Política

Especial/11 de Novembro: A Independência pelo olhar de fotógrafos

No dia em que Angola ficou conhecida perante África e o mundo como Nação livre e independente do domínio português, um grupo de repórteres fotográficos, composto por angolanos e estrangeiros, testemunhou, “in loco”, os momentos derradeiros que contribuíram para que a paz e a tranquilidade que vivemos hoje fosse um facto.

13/11/2020  Última atualização 14H50
© Fotografia por: DR
Desde a tentativa de penetração das tropas da FNLA, a partir do Kifangongo, apoiada por zairenses, e do avanço da UNITA, do Ebo, província do Cuanza Sul, com suporte dos sul-africanos, fotógrafos reportaram e deram a conhecer ao mundo, através das imagens, momentos cruciais que o pais viveu até ao dia 11 de Novembro de 1975.  Mario Antonio Roças e Carlos Alberto Guimarães integraram o grupo de sete fotógrafos, na altura pertecentes ao Departamento de Fotografia do Ministério da Informação, do então Governo de Transição. São dois dos últimos três sobreviventes que estiveram destacados na cobertura dos acontecimentos que antecederam e culminaram com o dia da proclamação da Independência de Angola.    

Carlos Alberto Guimarães, fotógrafo desde 1963, revela que, a partir do mês de Outubro, Luanda estava cercada a Norte, em Caxito, pela FNLA, coligada com forças do Zaíre, e a Sul, no Ebo, província do Cuanza Sul, a UNITA, unida às forças sul-africanas. Explica que, quanto mais se aproximava o dia da Independência, mais se ouviam as bombas lançadas pelos inimigos, a rebentarem junto à refinaria e em noutros bairros periféricos de Luanda.De 72 anos de idade, Guiumarães recorda que, na véspera da Independência, devido ao ambiente que se vivia, vários profissionais de imprensa abandonaram o pais, entre os eles fotógrafos estrangeiros.

"Diante da situação, juntámos os repórteres fotográficos que tinham ficado e criou-se o Departamento de Fotografia do Ministério da Informação, do então Governo de Transição, que era composto por Alfredo Saraiva, Carlos Guimarães, Lucas de Sousa, Augusto Bernardo, Fernando Vieira, Mário Roças e Veríssimo da Costa. Não havia sossego, pois, trabalhávamos para o Governo de Transição e tínhamos que reportar os confrontos que impediam a entrada do inimigo, a partir de Kifangondo e no Ebo.  Fazíamos uma escala e íamos às duas frentes. Trabalhávamos destemidos, porque tínhamos certeza de estar no lado da razão”, disse.O grupo de sete repórter fotográficos tinha também a missão de fornecer material aos jornais: Província de Angola, Diário de Luanda, Jornal Comércio, assim como ao Ministério das Relações Exteriores, que tinha que o enviar para a Organização da União Africana (OUA) e a outras organizações internacionais, no sentido de dar a conhecer o que acontecia em Angola, com grande referencia aos massacres de São Pedro da Barra e em algumas zonas rurais, protagonizados pela FNLA e UNITA, na altura.

"O camarada Neto chega a Luanda a 4o de Fevereiro de 1975, num domingo. Já nas vésperas da Independência, no dia 3 de Novembro, fomos chamados para fazer a foto oficial do Presidente Neto, pois havia indícios da chegada de alguns convidados. O Camarada Presidente e família estavam à nossa espera e conhecia-nos todos pelos nomes, porque o acompanhamos desde a sua chegada triunfal a Luanda. Fizemos a foto oficial, depois com a família e, em seguida, dirigiu-se aos seus aposentos. Usando uma camisa militar, que dizia ser de sorte, pediu-nos para fotografá-lo mais uma vez”, conta.Segundo o veterano fotógrafo, o Presidente Neto estava sereno e bem disposto, porque havia informações de que os tanques T33 e os terríveis Mona Caxito estavam a ser usados com grande mestria pelos combatentes angolanos, para travar o avanço dos opositores.

