Cultura

Especial/11 de Novembro: Elias, o da barba, cantou para que as mães não chorassem

Elias dya Kimuezo reafirma que a música fez o papel de mobilizar, acautelar, encorajar e dizer verdades de episódios tristes que os angolanos estavam sujeitos a viver. Mas também confortar as mães que perderam os seus filhos a lutar pela terra e liberdade.

14/11/2020  Última atualização 15H40
© Fotografia por: DR
Meses antes do grito de Independência, nesse ano de 1975, que agora faz 45, uma mãe grávida de sete meses passava de cadeia em cadeia, à procura do marido que rumores davam como morto. É um dos episódios marcantes da história deste vulto da música popular, cujo trajecto sólido acabou por lhe valer o estatuto de "Rei da Música Angolana”. Esta mãe era Dona Susana Cadete, a esposa e companheira de luta do singular Elias DyáaKimuezo, que, traduzido do Kimbundu para o Português, seria "Elias da Barba”.
E foi devido à barba que este engano se consolidou. Chegou a ser encontrado um morto barbudo, numa das praias, num período em que Elias era um dos músicos na mira da PIDE. Todos queriam saber onde estava e o que é aconteceu. Depois, diziam que apareceu na Baía. Quem estava do outro lado, em Brazzaville, também solicitava informações. Dona Suzana marcava encontros, sempre defronte ao Hospital Américo Boa Vida. Lá estava ela, em pé. Só sabia que viria alguém, um nacionalista, decerto, trazendo novas do marido, que, na altura, estava na cadeia de São Nicolau.

Elias estava em casa, no Rangel, no dia 11 de Novembro, quando se tinha dado o grito da Independência. A festa estendeu-se por todas as ruelas, até por ruas de bairros elegantes, por onde um pouco antes os angolanos passavam menosprezados. Não saiu de casa, porque ainda sofria dos medos e horrores passados em São Nicolau. O sofrimento era muito fresco. Ficou a ouvir e a assistir em casa, inquieto com tudo o que lhe passava pela cabeça naquele momento, apesar do saboroso sentimento de dever cumprido, de a terra estar novamente nas mãos dos seus legítimos donos e a desenhar em sonhos o novo país.

Este relato é do próprio músico, em entrevista ao CULTURA, solicitada a propósito de mais um aniversário da Independência Nacional. Guiou-nos pelas memórias marcantes que tem guardadas, cujas palavras-chave são fotografias, sons, choros, cheiro a mar, sangue, Luanda, pátria e sorrisos, construídos com laivos de uma esperança sagrada, antes da eclosão da Independência, na sua gestação dolorosa e sangrenta, para pôr fim a um regime esclavagista que se arrastou por mais de três séculos.

Embora não reivindicada deste ponto de vista, Elias enfatiza que estas, as Independências, também foram uma das grandes contribuições dos africanos na elaboração do novo mundo e seus conceitos, que, no caso de Angola, teve a conquista derradeira a 11 de Novembro de 1975, à custa de um sem número de pessoas dispostas a dar a vida, como é o caso do nosso entrevistado, que soube misturar o artista e o cidadão em prol da luta.
Ida a São Nicolau

À época morava na Floresta, no antigo Picapau, nos arredores de onde hoje está o Centro Cultural e Recreativo Kilamba. Em 1975, quando a população se rebelou e invadiu algumas cadeias, onde tinham familiares presos pelo regime esclavagista português, partindo lojas e saqueando bens, Elias, numa conversa mantida na rua com alguns jovens, a fim de convence-los a não partirem as coisas, que, posteriormente, viriam a ser úteis, foi marcado pela PIDE. Os "tugas” viram-no a orientar os jovens sobre como proceder com a manifestação e julgaram que o músico fosse o líder político da rebelião. Como morava próximo ao local onde abordou os miúdos, não demorou muito para que a tropa o fosse buscar.

Ele e outros detidos ficaram aí no espaço do Hospital Prisão São Paulo e mais tarde foram recolhidos para a sétima, depois para a Marinha, rumo a São Nicolau. Ficou por lá cerca de seis meses. Na cadeia, ocorreram muitas coisas que lhe marcarão por toda a vida, como a fama que veio a correr de que o Rei da Música Angolana tinha aparecido morto numa das praias, arrastado pela correnteza do mar. Foi assim, um tanto a tentar quebrar este equívoco, dado que Elias continuava vivo e preso, que os tugas se viram obrigados a libertá-lo aos fins de-semana.Saía de São Nicolau e ía até ao Namibe. Regressava às segundas-feiras.  Essa "soltura” resulta da acutilância que o  programa Angola Combatente  chega a dar ao caso. 

Lembra os nomes de angolanos que o estenderam a mão e que fazem parte desta odisseia, como Batalha, do Giro-Giro, que trabalhava no Caminho-de-ferro, ou um senhor identificado apenas como Tio da Riquita. Outro era o Rui Boleto, um mais velho a quem trata por Loto, e outros que o cuidadoso exercício da memória não iluminou oportunamente. Elias dya Kimuezo continuou a relatar "epopeia”, dizendo-nos que não tinham água doce e que os alimentos eram cozidos com água salgada, naquela cadeia a beira-mar, onde o vento causava muito frio. Mesmo assim, a malvadez dos "tugas” era tanta, que obrigavam os presos a tirarem a manta. Os angolanos detidos apelidaram o lugar de "Tira a Manta”. Desta memória lhe são claros os nomes Carlitos, que era cobrador de autocarro, e Duque, irmão de Ambrósio de Lemos, antigo comandante geral da Polícia Nacional de Angola.
No Sambila nasceram amizades
Foi no Sambizanga onde travou amizade com José Eduardo dos Santos, Mário Santiago, Zarga, mais velho Kito e outros, no final da década de 1950. Elias já era músico de estima e estas figuras marcantes da história política angolana viram nele uma mais-valia para o grupo que existia, o Ginásio. José Eduardo dos Santos era o viola solo, num conjunto que contava com nomes como Pedro de Castro Van-Dúnem "Loy”, Faísca, Brito Sozinho, 59, Rufino, do Caminho-de-Ferro, e Mário Santiago.

