Cultura

Escritora e jornalista afro-americana partilha segredos da narrativa escrita

Analtino Santos

Jornalista

Rachel Ghansah, escritora e jornalista afro-americana, partilhou experiências em conversa com escritores angolanos na passada terça-feira, no auditório da União dos Escritores Angolanos (UEA), numa iniciativa da Embaixada dos Estados Unidos da América

26/06/2022  Última atualização 10H17
© Fotografia por: Luís Damião | Edições Novembro

A escritora e jornalista Rachel Ghansah falou do seu processo criativo, fortemente marcado pelas questões raciais, a diáspora, a educação e outras. Mostrou ser conhecedora do país, ao falar dos Kiezos, de filmes e de outras referências não mediatizadas. Agradeceu a hospitalidade dos angolanos e realçou algumas semelhanças com os afro-americanos.

Na primeira parte da sua comunicação, Rachel Ghansah falou da infância em Indiana e Filadélfia, da forte presença da mãe, uma professora, e do pai ghanense, a experiência pelas redacções jornalísticas e a aposta pelo ensaio enquanto género literário. Falou da sensação de ter escrito o perfil de   Dylan Roof, um branco que assassinou nove pessoas dentro da Igreja Emanuel AME em Charleston.

A reportagem valeu-lhe o Prémio Pulitzer. Segundo Rachel, foi um misto de introspecção e um olhar pelos aspectos históricos e sociais por trás destes assassinatos com pendor racial. Também partilhou a experiência de ser uma mulher negra numa sociedade onde a construção social e estrutura social permite o surgimento de actos semelhantes. O poder da educação e da literatura foi outro ponto focado, assim como a postura de alterar as narrativas africanas na imprensa. O perigo das traduções das obras literárias e do estudo de autores africanos nas universidades também mereceram a atenção de Rachel Ghansah.

Com uma plateia interactiva e provocadora, a visitante fechou a comunicação ao som de "Kialumingo” de Urbano de Castro e, em inglês, disse: "Eu gosto de músicas antigas mesmo na América (I love the old songs, even in America)”.

 

Pesquisar a história do povo africano

A secretária de Imprensa Cultura e Educação da Embaixada americana, Cynthia Day, justificou a presença de Rachel Ghansah da seguinte forma: "não foi um convite inicial nosso, na verdade era ela mesma que queria viajar para Angola e nós tivemos a oportunidade de a encontrar e desta forma surgiu uma oportunidade, que nunca poderia acontecer tão cedo. Estamos muito orgulhosos porque Rachel está entre nós. Esta é apenas  uma parte da visita de trabalho dela, que é investigar e pesquisar a história do povo africano na América”.

Quanto ao intercâmbio, garantiu que vai continuar, considerando que "este foi um passo de uma longa história”. "Começamos a estar interessados em divulgar e saber mais sobre a parceria que existe entre os dois países, especificamente entre a cultura americana e a angolana”, sublinhou.

"Foi interessante, porque tivemos a oportunidade de ouvir os vários pontos de vista dos escritores angolanos essencialmente relacionados aos assuntos abordados pela escritora e também da relação entre os dois países”, concluiu.

 

"Experiência interessante”

Gociante Patissa, membro da União dos Escritores Angolanos ligado à área do intercâmbio, disse que o encontro foi "uma experiência interessante”. "Eu, particularmente, espero que seja o início de uma relação de reciprocidade entre os dois países do ponto de vista da diplomacia cultural. A nossa casa está sempre aberta e a internacionalização é uma ambição antiga que já se experimentou através de antologias mas a literatura é, sobretudo, em torno das relações humanas e relações sociais”, sublinhou.

O autor angolano insistiu na ideia de que o intercâmbio com a escritora afro-americana seja o início de uma relação em que as duas partes possam cooperar com equidade, para que não seja apenas um lado a receber a cultura da outra realidade. "Foi interessante, não apenas para os membros da UEA, mas para a comunidade estudantil também.

Considerou que foi também um input para o aperfeiçoamento da língua inglesa, que é um idioma internacional.

