Entrevista

Escritor Ismael Mateus: “Se eu entrar num partido político, na semana seguinte serei expulso”

Analtino Santos

Jornalista

Em vésperas de lançar três livros no mercado, “Diário de Amores e Mentiras”, “Vidas de Mafumeira” e “Recados para os meus amigos políticos”, fomos ao encontro do escritor Ismael Mateus para uma conversa em torno da sua obra. A conversa serviu ainda de pretexto para outras abordagens sobre o país que celebra 47 anos de Independência.

20/11/2022  Última atualização 07H23
© Fotografia por: Arsénio Bravo

 O seu   olhar sobre a literatura, a comunicação social, a cultura e outras paixões foi apresentado pelo autor nas três obras a serem lançadas na próxima sexta-feira (25) a partir das 17 h 30 no Palácio de Ferro, em Luanda, numa organização da Tamoda Editora e da NHConteúdos.  Personalidade agradável de entrevistar porque aborda as questões com rara frontalidade, Ismael Mateus  afirma: "As mesmas pessoas que dizem que o livro é caro são as mesmas que todos os fins de semana vão (...) pôr unhas de gel, gastam em tranças, cervejas e vinhos”. Indagado da razão por que não entra num partido político, responde: "Não milito num partido político porque a partir do momento em que entrar, corro o risco de perder o meu espaço de autonomia”. E vai mais longe: "Se eu entrar num partido político, na semana seguinte serei expulso”

 

Ismael Mateus, receba as felicitações, porque não é fácil lançar três livros numa sentada. Essas criações são resultado da fase pandémica?

Não propriamente. Eu,  na verdade, tenho por hábito trabalhar em mais de um livro ao mesmo tempo. O que acontece é que nunca tinha lançado antes nestas condições. Por exemplo, quando eu estava a escrever "Laços de Sangue,” também escrevi "Cinco Dedos de Vida”, por isso é que os lançamentos estão muito próximos um do outro. Ou seja, tem sido recorrente porque ao escrever o romance, para ganhar fôlego,  às vezes tenho necessidade de fazer pausas e faço isso escrevendo contos. Por, isso, mais uma vez, enquanto escrevia "Diário de Amores e Mentiras,”  também arranjei tempo para fazer "Vidas de Mafumeira”. Quanto  à colectânea, não foi preciso muito exercício, porque senti que era interessante pegar nalguns textos, sobretudo os de política, não todos, porque tenho escrito sobre várias coisas desde o social, cultura, a comunicação social, a política e outros... Entendi que a questão política, tendo em conta esta polarização, era importante trazer neste formato. Em vez de fazer como o fiz em "Cidadão Ismael”, em dois volumes, apresento textos dos últimos dois anos, sendo 90 por cento publicados no Jornal de Angola.

 

Agora parece que é o seu tempo de escritor, com a publicação em breve dos três livros...

Meu projecto de vida é mesmo este, ir às coisas que fui fazendo e concentrar-me mais na escrita. Espero ter disposição física e saúde para isso. Se tiver saúde, teremos mais livros.

 
Quando olha para o panorama da literatura angolana, o que é que mais o inquieta? E que o satisfaz?

Em relação à literatura no nosso país, eu acho que o maior problema é que não temos uma política de leitura. O segundo maior problema é o facto de nós termos os escritores acantonados em guetos, ou seja, há os marginais, como o Ismael Mateus que não está aqui para nada nem sequer é convidado para encontros entre escritores, depois há os pequenos grupos que estão em todo lado e fazem tudo, estes representam os escritores angolanos. Mesmo em termos de leitura, colocaram a ideia de que tem de ser os clássicos e que quem não é clássico não merece ser lido. Toda esta estrutura, esta falta de política do livro, toda a falta de pensamento nacional que possa abraçar a nossa diversidade cultural, porque não podemos todos escrever do mesmo modo,não podemos todos ficar a espera de sermos reconhecidos em Portugal. Nós devemos ter públicos diferentes e esta diversidade deve ser reconhecida e infelizmente não é assim para nós. Eu tenho os meus leitores porque os tenho, mas não sou lido em Portugal, então não conto, a nossa lógica é esta infelizmente. O terceiro problema é o papel da União dos Escritores Angolanos. Eu acho que devemos repensar a mesma termos uma literatura forte é preciso recriar a União, tirar um bocado esta componente política. É evidente que tem um peso político porque foi criada por Agostinho Neto, mas é preciso modernizar, criar outras formas de organização. Se calhar é preciso encontrar novos objectivos, nova missão, novos valores. Então, com este processo de refundação, nós vamos conseguir dar passos. A última questão que levanto tem a ver com a promoção da leitura, a criação de círculos de leitura, de fundos de leitura, bibliotecas, de espaços onde se possa promover o livro. Não é possível nós termos literatura sem levarmos em conta estas quatro áreas de intervenção que aqui citei.

