Política

Especialista destaca dimensão diplomática do primeiro Presidente da República de Angola

Xavier António

Jornalista

O especialista em Relações Internacionais Matias Pires afirmou, em Luanda, que o primeiro Presidente da República de Angola, António Agostinho Neto, foi um diplomata hábil, versátil, arguto e resiliente.

19/05/2022  Última atualização 08H55
© Fotografia por: DR

Em declarações ao Jornal de Angola, destacou que a dimensão diplomática do Presidente Neto remete para duas perspectivas: a actividade diplomática exercida no quadro da Luta de Libertação Nacional e a diplomacia de Estado, exercida na vigência do curto mandato enquanto Chefe de Estado.

O MPLA, lembrou, sob liderança de Neto, a partir de 1962, desdobrou-se em contactos diplomáticos, com o envio de representações permanentes junto de determinados países amigos e a participação em eventos internacionais vocacionados à causa da luta anti-colonial.

Segundo o académico, essas acções resultaram na obtenção de apoios para os esforços da guerra de libertação, assistência médico-medicamentosa para os refugiados angolanos, a manutenção da residência fixa do partido em alguns Estados africanos, bem como a condenação e isolamento político de Portugal junto dos organismos multilaterais.

"Ao chegar à liderança do movimento, em 1962, Agostinho Neto consolidou as parcerias internacionais já existentes, com destaque para a CONCP, criada no ano anterior, as frentes diplomáticas da Argélia, Guiné Conacri, Congo, depois de terem saído da outra margem do Rio Congo, em Leopoldville, actual Kinshasa, Tanzânia e outras”, destacou.

Para Matias Pires, tendo em conta a sensibilidade dos países dessa zona da Europa à luta anti-colonial, o MPLA tomou a decisão de instalar uma representação permanente em Estocolmo, em 1970, cujo responsável foi António Alberto Neto, rendido por Saydi Vieira Dias Mingas, em 1973.

"Neste mesmo ano de 1973, a Noruega patrocinou e acolheu a Conferência de Oslo sobre África Austral, co-organizada pela ONU e pela OUA, evento em que Agostinho Neto foi eleito Vice-Presidente ao longo do desenrolar dos trabalhos”, recordou.

Apesar da inclinação socialista, referiu, a sua diplomacia activa seguia uma geometria variável, para quem isso permitiu estabelecer laços no Ocidente, na sequência dos quais, a 1 de Julho de 1970, o Presidente Neto e os nacionalistas Amílcar Cabral (Guiné Bissau) e Marcelino dos Santos (Moçambique) foram recebidos em audiência, no Vaticano, pelo Papa Paulo VI.

De acordo com o especialista, neste mesmo ano, o Presidente Neto viria a ser galardoado com o Prémio Lotus, pela IV Conferência dos Escritores Afro-Asiáticos.

Em Portugal, prosseguiu, a amizade com Arménio Ferreira e alguns líderes de esquerda, sobretudo, do Partido Comunista Português, foram de extrema importância no pós-25 de Abril de 1974, cuja ocorrência apanhou o Presidente Neto em digressão diplomática no Canadá, sempre no âmbito da mobilização de apoios para a luta de libertação nacional.

Lembrou também a tentativa infrutífera para a obtenção do apoio dos Estados Unidos da América, por ocasião da deslocação de Agostinho Neto  àquele país, o primeiro a ser contactado, em 1962. "Gorada a possibilidade de obter o apoio, a profunda convicção para a luta e o realismo obrigaram a um reposicionamento estratégico, que consistiu na intensificação dos contactos com o Leste, bem como com Cuba. Quando Che Guevara visitou o Congo Brazzaville, em 1965, avistou-se com o Presidente Neto, tendo alguns guerrilheiros cubanos visitado combatentes do MPLA que estavam nas matas de Cabinda”, sublinhou.

No seu entender, essas dinâmicas explicam os apoios e a solidariedade, por altura da disputa pelo poder entre os três Movimentos de Libertação, na véspera e no período que se seguiu à conquista da Independência Nacional, a 11 de Novembro de 1975. "Qualquer leitura atenta, facilmente chegará à conclusão de que a vitória do MPLA, naquela altura, teve como principal instrumento de acção a diplomacia”, disse.

 

Angola na OUA

 No âmbito multilateral, disse que o reconhecimento de Angola pela Organização da Unidade Africana (OUA,) a 12 de Fevereiro de 1976, foi antecedido de uma intensa batalha diplomática, acrescentando que aquela instituição continental reconheceu o GRAE, formado pela FNLA, em 1963. A admissão na Organização das Nações Unidas (ONU), referiu, a 1 de Dezembro do mesmo ano, repetiu o quadro de intenso trabalho diplomático, com a Nigéria a ameaçar cortar as concessões petrolíferas aos EUA, caso continuasse a vetar a entrada de Angola na maior organização multilateral de carácter universal.

"Vencida a questão do reconhecimento, o Presidente Neto resolveu focar a actividade diplomática em quatro vectores, nomeadamente, a estruturação das bases doutrinárias da Política Externa da República Popular de Angola, a luta contra as agressões externas, normalização de relações de boa vizinhança com os países fronteiriços e a mobilização de bolsas de estudo no estrangeiro para a formação massiva do homem novo e a consequente redução do elevado índice de analfabetismo”, reforçou.

Matias Pires realçou que as bases da política externa da República Popular de Angola foram aprovadas na 3ª Reunião Metodológica do Comité Central do MPLA, realizada entre 29 e 30 de Outubro de 1976 e ratificadas no I Congresso do partido, em Dezembro do ano seguinte. Na sua visão, apesar da primazia dada aos países socialistas, o Presidente Neto tinha uma geometria variável para a cooperação com os países ocidentais que se manifestassem dispostos.

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