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Estados Unidos e China ainda longe do consenso

Quando fez campanha para ser eleito e chegou à Casa Branca como o 46º Presidente dos Estados Unidos, Donald Trump promoveu uma agenda traduzida em slogans como "América Primeiro" e "Fazer América Grande Novamente", que prenunciava proteccionismo, violação de princípios e regras da Organização Mundial do Comércio (OMC) e, obviamente, guerra comercial pré-anunciada.

08/10/2019  Última atualização 20H59
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Essa última passou a ser uma realidade inevitável a partir do momento em que o Presidente Trump, mais na pele de um empresário do que propriamente de um político, passou a fazer o uso da calculadora para aferir o quanto América ganha e perde no comércio com a China.
Quando dizia, ainda em campanha, que América não podia, por exemplo, continuar a fabricar um carro que, para entrar no mercado chinês, pagasse até 25 por cento, enquanto em sentido inverso à China seria cobrado apenas 2,5 por cento, aparentemente fazia todo o sentido a ideia de colocar fim a essa situação. Mas, atendendo ao estádio de desenvolvimento da China, ao volume de trocas comerciais entre os dois países, a guerra comercial parece chegar tarde demais para os americanos, na medida em que, como mostram os números, os Estados Unidos não estão em condições de impor tarifas aos produtos de exportação chineses sem sofrer as consequências.

Factos da "guerra"

De acordo com o documento "A posição chinesa nas Relações Económicas e de Consultas Comerciais entre China - Estados Unidos", disponível on-line, em inglês, desde que assumiu o cargo, em 2017, o novo Governo dos EUA ameaçou com tarifas adicionais e medidas que provocaram frequentes atritos económicos e comerciais com os seus principais parceiros comerciais.
Diz o documento que, "em resposta ao atrito económico e comercial iniciado unilateralmente pelos EUA, desde Março de 2018, a China teve que tomar medidas vigorosas para defender os interesses da nação e do seu povo. Ao mesmo tempo, comprometida em resolver as disputas por meio do diálogo e consultas mútuas, a China envolveu-se em várias rondas de conversações para consultas económicas e comerciais com os EUA, num esforço para estabilizar o relacionamento comercial bilateral. A posição da China tem sido consistente e clara, defendendo que a cooperação serve aos interesses dos dois países, que o conflito só pode prejudicar os dois países e que a cooperação é a única via correcta para os dois lados".
"No que diz respeito às diferenças e atritos na frente económica e comercial", aponta que "a China está disposta a trabalhar em conjunto com os EUA, para encontrar soluções e alcançar um acordo mutuamente benéfico e ganha-ganha. No entanto, a cooperação deve ser baseada em princípios. A China não comprometerá as principais questões de princípio. A China não quer uma guerra comercial, mas não tem medo de nenhuma e lutará contra alguma, se necessário. A posição da China sobre isso nunca mudou".

Propriedade intelectual

Relativamente às acusações segundo as quais a China manipula a sua moeda para tornar-se mais competitiva, procede alegadamente ao roubo de propriedade intelectual, bem como "força a transferência de tecnologia", o documento desvaloriza as acusações, ao mesmo tempo que exalta o que chama de conquistas do seu país.
Consta do documento que "a inovação tecnológica da China é baseada na autoconfiança. Acusar a China de roubo de propriedade intelectual e transferência forçada de tecnologia é totalmente improcedente.
"Desde a fundação da República Popular, em 1949 e, em particular, desde o início da reforma e abertura, em 1978, os empreendimentos científicos e tecnológicos da China passaram por uma série de fases. Os empreendimentos começaram de um parto difícil, avançaram no curso da reforma e agora alcançaram vários avanços, apresentando uma variedade de inovações. Essas conquistas ganharam reconhecimento mundial. Os registos históricos confirmam que as conquistas da China em inovação científica e tecnológica não são algo que roubamos ou tiramos à força de outras pessoas; eles foram conquistados através da autoconfiança e do trabalho árduo. Acusar a China de roubar propriedade intelectual para apoiar o seu próprio desenvolvimento é uma fabricação infundada".