Para João Fernando, admitido recentemente na mais antiga associação do pós-independência, o intercâmbio "foi uma boa experiência”. "Falamos sobre a sua obra, a sua pesquisa e abordamos também questões de direito” disse o autor angolano, lamentando a fraca participação dos membros da UEA. No seu entender, devia haver também um intérprete que pudesse traduzir a comunicação do inglês para o português.

O historiador e crítico de arte Adriano Mixinge, igualmente membro da UEA, corrobora da ideia de que foi uma "experiência interessante”, sublinhando que "houve uma óptima interacção entre os escritores angolanos e a afro-americana”. "Ela veio para aqui de um lado exercitar a língua e por outro para partilhar como o negro americano aborda as questões de raça, diáspora, violações contra mulheres, temas nem sempre discutidos por nós”,

Destacou a valorização das línguas africanas por parte de Rachel Kaadzi Ghansah, a qual considerou alguém "muito afável”. "Ela veio a Angola para fazer um trabalho sobre o Reino do Ndongo. Deu para ver que leu muito a nossa imprensa, a tal ponto que conhecia os nossos nomes. É muito aberta ao mundo e conversou abertamente. Foi bom, porque só com a troca de ideias é que podemos aprender um pouco do lado do outro. Ela disse que curte muito a música dos Kiezos, nós fizemos uma prévia e vimos que ela conhece bem o cinema angolano: Sarah Maldoror, António Ole. Foi uma surpresa para mim a forma como ela nos vê e a forma como eu a via  nas redes sociais”, concluiu.

Israel Campos, jornalista angolano a residir no Reino Unido, disse também que foi "um evento interessante”. "É sempre agradável olharmos para nós através dos olhos dos outros. Acho  que as pessoas de fora têm sempre perspectivas diferentes e ela, claro, como afro-americana tem uma forte ligação com África - o pai é do Ghana - e sente-se em casa em Angola”, referiu.

Destacou o facto de a jornalista americana se sentir bem em Angola e considerar os angolanos um povo acolhedor. "Para nós é um bom sinal e dá-nos de facto uma perspectiva diferente. Às vezes, como pessoas que vivemos no país temos uma visão particular também muito com base nos problemas do dia-a-dia, então é sempre importante e positivo termos a oportunidade de ouvirmos outras pessoas, outras visões, outras perspectivas sobre aquilo que nós somos e o nosso modo de vida”, sublinhou.

Disse que como africano na diáspora, tem uma relação problemática pela forma como as pessoas, sobretudo do Ocidente, olham para os povos africanos. "Há esta tendência muito grande de se generalizar, ou seja, tratar-se África como se fosse um país e não um continente, e isto, na minha perspectiva, acaba por desumanizar um bocado as próprias individualidades dos povos porque cada povo tem a sua  própria particularidade, o seu modus vivendi. Só mesmo em Angola há diversidade cultural”, referiu.

Considerou importante encontrar-se ou olhar formas que possam, de facto, mudar esta narrativa que o Ocidente constrói e construiu durante muitos anos sobre a África e os africanos. "Acho que a literatura e o jornalismo desempenham papéis fundamentais para a desconstrução desta visão. A literatura, através de histórias que possam mostrar de facto esta angolanidade e África nas mais variadas vertentes, sempre pautando pela questão da individualidade, porque a pessoa deve ser tratada e vista como tal e não com um povo africano”, destacou.

 

Perfil breve

Nascida em 1981, Rachel Kaadzi Ghansah é uma jornalista e escritora afro-americana, considerada uma das mais brilhantes ensaístas do seu país. Trabalhou em ensaios para perfis de estrelas afro-americanas do Hip Hop como Kendric Lamarr e Missy Elliot, o artista plástico Jean-Michel Basquiat e a escritora Toni Morrison. Em 2017, com o perfil do supremacista branco e assassino Dylan Roof, foi vencedora do Prémio Pulitzer na categoria Redacção e com a mesma peça ganhou o Prémio da Revista Nacional. Foi finalista do National Magazine Award em 2014, pelo perfil do comediante Dave Chappelle.

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