Cultura

Espírito de “Havemos de Voltar” sentido em Ritmos e Cantares da Terra  

Analtino Santos

Jornalista

Com “Olye Uetchilola, Ovelhe” e os coros típicos do Sul de Angola o trio constituído pela As Onças da Paz, Acácio Bambes e Ginga Nacicusse encerraram o “Cantares da Terra”, uma viagem pelo mosaico cultural angolano que teve como ponto de partida o Kintuene de Cabinda, uma realização da AF Produções para o Fenacult.

01/12/2022  Última atualização 23H02
Artistas de várias províncias trouxeram ritmos e danças tradicionais de diferentes grupos étnico-linguísticos de origem © Fotografia por: ARSÉNIO BRAVO | EDIÇÕES NOVEMBRO
O conceito do espectáculo transportou para o poema "Havemos de Voltar” e prendeu os presentes no Complexo Cultural Paz a acompanharem a sequência dos artistas, tendo como base blocos com artistas dos grupos étnicos mais representativos: Ibinda, Bakongo, Ambundu, Ovimbundu, Cokwe, Nyaneca Humbi e Ovambo, num ambiente onde a música esteve sempre acompanhada da dança.

Na plateia, em representação do ministro da Cultura e Turismo, esteve o Secretário de Estado para o Turismo, Hélder Marcelino, e ainda Manuel Gonçalves, vice-goverandor de Luanda para a área técnica e social, Tatiana Mbuta, responsável do sector cultural da capital e convidados vibraram e aprovaram um espectáculo carregado de um simbolismo socio-cultural das várias "nações” incorporadas na palavra de ordem "Um só povo, uma só Nação”.

Do Kintuene ao Vindjomba

O atraso passou despercebido depois de uma breve apresentação sonora do concerto e foi deixado o mestre de cerimónia porque a sequência dos artistas e estilos ajudaram a situar a região onde estavam os presentes.

De Cabinda, Josefina Winy, uma das referências musicais das terras de Mayombe na actualidade e Beto Bungo, dos mais reconhecidos defensores do Kintuene. A dupla, com o suporte da Banda FM, entrou em alta numa rapsódia onde reconhecemos as canções " Tchietu bu Bukuela” e " "Dr. Mayuya”, numa coreografia onde os traços culturais dos Ibinda estavam identificados, com os Bakama em destaque.

Momento Bakongo

Do lado angolano do rio Nzadi foram chamados os artistas Júlio Gil, Gato Bedseiele e Lito Graça e com toda a graça e de graça foram os embaixadores das províncias do Zaire e Uíge. Júlio Gil foi uma das novidades e como proposta levou o estilo Kinsiona e "Kumbazanga”, lembrando as incursões de Teta Lando aos ritmos da sua ancestralidade.

Gato Bedseiele reviveu as recolhas feitas pelo seu Afra Sound Stars, nomeadamente, os "Senhores do Kilapanga”, "Mbemba”  e "Soke Soke”. O filho de Kimbele como o eterno Pop Show, mostrou a musicalidade no Kikongo das aldeias e o passeio pela filosofia Bakongo, encerrando com Lito Graça no internacionalmente reconhecido "Konono”

Momento Ambundu-Dembus

 O grupo Ambundu pela diversidade rítmica mais explorada e conhecida teve três momentos, sendo o primeiro o que constitui a fronteira com os Bakongo, Os Dembu. Dodó Miranda, filho desta região, mas nascido no Congo, trouxe o cancioneiro local bem apropriado pelos coros da Igreja Metodista, revivendo Tonito Fortunato e outras releituras do hinário onde o Kimbundu conforta corações. Vozes do Nambwa, um dos mais populares da região, apresentaram uma proposta de noite de sunguilar (encontros festivos no Kimbu) e fora do ambiente das missões em "Aname Embe” e a plateia voltou a movimentar-se.

Calabeto, Irina Bumba, Rául Tollingas, Kamba Dya Muenho e Lutuima foram os escolhidos para ilustrarem a evolução musical da capital em temas onde o carnaval, as turmas até a passagem dos conjuntos modernos estiveram em evidência na Rebita e Semba. Brindaram ao som de clássicos como "Colonial”, "Xikela”, Ula Upé”, "Monagambé”, "Nguitabulé”, entres outros, moldados no Marçal e Bairro Operário que atingiram escala nacional.

Para a região Malange, Cuanza Norte e Icolo Bengo, as vozes de Djanira Mercedes, Zé Maria Boyoth, José Garcia e Baló Januário deixaram os vibrantes estilos Mbuezena e Cabecinha. A história do tambi ( óbito) cantada em "Man Polé” de Mito Gaspar foi interpretada por Djanira Mercedes enquanto "Eme Pemba” sucesso com Dionísio Rocha foi dada a oportunidade a José Garcia. A mania da Tia Maria ficou de fora e Zé Maria Boyoth apresentou "Kadibuende” e o contador de histórias do povo Baló Januário, expoente máximo da Cabecinha, fez dançar em "Na casa da mãe”.

