Opinião

Esta violência não nos pertence

O último fim-de-semana ficou marcado, dentre outros acontecimentos, pela agressão física de que foi vítima a cidadã Solange Almeida, técnica da Direcção Municipal de Acção Social e Responsável do Centro de Acolhimento da Igreja Católica do Santo António, Bairro Caputo, em Benguela, acusada pelos seus algozes de estar a traficar crianças.

25/06/2024  Última atualização 08H26

No vídeo, é visível a barbaridade com que a referida cidadã foi tratada, partindo de suspeições, atitude que demonstra a ignorância do princípio elementar da vida, consubstanciado no valor de ouvir-se as motivações de todos, em qualquer imbróglio.

Nem mesmo o facto de estarem em presença de alguém do sexo considerado vulnerável, que ainda tentou se defender como pode, ante a passividade conivente de certos cidadãos que, como norma da incivilidade que grassa entre nós, preferiram assobiar ao largo, demoveu os agressores do comportamento que merece a mais viva repulsa da sociedade, que clama por punição exemplar aos prevaricadores.

Considerando como certa a hipótese de a cidadã estar a praticar um ilícito, nada justifica a postura dos cidadãos que, por mais razão que os assistia, perderam-na, ao não ponderar a obrigatoriedade em saber gerir a razão com o discernimento e toda a plêiade de urbanidade que se recomenda em situações análogas.

Não sendo, portanto, um caso isolado, o que estarrece é a leviandade com que são encaradas situações em que as pessoas, até por razões mínimas que qualquer diálogo profícuo pode esclarecer, optam pela agressão física que, não poucas vezes, resulta em perda de vidas humanas.

É uma verdade cristalina que, à luz da idiossincrasia sócio-cultural angolana, esta violência não nos pertence como originária, até porque a estória nos atribui o estatuto de um povo pacato, cordato, hospedeiro, dado à paciência que só excede quando em presença de razões muito profundas, que colocam em causa valores ligados à clausura das liberdades fundamentais, mas ponderados todos os considerandos.

Foi assim por altura da Luta Armada de Libertação Nacional, enquanto corolário das diatribes do regime colonial que tinha a opressão e repressão por tudo e nada, como uma das marcas características dos poucos mais de meio-século de subjugação de um povo em sua própria terra, realidade que a ninguém convém.

Mais do que a condenação veemente do ocorrido, instam-se as instâncias de direito no sentido de accionar os mecanismos existentes para a exemplar punição aos autores da agressão em referência, com a tendência dupla de pagarem pelos excessos e emitir um recado aos demais que agem com esta violência que não nos pertence. Destarte, este caso pode ser aproveitado para a realização de reflexões profundas em busca de respostas que visam alterar o quadro de comportamentos agressivos para que não se normalize esta violência que não nos pertence, bem como de forma extensiva, serem abordados outros fenômenos cuja frequência de ocorrências transformam a sociedade angolana numa terra que cristaliza a imbecilidade.

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