 

Insisto: o que o satisfaz?

Pouca coisa. Enquanto autor tenho a preocupação de continuar a escrever e felizmente vejo que muitos dos meus colegas fizeram a mesma opção, apesar de todas as dificuldades. O RoderickNehone continua a escrever, o João Tala, o Luís Fernando, o José Luís Mendonça, ou seja, as pessoas vão continuando, apesar das dificuldades. Fazer um livro é um caso sério. E apesar de estas pessoas continuarem a escrever, o preconceito em relação a compra do livro continua grande e a primeira coisa que as pessoas dizem é que está caro. Mas isto é relativo. Quanto é que as pessoas gastam num mês? Isto é um problema de opção e de educação das pessoas, sobretudo dos pais que querem educar e preparar os seus filhos para uma sociedade diferente. Penso que a nossa mentalidade ainda não cresceu o suficiente para não deixarmos de comparar o livro a outras coisas da vida e acharmos que comprar um livro é caro. Não, é um investimento fundamental, sobretudo ao nível das crianças, porque as mesmas pessoas que dizem que o livro é caro são as mesmas que todos os fins-de-semana vão  pôr unhas de gel, gastam em tranças, cervejas e vinhos. Esta questão precisamos encarar com muita seriedade, porque é com leitura que ganhamos conhecimento, é por via dos livros que surge um enriquecimento da capacidade intelectual. Por isso é que temos pessoas com grandes canudos  e não sabem escrever nada nem falar bem. Portanto, não têm cultura de leitura. Não têm palavras suficientes no seu léxico. Isto é um problema que nós precisamos de reparar em vez de estarmos sempre a dizer que o livro é caro.Por exemplo, os nossos pais eram mais pobres do que nós hoje, mas eles fizerama opção de proporcionar este conhecimento aos filhos e é isso que os pais precisam encarar. Hoje muitas pessoas têm dificuldades, mas apesar disso juntam um pouco para pôr os filhos num colégio melhor. É esta mentalidade que tem de prevalecer em relação ao livro.

 

Como escritor tem acompanhado a Academia Angolana de Letras?

Estou distante da Academia Fui convidado uma vez para falar da minha obra e devo reconhecer que senti-me muito honrado. Mas sinceramente não sei muito bem o que faz e qual o peso que tem.  Ainda estou expectante, sou um espectador que está atento  a ver como isto vai evoluir, mas sou daqueles que acredita que este é um papel que devia ainda ser exercido pela União dos Escritores Angolanos, que como disse tem de passar por uma refundação.

 

Há tempos alguém definiu o Ismael Mateus como um dos paradigmas do intelectual angolano. Sente-se confortável com essa definição?

Não sei o que isto quer dizer, se é um elogio ou uma crítica.  Não entendo que exista um paradigma do intelectual, não faço a mínima ideia do que se trata ou do que está a referir.



"Quero ter a vantagem de continuar a dizer que não estou de acordo”

Enquanto opinionmaker com espaço de actuação tanto na media convencional como nas redes sociais, sente-se verdadeiramente livre naquilo que opina?

Nunca tive problemas, até pela minha forma de ser eu falo normalmente o que penso e é fácil em qualquer uma das circunstâncias dizer o que sinto. Sou sempre a mesma pessoa, incluindo nos relacionamentos, portanto é a minha forma de estar, não muda nada.

 

Na media pública nunca teve receio de publicar algo? Alguma vez foi censurado?

Não. Eu escrevo regularmente no Jornal de Angola e devo confessar que quando recebi o convite já há algum tempo, pelo Victor Silva, fiquei meio receoso, pensando que isso viesse acontecer. Mas o Victor deixou-me muito à vontade em relação a isto. Já mudaram a direcção e não tenho tido nenhuma razão de queixa. Nunca tive um telefonema sequer a dizer... o que acontece muitas vezes é amigos meus ligarem-me dizendo que gostaram ou não, mas ministros, PCA ou mesmo editor ligarem... nunca tive esta experiência. Estou à vontade. Tanto é que fui pedir patrocínio para publicar o livro de crónicas.  Acontece  muitas vezes as pessoas dizerem "mas isto és tu”, mas eu não sou diferente dos outros, não tenho rigorosamente nada especial.

