo para combate a incêndios. Sabemos que estava na fase de testes em Portugal, onde possivelmente será adoptado pela corporação de bombeiros. Como está exactamente a implementação dessa invenção?

Em 2017 registei com o João Loureiro uma patente sobre uma nova metodologia para apagar incêndios, baseada no desporto skyboard. Fui mostrá-la, por indicação da Universidade do Minho, à Universidade de Coimbra (Portugal), que tem um instituto, a ADAI [Associação para o Desenvolvimento da Aerodinâmica Industrial], na pessoa do Professor Domingos Xavier Viegas, que se dedica precisamente a novos desenvolvimentos para o combate a incêndios. A princípio, como é óbvio, puseram algumas reticências, já que não sou e nunca tive nada a ver  com o ramo dos incêndios, ao passo que eles têm toda uma vida dedicada ao desenvolvimento de novas tecnologias de combate a incêndios e participam ao longo dos anos em centenas de seminários e congressos a nível mundial. Mas depois colocaram a nossa patente como sua primeira prioridade. Foi uma surpresa, um grande passo para mim. Ser reconhecido por uma instituição como a ADAI foi choque positivo para mim. Inicialmente foi a ADAI que implementou os primeiros desenvolvimentos do projecto, mas a dada altura a coisa começou a ficar mais complexa e por sugestão da própria ADAI resolvemos constituir um consórcio integrado pela ADAI, a SleekLab, que é uma fabricante de drones, a Jacinto, o maior fabricante português de carros de bombeiros e nós, que tivemos de constituir uma empresa em Portugal, que se chama Categoria Funcional, para defendermos a nossa posição. Posteriormente o consórcio candidatou-se para os fundos da União Europeia, que saíram quase de imediato. O grupo há dois anos que está a desenvolver o protótipo. Criou-se um sistema mecânico para que o drone em situação crítica largue a mangueira e fuja do sítio onde está o perigo à sua integridade física. Em termos técnicos o grupo é muito qualificado, são professõres da Universidade de Coimbra e técnicos da tal fábrica de bombeiros e uns jovens que têm uma empresa de drones. O grupo está a desenvolver um protótipo que tenha depois a condição de ser comercializável e adquirido pelas corporações de bombeiros.

 

Atendendo a tudo o que já foi feito até aqui, qual é a estimativa do tempo para a comercialização do drone?

Os projectos financiados pela União Europeia têm prazos. Setembro deste ano é o prazo para que tenhamos um produto vendável, que seja utilizável. Há ainda algumas questões técnicas que têm de ser ultrapassadas e o grupo está altamente engajado nisso. Sou o pai da criança mas a criança cresceu e já perdi o controlo. Eu participo à distância, em reuniões via Internet. Têm sido feitos ensaios com fogo real, para se ter um produto o mais aproximado possível da realidade prática.

 

Pelo que tem podido acompanhar, as suas ideias originais continuam a ser a matriz do projecto ou já houve muitas adaptações?

Já houve outros progressos, outros apartes da equipa toda. Por exemplo, criou-se um sistema em que quando os sensores detectam que o drone está em perigo devido a altas temperaturas, ele larga a mangueira e, como costumo dizer, foge para zonas mais favoráveis. O drone tem uma tecnologia cara, muito avançada, câmaras térmicas de vídeo para o bombeiro ver o incêndio de cima e outras particularidades que foram introduzidas e que eu não tinha pensado no desenho inicial.

A "criança” já tem nome?

Já. Chama-se projecto SAP, conforme quando se fez o pedido de financiamento à União Europeia. Estamos, mais o grupo directamente envolvido, entusiasmados em fazer um produto final.

 

Voltando para o início de tudo. O que foi que o motivou para esta invenção?

Fazia-me muita confusão, quando via os grandes incêndios florestais, a disparidade que havia entre o problema a resolver e os coitados do bombeiros, que tinham muito poucos meios. Fazia-me confusão como é que nós conseguimos meter satélites em órbita com alta tecnologia e entretanto os métodos de combate a incêndios são quase iguais a quando eu era criança e morava aí onde actualmente é o colégio Elizângela Filomena, no 1º de Maio. Havia aí, atrás dos Bombeiros, um aeroporto. Os bombeiros faziam ensaios de combate a incêndios e eu ficava entusiasmado... Quando apareci na ADAI com a nova abordagem eles ficaram incrédulos porque só viam o problema numa determinada direcção. Perguntaram-me "como é que o senhor que nunca foi dos bombeiros pensou nisso?” Precisamente por nunca ter sido dos bombeiros é que tive uma abordagem totalmente fora da caixa.