Carlos Guimaraes conta que a foto escolhida para o quadro oficial foi entregue no dia 8, para uma moldura de 80 por 120 centímetros, para ser colocada na sala protocolar do aeroporto, onde iriam passar os convidados."Na época, em 1975, não havia plotters grande e automáticos. A impressão e revelação era feita manualmente, em convertes grandes, onde a foto secava por si. Tivemos que fazer o mais rápido possível e, mesmo assim, a foto foi colocada ainda húmida na sala do protocolo, duas horas antes de começarem a chegar os convidados”, salientou.Carlos Guimarães disse que as equipas que faziam coberturas entre as frentes de Kifangondo e Ebo tinham à disposição um Jeeps Suzuki. Eles trabalhavam atrás das linhas de combate, de segunda a sábado, e sempre que houvesse matéria para publicação, a equipa vinha à redação, a qualquer momento.

O grupo que reportava as imagens que perduraram na historia de Angola foi chefiada por Alfredo Saraiva, posicionando de forma estratégica Carlos Guimarães, num palanque para fazer a panorâmica e outras imagens. Lucas de Sousa e Fernando Vieira estavam na tribuna e Augusto Bernardo e Mário Roças achavam-se junto ao local onde se iria içar a Bandeira Nacional e "fazer” a chegada dos horóis do 4 de Fevereiro, que fizeram a guarda de honra à Bandeira Nacional.Como chefe de equipa, Alfredo Saraiva ficou com a missão de retratar os movimentos do Presidente na direcção frontal, enquanto Veríssimo da Costa andava de carro pelos bairros de Luanda e zonas de combate, registando os confrontos e a vibração do povo, expectante à chegada da liberdade. Entre os dias nove e 11, conta Carlos Guimarães, havia uma grande euforia e receios no povo, devido aos fortes rebentamentos que se faziam sentir, à medida em que o dia se aproximava.

"As pessoas estavam assustadas. Se o inimigo conseguisse romper as barreiras impostas  a partir de Kifangondo e no Ebo, Luanda estaria no meio de fogo e seria um desastre. De seis a 10, dia e noite, a cobertura era total no Aeroporto 4 de Fevereiro, para a chegada dos convidados”, lembra.Natural do bairro Operário, Carlos Guimaraes recorda que, na noite de 10 para 11, devido o intenso trabalho e ansiedade, não tiveram tempo para o devido descanso.

"No momento em que o Presidente Neto diz: ‘Proclamo perante a África e o Mundo a Independência da República Popular de Angola’, a emoção tomou conta de nós e, no momento, não sabia se fotografava, gritava ou se apenas chorava. Foi um momento inexplicável para nós, pois tínhamos que estar concentrados ao trabalho de reportar para o mundo o momento mais histórico do nosso pais, com imagens que viriam eternizar-se para na história de Angola” referiu.Carlos Guimarães acrescentou que as fotos que documentam a proclamação da  Independência são da autoria dos sete elementos, entre eles quatro já falecidos, enquanto Mario Roças e ele próprio exercem ainda moderadamente a arte. Alfredo Saraiva vive em Portugal.

Os dias que se seguiram

Mario Antônio Roças, um dos integrantes dos sete elementos, disse que, depois da proclamação da Independência, na mesma noite, o povo seguiu, a pé, o Presidente Neto que ía numa viatura, ate ao Palácio do Povo, actual Palácio Presidencial.Conta que, nas primeiras horas do dia 11, no Governo de Luanda, actual GPL, aconteceu a investidura oficial do Presidente António Agostinho Neto. Depois, foi hasteada, no largo do Palácio do Povo, a bandeira Nacional, ao que se seguiu uma sessão fotográfica entre o Presidente Neto e os representantes dos governos convidados
. Às 17 horas do mesmo dia, aconteceu no Palácio do Povo o jantar de confraternização, oferecido pelo Presidente Neto aos convidados. Às 10 horas do dia 12 de Novembro, aconteceu a tomada de posse do primeiro Governo da República de Angola. Depois de 11 de Novembro, Mario Roças passou a fotógrafo oficial do Presidente Agostinho Neto, sendo um dos primeiros na função.  

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