 

Qual é o intelectual vivo que considera verdadeiramente grande, exemplar, em termos não só académicos mas de cidadania?

É uma pergunta difícil. Acho que as pessoas de um modo geral têm excelentes prestações. Gosto, por exemplo ,  do José  Octávio Serra Van-Dúnem, do Paulo de Carvalho, do Virgílio Coelho e outros. O problema dos nomes é que sempre a gente deixa pessoas de fora. Sou uma pessoa que  a companha a vida pública, por isso estas pesoas todas, com grande actividade pública, eu acompanho, sigo, leio,até para podermos abrir os horizontes próprios das nossas opiniões,ouvirmos outras para depois formarmos a nossa. Vivo muito disso, de absorver também as ideias dos outros. A riqueza está aí, porque o leque de pessoas que me influencia é muito grande.

 

Pai, esposo, filho, escritor, professor universitário, influenciador digital, consultor, conselheiro da República...Sendo tudo isso, em qual dessas facetas se empenha com mais sentido de missão?

Postas as coisas nestes termos até pode parecer que faço muitas coisas ao mesmo tempo. Há coisas que com o tempo, ultimamente, tenho vindo a abandonar. Por exemplo, agora já não estou a dar aulas. Depois de tantos anos de participação na formação de novas gerações, acho que já dei a minha  parte.  Hoje quando chego à Faculdade e olho para um conjunto de novos professores que foram meus alunos acho eu que a minha missão foi cumprida, que  não preciso continuar porque já fiz  a minha parte. O mesmo acontece aos mais vários níveis. Eu tinha um programa de música africana e já deixei. Penso que também cumpri a minha parte. Quando começamos não havia tanta gente a tocar este tipo de música. Hoje existem muitos programas. Hoje ainda vou à televisão,  mas penso que num futuro breve também isto vou largar, já diminui consideravelmente, mas é um processo de transição para deixar espaço para os mais novos. Há uma nova geração, novas figuras, então devemos dar oportunidades. Nós nos  queixávamos da política daqueles mais velhos do autocarro cheio, dizíamos que no nosso país os mais velhos meteram-se num autocarro que estava sempre cheio porque ninguém saía, portanto não havia espaços para os mais novos... e nós agora não podemos fazer o mesmo, devemos sair, deixar espaço para entrar nova gente.

 

Enquanto cronista volta e meia traz à tona questões de moralidade pública. O país está muito mal, neste aspecto?

Eu não tenho esta visão. Faço críticas em termos de reflexão. Há problemas que o país tem e que são os mesmos de outros países. São os problemas para a nossa fase de crescimento, como a corrupção, a responsabilidade do cidadão em respeitar a Polícia, e outros. Tenho um olhar crítico para estes factos, mas do ponto de vista do crescimento do país, olho para isso com serenidade, não digo com aquela ideia de desespero, longe disso, não é esta visão que tenho.

 

Como conselheiro da República sente que os seus conselhos são apreciados e tidos em conta?

É claro que não vou falar sobre isso. Penso que há uma relação entre o conselheiro e o aconselhado. Se eu fui reconduzido, estou a partir do princípio que está satisfeito e no dia em que não for reconduzido, vou partir do princípio que ele  não estásatisfeito. Acho que é tudo. Não faria sentido eu estar a falar do que aconselhei ou deixei de aconselhar, acho que é de uma deselegância que não podemos ter.

 

Tendo uma propensão para a política, por  que não milita num partido político?