 

Recorrendo à linguagem militar, em termos tácticos, com a sua invenção, os bombeiros ficam em vantagem relativamente aos fogos...

Olha, das coisas que mais me sensibilizaram foi comandantes dos Bombeiros em Portugal, com enorme experiência e que já enfrentaram incêndios muito complicados, virem cumprimentar-me e dizerem-me "ninguém faz nada por nós, o senhor fez alguma coisa por nós”. Sentimentalmente fiquei reconfortado e com um nível de responsabilidade enorme.

 

O projecto de drone anti-incêndio não é a sua primeira invenção e esperamos que não seja a última. Quais são as outras invenções suas que estão em fase de pré-implementação ou de implementação?

Ando nesta coisa da inventiva desde jovem. Não sei se sabem, a associação portuguesa de inventores, antes da Independência, tinha a sua sede em Angola  e tinha à frente um luso-caboverdiano chamado Humberto Duarte da Fonseca, que era uma pessoa mítica, incrível. Faziam-se cá feiras industriais, onde havia sempre um stand da associação de inventores e era o Humberto da Fonseca que dava a cara. Ele era também o director dos Serviços Meteorológicos. Um dia fui lá mostrar-lhe umas coisas irrealizáveis. Eu tinha então uns 15 anos. Fui adoptado pelo Humberto da Fonseca e passei a ser o membro mais novo da Associação Portuguesa de Inventores. Deu-se a Independência e o Humberto da Fonseca foi-se embora para Portugal. Ele participou em vários salões de inventores com patentes suas. Ganhava sempre a medalha de ouro no salão de Genebra e a dada altura disseram-lhe que já não devia participar porque era sempre ele a ganhar. E passou a ser membro do júri daquele salão. Foi ele que me incentivou e me acarinhou. Depois da Independência tentei passar o legado para as novas gerações. Foi assim que na Rádio Nacional criei um grupo de inventiva.

 

Qual é a sua invenção que chegou a ser implementada, tendo uma utilidade prática, um uso corrente?

A isso chamam-se modelos de utilidade. Antigamente na RNA recebíamos mais de mil cartas por dia e  tínhamos dificuldade de bater e para não rasgar o conteúdo. Fui eu que idealizei, em 1977, o envelope de abertura fácil, picotado. Tenho outra invenção, pela qual até fui homenageado pela ANIP e deu algum brado internacional, que foi um sistema de visão para cegos. Quando registei a patente, mesmo no seio familiar as pessoas diziam "o Guilherme Mogas pirou de vez”. A invenção consistia numa câmara de vídeo que captava as imagens e num sistema que convertia essas imagens em impulsos eléctricos que eram enviados directamente ao cérebro, na área da visão. Eu tinha um irmão que era médico e que me ajudou a compreender como é que o cérebro funciona. A patente foi registada mas ficou um papel velho. Um dia desses, passado muito tempo, eu estava a ver a televisão e aparece alguém nos EUA, com o auxílio de um neurocirurgião português que pôs um cidadão a ver com esse sistema. Eu disse "isto é a minha patente”. Fiquei com um misto de alegria e de tristeza por não ter sido eu a implementar a patente mas, enfim, em Angola não tínhamos condições para tal.

 

Tendo sido usada a sua patente, não seria o caso de lhe pagarem por isso?

Não sei se eles tiveram conhecimento da minha patente. Mas também as patentes têm uma vigência, um prazo. Quando passa esse prazo a patente cai no domínio público. E acho bem que isso suceda. Outra invenção minha foi um "ar condicionado para os pobres”. Nós cá em Angola na hora de dormir procuramos sempre a área mais fria do colchão. Inventei um colchão com um sistema de ventilação, com esponja porosa por onde saía o ar.

 

Era então um colchão eléctrico?

Tinha uma espécie de ventilador que aproveitava o Sistema Venturi. Esse sistema consiste, explicando do modo mais simples possível, em com um jacto de ar juntar-se mais ar que depois saía na superfície do colchão, o que tornava, no nosso caso, o colchão mais frio e nos países com climas mais frios, como na Europa, podia-se introduzir uma resistência ao meio, o que produziria então ar quente.

 

Esse colchão chegou a ser produzido?

A patente foi registada em 1978. Não cheguei a avançar mais nesse projecto porque estava então empenhado na tarefa mais importante que era viabilizar a Rádio Nacional, numa altura em que a maioria dos quadros se tinham ido embora e tivemos de fazer um esforço muito grande para que a Rádio não parasse.


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