Reportagem

Especial/ Independência: A conquista do território que hoje se chama Angola

Victor Mayala | Soyo

Jornalista

A foz do rio Zaire, ou Congo como, também, é conhecido, testemunhou os acontecimentos que, em 1482, lançavam os alicerces para o nascimento de Angola, aquando do desembarque, na Ilha do Mpululu, município do Soyo, dos primeiros portugueses capitaneados pelo navegador Diogo Cão, que ali ergueu o Padrão São Jorge. Estava dado, assim, o início ao processo de colonização que viria culminar a 11 de Novembro de 1975, com a proclamação da Independência Nacional, na sequência de uma guerra de libertação desencadeada pelos autóctones .

27/11/2021  Última atualização 09H40
© Fotografia por: DR
Fontes consultadas pelo Jornal de Angola revelam que, após a chegada a Angola, os portugueses trataram, primeiro, de estabelecer uma aliança com o soberano do então Reino do Congo, na época, Nzinga-a-Nkuwu, que converteu-se mais tarde ao cristianismo, tendo sido baptizado com o nome de D. João.

A descoberta, povoamento e exploração tinham, essencialmente, como objectivo a evangelização e a possibilidade de poder tirar vantagens do território, do ponto de vista comercial. Para tal, muito contribuíram as boas relações estabelecidas com o rei Nzinga-a-Nkuwu, que se manifestou bastante interessado em apoiar
os portugueses nas suas actividades.

O professor de História na Escola de Formação de Professores do Soyo, Victor Makuala Inácio Teresa, referiu que, o desembarque dos portugueses na foz do rio Zaire, foi um acontecimento inédito e estranho por parte das populações que os recepcionaram, que ao verem chegar, pela primeira vez, homens brancos, por via marítima, gritavam: "Ximbi ya múm”, "Ximbi ya múm”, ou seja, sereias do mar, sereias do mar.

"Os portugueses foram acolhidos com pompa e circunstância e levados até à capital do Reino, Mbanza Kongo ou Kongo Dya Ntotela (Kongo do Rei). No princípio, as relações eram mutuamente vantajosas, com a balança pouco a pouco a inclinar-se, negativamente, para o Reino do Kongo, pelo facto de certos produtos trazidos pelos portugueses exigirem troca com seres humanos, ou seja, escravos. Os escravos recolhidos nos primeiros momentos de trocas eram escravos para guerra”, disse.

O interlocutor avançou que, no ano de 1500, os portugueses descobrem o Brasil e passados 20 anos, estas terras recém-descobertas ganham um interesse económico ímpar, sobretudo no cultivo de cana-de-açúcar e, deste modo, precisava-se do aumento da mão-de-obra que fosse, preferencialmente, barata, sendo a África tida como o mercado favorável neste aspecto.

A par disso, disse, os africanos foram, igualmente, vistos como ideais a suportarem as variações climáticas das zonas tropicais, tanto do Câncer como do Capricórnio. Com este facto, toda a Europa ocidental movimentou-se para obter benefícios do novo negócio, alguns fornecendo navios, outros indo à busca no terreno.

"A escravatura trouxe a destruição do tecido familiar e social. As consequências ainda se fazem sentir até aos dias de hoje. Valentes membros das famílias foram arrancados no seio familiar, sem o consentimento dos outros membros, inclusive, fortes dirigentes das sociedades não escaparam a este tsunami, que durou aproximadamente mais de três (3) séculos. Em Angola, mesmo com a decretação do seu fim, a escravatura ainda arrastou-se até os finais do ano de 1800”, referiu.

O historiador lembrou, por último, que a abolição da escravatura se deveu  às transformações operadas na Europa, resultantes das revoluções francesa (de âmbito político-económico), americana e inglesa, esta última mais interessada na industrialização e no maior número de consumidores, via na libertação dos escravos, a concretização dos seus ideais. Deste modo, surgem os incentivos da partilha dos territórios e das suas ocupações efectivas.

Batalha de Quifangondo


Manuel Fonseca, um antigo militar das FAPLA, lembrou uma das batalhas mais ferrenhas e decisivas ocorridas no país, poucas horas antes da proclamação da Independência Nacional, pelo Presidente Agostinho Neto. Trata-se da Batalha de Quifangondo, travada a 10 de Novembro de 1975, a entrada de Luanda, entre as FAPLA, braço armado do MPLA, e elementos da FNLA, apoiados por tropas zairenses e sul-africanas.