Não tenho uma propensão para a política. Eu gosto de escrever sobre a política, gosto de pôr opinião sobre a política. Sou um cidadão, tenho direito a isso. Não milito num partido político porque a partir do momento em que eu entrar, corro o risco de perder o meu espaço de autonomia. E no dia em que eu entrar num partido político, tenho de concordar com o líder, bater palmas e sobretudo perder o meu espaço  de autonomia, o que não quero nunca. E não podem me obrigar a dizer "camarada, você tem de fazer ou dizer já que és dos nossos, tem de concordar com o líder”. Tenho toda a certeza que os partidos políticos são válidos. Mas para pessoas como eu, que pensam fora da caixa, que não querem submeter-se à disciplina partidária, a sociedade tem de nos aceitar e quero ter a vantagem de continuar a dizer que não estou de acordo. Por exemplo, escrevi uma coisa no meu facebook, pelo facto de não ser possível nós estarmos a comemorar 47 anos de Independência Nacional e ninguém falar do José Eduardo dos Santos. Não pode. E este direito eu tenho de ter como cidadão e se eu estiver na estrutura de um partido, tenho de me subordinar ao partido, e à  disciplina e nisto eu não alinho. Já fui convidado a entrar em partidos políticos, mas declinei e agora até já nem insistem. Não é a minha onda e tenho até medo. Se eu entrar num partido político na semana seguinte serei expulso,  irão dizer "o camarada chegou, as nossas regras não  são estas”.


"O Estado devia imediatamente vender a TV Zimbo”

Um dos temas recorrentes dos seus escritos é a comunicação social. Afinal o que o preocupa no sector e no seu funcionamento?

Eu não falo da comunicação social sem motivos. Sou jornalista de profissão e uma pessoa como eu, quando entra numa profissão com 17 anos, fica com as marcas todas. Dei muitos anos à comunicação social como jornalista e não só, fui professor de Ética, durante mais de vinte anos, então tenho a obrigação de falar sobre as coisas. Fui o primeiro presidente da comissão deontológica do Sindicato dos Jornalistas e muitas coisas me obrigam a tomar posição sobre a questão da ética. Agora vamos à pergunta. Em primeiro lugar, preocupa-me a falta de autonomia editorial dos órgãos. Hoje já deveríamos estar numa situação em que as decisões editoriais deveriam ter mais autonomia. E o que isto quer dizer? A escolha do chefe de redacção deveria ter a participação dos jornalistas. Os órgãos devem ter conselhos de redacção,  a escolha do director de Informação tem de passar pelos jornalistas, se calhar passar também pela ERCA. Então, esta autonomia deve ser assegurada. Não podem ser só os Conselhos de Administração, o representante do patrão, a determinar o chefe de Redacção e o director de Informação. Este é um ponto estratégico fundamental. Temos de crescer, temos de evoluir para isso. Por outro, evitar a excessiva concentração de meios na mão no Estado.  Isto é um problema para mim. Acho  que o Estado devia imediatamente vender a TV Zimbo e um conjunto de meios que tem. A excessiva concentração de meios é prejudicial e tem a ver não só com os novos órgãos mas com os que já existem. Por que e que a Rádio Nacional de Angolatem 18 emissoras provinciais e não sei quantas em municípios? Não é possível isto tudo. Penso que as emissoras provinciais podem ser órgãos privados ou mistos, sendo 50 por cento da RNA e a outra parte de empresários locais. E isto vai trazer um dinamismo em termos financeiros, mas também em termos da promoção e divulgação das elites e empresários locais. Estamos num nível da comunicação social em que ninguém discute nada com ninguém e cada vez que a malta pensa discutir as pessoas julgam que queremos cargos, ser ministro ou aquilo. É difícil, mas deveríamos reflectir sobre o que é estratégico para a comunicação social. Devemos encontrar espaços para discutir isso. A nossa preocupação devia ser ter capacidades para discutir isso. Outro ponto é a ERCA, que não pode continuar a ser um retalho de pontas. Deveríamos ter a capacidade de discutir o papel da Comissão da Carteira, devemos ser mais activos. É um conjunto de coisas que estamos a puxar com a barriga e esperamos na verdade não parar. Eu até rio-me quando oiço pessoas a falarem de progressos da comunicação social, mas falam apenas dos progressos tecnológicos. Porque não falam dos progressos em termos editoriais? Porque é aí onde há poucos avanços, exactamente porque não tivemos capacidade para trazer as componentes de maior autonomia, maior liberdade, maior profissionalismo. Estas são as preocupações que tenho em relação a comunicação social.

 

A actual arquitectura da Comunicação Social na sua opinião não é a que melhor se adequa ao país, neste momento?