Maior parceria

A China e os Estados Unidos são entre os maiores parceiros económicos e comerciais, ao mesmo tempo que são uma importante fonte de investimento mútuo. Em 2018, o comércio bilateral de bens e serviços ultrapassou 750 mil milhões e o investimento directo nos dois sentidos chegou a 160 mil milhões. A cooperação comercial China-EUA trouxe benefícios substanciais para países e povos.
Segundo a Alfândega da China, o comércio de mercadorias entre a China e os EUA cresceu de menos de 2,5 mil milhões, em 1979, quando os dois países estabeleceram laços políticos e diplomáticos, para 633,5 mil milhões em 2018, um aumento de 252 vezes.
Em 2018, os EUA eram o maior parceiro comercial e mercado de exportação da China e a sexta maior fonte de importações. De acordo com o Departamento de Comércio dos EUA, em 2018, a China era o maior parceiro comercial dos EUA, o seu terceiro maior mercado de exportação e a sua maior fonte de importações. A China é o principal mercado de exportação de aviões, soja, automóveis, circuitos integrados e algodão dos EUA. Durante os dez anos, de 2009 a 2018, a China foi um dos mercados de exportação de mais rápido crescimento para produtos americanos, com um aumento médio anual de 6,3 por cento e um crescimento agregado de 73,2 por cento, superior ao crescimento médio de 56,9 por cento representado por outras regiões no mundo.
O comércio de serviços entre a China e os EUA é florescente e altamente complementar. Os dois países realizaram uma cooperação extensa, profunda e mutuamente benéfica no turismo, cultura e propriedade intelectual. A China é o maior destino para os turistas dos Estados Unidos na Ásia-Pacífico e os Estados Unidos são o maior destino internacional para os estudantes chineses. De acordo com números chineses, o comércio bilateral de serviços aumentou de 27,4 mil milhões em 2006, o primeiro ano com estatísticas disponíveis, para 125,3 mil milhões em 2018, um aumento de 3,6 vezes. Em 2018, o défice comercial da China com os EUA atingiu 48,5 mil milhões.

Reacções internacionais

Atendendo aos efeitos danosos à economia mundial da guerra comercial entre os Estados Unidos e a China, várias vozes em todo o mundo levantam-se a favor da contínua negociação e concertação entre as partes. E nas Nações Unidas, na fase em que decorria a 74 ª Assembleia-Geral, afigurou-se como momento oportuno para os pronunciamentos de Chefes de Estado e de Governo relacionados com este tema, ao lado de outros.
Uma das vozes é o Presidente angolano, João Lourenço, que, no discurso que proferiu na ONU, disse que está na hora de pôr fim a essa guerra para bem da economia mundial.
Donald Trump, numa intervenção equilibrada, na componente económica, defendeu a sua administração, dizendo que "o povo americano está absolutamente comprometido em restaurar o equilíbrio no nosso relacionamento com a China. Espero que possamos chegar a um acordo que seja benéfico para os dois países. Mas, como deixei bem claro, não aceitarei um mau acordo para o povo americano".
Não há dúvidas de que a China é também pelo diálogo, numa altura em que as perdas bilaterais e para a economia mundial são maiores do que os eventuais, razão pela qual mais cedo ou mais tarde a balança da concertação, diálogo e negociação vai equilibrar-se a contento de todas as partes.
Este conflito já dura mais de um ano e a proximidade das eleições presidenciais norte-americanas leva a crer que continuará vivo pelo menos até 2021. Apesar de tudo, o diálogo continua com avanços e recuos, com anúncios bilaterais de novas tarifas e nada indica a guerra comercial acabe tão cedo. Para muitos, essa guerra comercial é também parte e fundamentalmente a causa da disputa pelo pódio da maior economia do mundo.

América ainda não se “tornou grande de novo”

As medidas tarifárias não impulsionaram o crescimento económico americano. Em vez disso, a imposição de tarifas causou e está a causar danos à economia dos EUA. Diz-se que para a guerra comercial que o Estados Unidos está a travar contra a China "está a fazer o feitiço voltar-se contra o feiticeiro".
Primeiro, as medidas tarifárias aumentaram significativamente os custos de produção para as empresas americanas, enquanto os custos continuam baixos para as empresas chinesas. Os sectores manufactureiros da China e dos Estados Unidos são altamente dependentes um do outro. Muitos fabricantes americanos dependem das matérias-primas e bens intermediários da China. Como é difícil encontrar bons fornecedores alternativos no curto prazo, eles terão que arcar com os custos dos aumentos de tarifas.
Segundo, as medidas tarifárias levam a aumentos nos preços domésticos nos Estados Unidos. A importação de bens de consumo de valor agregado da China é um factor-chave por trás da baixa inflação de longo prazo nos EUA. Após a imposição de tarifas adicionais, o preço final de venda dos produtos chineses aumentou, deixando os consumidores americanos efectivamente a suportar alguns custos tarifários. Segundo uma pesquisa da Federação Nacional do Comércio a retalho dos EUA, as tarifas adicionais de 25 por cento sobre os móveis, por si só, custarão ao consumidor americano 4,6 mil milhões adicionais por ano.

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