Ângela Ferrão, Vavá do Kwanza Sul e Cidy Daniel representaram a região onde tem o Kimbuelela como um dos primeiros ritmos divulgados. Ângela Ferrão sem o violão trouxe canções do rio e das rodas nas aldeias como "Sabonete” e  "Kamuyaya” e, na companhia dos conterrâneos, levaram para o palco o movimento da dança. Cidy Daniel deixou de lado o seu lado mais contemporâneo e foi às raízes em "Cepea”. Vavá do Kwanza Sul, momentos antes da sua actuação em declarações a nossa reportagem, pediu o respeito a grafia do seu nome artístico  e reviveu "Taligo”.

Ekuikui do Duo Canhoto e Alexandra Bento foram os chamados para o primeiro momento, com a Banda FM a ser reforçada com percussionistas. Ekuikui, artista bem sucedido ao trazer para o meio urbano a riqueza cultural do meio rural, mostrou o seu toque mágico em "Mãe Weya” acompanhado pela cada vez mais segura em palco, Alexandra Bento. A cantora não desiludiu e destemida interpretou com familiaridade "Omboyo”.

Benguela, Huambo e Bié em grande no momento ovimbundu

Estiveram Fly, Moniz de Almeida e Sabino Henda, verdadeiros representantes da sonoridade destas províncias e exemplos de que "Luanda é terra de Braços Abertos”. Este trio de artistas tem em comum o facto de estarem presentes na fase inicial da Kizomba e colocar os ritmos que absorveram nas Ombalas entre os sucessos da música nacional moderna. Fly, o menino da Catumbela, apresentou a "Ngalinha”, tema do cancioneiro frequente nas suas apresentações. Moniz da Almeida voltou a infância em "Atchimonha” e Sabino Henda fechou o momento do Sungura e outros ritmos que levantam poeira nestas províncias como "Tchiela”, entre outros cantares da terra.

Já no momento Cokwe, integrando as províncias Lunda Sul e Lunda Norte, uma das regiões mais ricas, foi explorado com Janeth Kimbamba, Gloria Lubanza e Domingos Mutari, que defenderam a bandeira da Chianda  e ritmos como Miting e Makoto ficaram de fora.  Mas isto não impediu que os toques peculiares com marcas de erotismo da região assaltassem o palco e os locais do concerto. Com o espírito do legado de Lueji, Janeth Kimbamba justificou a escolha em "Ulo” e demonstrou que estava intimidada em partilhar com dois monstros da cultura Cokwe. Bem amparado com as dançarinas, Gloria Lubanza, senhor que se notabilizou no conjunto "Os Moyoweno", trouxe um tema desta fase com "Kassessekuma". Para fechar o momento, a voz do dono da Chianda mais apreciada nas festas urbanas "Namuleleno”  Domingos Mutambi” fez os seus "estragos". Mutambi veio da Lunda-Norte para o concerto e justificou a ausência nos palcos pela falta de valorização dos músicos que fora da capital apostam em elevar a cultura nacional.

Já no momento Nyaneca Humbi e Ovambo, integrando Cuando Cubango, Huila, Namibe e Cunene, a escolha foi das Onças da Paz, Acácio Bembes e Ginga Nacicusse para o encerramento. Pelo seguimento lógico proposto serviu como uma cartada agradável. Os estilos de festa Vindjomba e o Ngolo, dança guerreira com os caçadores a enfrentarem-se para agradar as mulheres e os coros guerreiros e de exaltação patriótica, deixaram a herança cultural de quem viveu o Eviko.

Onças da Paz trouxeram os coros característicos dos Ovambo angolanos, na Namíbia e outros países da África Austral com um sincronismo onde as vozes e as batidas dos pés transiam a harmonia e união reflectida no tema final "Nós somos a Onça pela Paz”, tema transformado em hino pela primeira geração do grupo, constituída por ex-militares.

Acácio Bembes, o artista que encanta em várias facetas: Trova, versões para Kizomba de músicas internacionais, interpretações de Elias Dya Kimuezo e nos ritmos da cultura Nyaneca Humbi onde tem sucessos com o seu grupo Acapaná e deste fez dançar em "Kumbi Ndjemba”. Outro divulgador e promotor desta região, Ginga Nacicusse marcou esta fase final e com as vestes de um caçador provou porque é um dos artistas mais solicitados para abrilhantar os ambientes festivos da sua gente na capital e presença como comentarista na Rádio Cultura Angola.  

Com este passeio musical acompanhado pelo Jornal de Angola, o apelo do pensamento do Poeta Maior, primeiro Presidente da República Popular de Angola fez sentido nesta edição do FENACULT, edição especial dedicada ao Centenário Natalício de Agostinho Neto.

 

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