O antigo combatente, que por altura dos acontecimentos, tinha 30 anos, agora com 76, lembrou que a batalha foi notável, por ter marcado o "primeiro grande emprego de foguetes de artilharia na guerra civil angolana, bem como a última tentativa séria das forças do ELNA de tomarem a capital do país, Luanda”.

 "Depois de derrotar uma guarnição das FAPLA, em Caxito, um grupo de tropas do ELNA liderados pessoalmente por Holden Roberto começou a avançar para o Sul, em direcção a Luanda. As forças de Holden Roberto incluíam uma bateria composta de três canhões médios BL de 5,5 polegadas e dois canhões de campanha tipo 59 de 130 milímetros, tripulados por equipas de artilharia zairenses e sul-africanas”, disse.

O objectivo do ELNA, explicou, era o de desalojar as FAPLA da Central Hidráulica de Quifangondo e de uma ponte adjacente que atravessava o rio Bengo. A cobertura aérea para a ofensiva do ELNA foi fornecida por um esquadrão sul-africano de bombardeiros English Electric Camberra. Os defensores consistiam da 9ª Brigada das FAPLA e quase uma centena de conselheiros militares cubanos, apoiados por uma bateria de canhões anti-carro Zis-3 e lançadores de foguetes Grad.

Manuel Fonseca prosseguiu que, após um bombardeamento de  artilharia mal coordenado e um ineficaz ataque aéreo sul-africano, a infantaria leve e motorizada do ELNA atacou a ponte na manhã de 10 de Novembro, mas ficou presa a céu aberto ao cruzar  uma estrada elevada e bombardeada pelos foguetes dos defensores.

"O avanço do ELNA parou e os atacantes não conseguiram recuperar ao ponto de partida. Holden Roberto engajou suas reservas, mas ao meio-dia toda a sua força foi derrotada com pesadas baixas e quase todos os seus veículos destruídos, recordou o ancião.

As forças do ELNA iniciaram uma retirada desordenada e só puderam ser reunidas naquela noite. Percebendo que a batalha estava perdida, as tropas sul-africanas e zairenses retiraram-se, através do porto próximo de Ambriz e posteriormente evacuadas por seus respectivos governos.

Durante a batalha, Portugal renunciou às suas reivindicações à soberania angolana e retirou o resto do seu pessoal administrativo e militar colonial de Luanda. À meia-noite de 11 de Novembro, o MPLA proclamava a República Popular de Angola.

 "O ELNA havia sofrido uma derrota calamitosa em Quifangondo que Holden Roberto não conseguiu lançar nenhuma outra grande ofensiva nos dois meses seguintes. Suas forças foram gradualmente dispersas e destruídas pelas FAPLA e seus aliados cubanos”, referiu.  

As guerras de libertação em Angola

Segundo o académico, as transformações decorridas na Europa por causa da Primeira Guerra Mundial, em que os africanos participaram ao lado dos seus colonizadores, levou a fortificação dos apelos à abolição da escravatura. Com o fim da Segunda Guerra Mundial, que foi a mais devastadora e que os colonos, levou, mormente os ingleses e os franceses a aumentarem as promessas que estavam ligadas à concessão de autonomias aos territórios colonizados.

Neste âmbito, prosseguiu, Portugal, isento da Segunda Guerra, absteve-se de participar das novas regras introduzidas por outros colonos, facto que fez com que Angola e outras colónias portuguesas tardassem em merecer as independências que os outros colonizadores começaram a ceder na década dos anos cinquenta (50), arrastando-se para a década dos anos sessenta (60).

Em Angola, nos finais da década dos anos cinquenta (50) é que começam a surgir movimentos de libertação, nomeadamente, a Frente Nacional de Libertação de Angola (FNLA) e o Movimento Popular de Libertação de Angola (MPLA), tendo começado a concretizar as suas acções nos princípios da década de 1960, período em que surge um outro movimento de libertação, a União Nacional para Independência Total de Angola (UNITA).

Foi preciso uma luta, ou seja, guerras entre os movimentos e os colonos, que terminou nos finais da década de 1974, através de um conjunto de acordos que abriram portas para a Independência Nacional em 1975.

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