Ginásio era o ponto de encontro dos conhecedores da política, que tinham a sagrada missão de despertar os demais. Lembra os nomes dos mais velhos Tchivenga, Franco, Rita Pitra. E a Independência era estrategicamente chamada de "camisa”. Quando cruzava com pessoas que traziam as novas de Brazzaville e de outros pontos onde a intervenção da política angolana se fazia sentir, era imperioso perguntar: "Como é, a camisa, já coseram?”.

Diógenes Boavida, Beto Van-Dúnem, Rui de Carvalho, Zé Maria, do Ngola Ritmo, e Mário Clington são alguns nomes que o conduziram para uma acção mais nacionalista e fizeram despertar no músico o ideário pátrio. É assim que ganha um certo desapego às músicas em Português, fruto dos conselhos que estes dirigiam ao músico. O Kimbundu passa a língua de eleição para o seu canto. Beto Van Dúnem e mais alguns nacionalistas já vinham de um desterro, tinham os olhos bem abertos e coragem amadurecida para a luta clandestina pela independência. Foi neste Sambila onde muitos encontros terminavam em reuniões e troca de ideias sobre a luta nacional, muitas vezes feitas em casa do pai de Mário Santiago, lá no lado de trás, onde havia uma casinha de chapa, e tudo passava despercebido.

Estava tudo camuflado, num misto de jovens do desporto e da música. Lembra ainda os nomes de Justino Fernandes e Ambrósio de Lemos:"A malta do Ginásio era mais de cobertura e mensagem de acto político”, relembra Elias. "Mamã Kudilé N'go”, volta ao canto, com a sua voz tocante, que era veículo de uma preparação psicológica para as mães que a qualquer altura podiam (e viam) os seus filhos partirem para a luta. Detalha que Maria Mambo Café chegou também a fazer parte do conjunto, um pouco para entender o casamento entre a luta e a música. Mas não foi só de histórias felizes:"Uns chegaram e outros ficaram pelo caminho”, recorda, já com semblante de tristeza. E salteia para o agora: "O país já tem uma vida e é preciso encorajar as pessoas que estão na condução do país; pedir para que as pessoas que deram a vida por esta terra não sejam esquecidas”, aconselha.
Kissanguela

Antes passa pelos Ilundu, lá para os idos anos 60, onde trava amizade com a distinta dançarina Olga Baltazar. Depois funda um conjunto de operários da Textang, que tinha a sede no Braguês, no Sambizanga, e só assim chega o Kissanguela."Sociedade dos filhos de Angola”, que ajudou a fundar e sugeriu o nome. O grupo fez da música um dos grandes trunfos da política de mobilização para a luta.

"São amizades que ficaram. Foram momentos de bonita coragem. Já morava no Marçal e era um bairro recheado de artistas: Fontinhas, Malé Malamba, Kim Jorge… Kilamba, Maxinde, Ginásio, Sunguila, Don Kixote foram casas que devem ficar sempre na nossa memória. Os grandes dias no Marítimo da Ilha e Dona Xica. Nos sábados, estávamos todos virados para a Ilha, Braguês, Maxinde. Só havia duas grandes bailarinas: Olga Baltazar e Alba Clington”, refaz, em síntese, a fotografia de um período que antecedeu à independência.
Minha Mãe, não chore…

Deste período, o registo Mua Lunga marca-o pela forma como a compõe. Foi composta em alto mar, quando ia para Lisboa, em 1969. Fala da trajectória dos 12 dias passados em alto mar. Ficou desesperado por estar tanto tempo sem ver as árvores, terra e capim, a que estava habituado. Foi a primeira vez que viajara ao exterior. Ia numa caravana para fazer-se presente num festival em Santarém (Portugal), cumprindo um convite formulado pelo SITA, para representar a Província de Angola. Integravam também a Rebita do Velho Geraldo, Os Homens do Hungo da Muxima, os Chinguvo do Moxico e a Marimba de Malange. Muitas músicas deixaram-no no encalço da PIDE. Era difícil entender, mas aquela, que dizia "minha mãe, não chore, que eu vou ao Maquis, mas vou voltar, mesmo que voltar cego, só de tocar teus seios, hei-de reconhecer que és a minha mãe”, fez questão de repassar, durante a entrevista.

Reafirma que a música fez o papel de mobilizar, acautelar, encorajar e dizer verdades de episódios tristes que os angolanos estavam sujeitos a viver, mas também confortar as mães que perderam os seus filhos a lutar pela terra e liberdade. Às vezes, quem o acompanhava era o seu amigo, "Próprio Nini”, de seu nome Alves Neto. Muitas notificações eram deixadas no bar Flor da Brigada. Aí mesmo, neste bar, houve bons momentos de conversa e música com Dominguinhos, do Dimba Dya Ngola, recordando o Semba ter sido o ritmo da mensagem, mas dividia espaço com a música brasileira, com Roberto Carlos, e congolesa, com Francó.

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