E isto tenho afirmado nos meus artigos. Há muito tempo que sou um critico do modelo actual da Comunicação Social. Nãoconcordo mesmo com  este modelo actual, acho que para uma determinada etapa cumprimos e agora acho que é preciso ter mais ousadia e coragem para a reforma na Comunicação Social. A reforma de dar mais autonomia aos projectos editoriais e libertar os projectos que estão concentrados hoje, desnecessariamente, no Estado. E até incentivar o aparecimento de novas formas de gestão. Devemos rever a questão da Comunicação Social ao serviço da Cultura, é uma questão estratégica, agora que estamos na onda de criarmos a Rádio Cultura. Mas como estes novos órgãos estão a contribuir para divulgar a diversidade da nossa cultura? Qual é o seu papel na promoção da diversidade? Estava a pensar nisso, estava na questão da  literatura... Como é possível que uma pessoa como eu, com doze livros no mercado e poucas pessoas me conhecem como escritor? Por exemplo, o Jornal de Angola há quanto tempo não me faz uma entrevista e faz agora porque estou a lançar uns livros? Devia ser,com toda a falta de modéstia, um autor mais presente. E não falo só de mim, falo de um Luís Fernando, José Luís Mendonça e outros que estão aí. Agora, quando vamos fazer contas, há uns tantos que volta e meia estão lá. Será que eles são mais angolanos do que eu? Só eles é que têm o direito de verem a sua obra promovida? Porque quando alguém dá entrevista está a promover a sua obra. Por que é que só eles podem ir não sei aonde a representar o país ou a União dos Escritores e eu não posso? Alguém alguma vez perguntou-me se tenho dinheiro para ir às minhas próprias expensas e dizer "paga só o bilhete e vai”? E isto é importante porque depois tem questões ligadas ao intercâmbio com outros autores, promoção internacional... Estas estratégias estão relacionadas com não apenas a União dos Escritores, também com  o Ministério da Cultura e devem ser abordadas nas entrevistas.

 

Teve responsabilidades no Sindicado dos Jornalistas. Como encara hoje esta instituição?

Está muito bem entregue. O TeixeiraCândido tem feito um trabalho espectacular. O seu desempenho é bom, espero que ele prepare a sucessão e que não cometa o erro de ficar mais tempo do que é devido. As instituições são muito possessivas e depois há um espaço em que elas deixam de ser já públicas e passam a ter misturas com o privado. Estou a falar de um modo genérico, mas eu gosto muito do trabalho do Teixeira Cândido. Acho que mesmo do ponto de vista público ele tem conseguido manter o sindicato dentro daquilo que são os princípios defendidos pela instituição. Revejo-me no trabalho que ele faz, acho que estamos bem representados.

 

No seguimento das celebrações da Independência escreveu recentemente que não há valorização do mérito...

Não se reconhece suficientemente o mérito. É admirável um indivíduo que há dez anos tinha um Hiace e hoje tem vinte, com cinco hectares e agora tem trezentos... existe gente nestas condições, mas estas histórias não ouvimos na nossa Comunicação Social. A história do enfermeiro que era contínuo, que foi estudar e cresceu, ou do médico que era um engraxador... estas histórias nós precisamos de contar. Não pode ser todos os dias só os líderes. Trazer aquele professor que não se balda, que está na escola todos os dias, que até é elogiado pelos pais... estes não estão na imprensa. Mas se o professor engravidar a aluna, toda a imprensa dá destaque. É esta visão em relação ao mérito que precisamos de alterar. Temos de deixar de ser este povo só preocupado em falar das coisas más e passar a premiar também. Como é que um Elias dyaKimuezo nunca foi reconhecido? Faz algum sentido que uma Luísa Fançony, o Reginaldo Silva, que são figuras da nossa sociedade, que têm mérito,fizeram o percurso de gerações em gerações... Não temos de ficar a espera que eles morram. devemos ter a capacidade de fazer homenagens às pessoas, reconhecer o seu trabalho.

 

A música é uma outra paixão sua. Foi um dos defensores da Rádio Cultura, quando esta substituiu  a FM Stéreo, a rádio musical na altura...

E olha como é a história... Sempre fui defensor da Rádio Cultura e a primeira coisa que ela fez foi acabar com o meu programa risos. É verdade. A primeira medida da Rádio Cultura Angola foi acabar com o programa "Raízes”. Eu não entendo. Era um programa de educação musical, nós somos africanos. Agora existem novos projectos, mas não espero voltar a fazer programas. Continuo com os meus discos de música africana, posso fazer edições especiais. Continuo a pôr música para os meus amigos  em casa, aliás eu faço um tipo de almoço que se chama "Funge com Bona”, onde o ponto de partida é a música africana. Portanto. o bichinho da música continua aceso.

 

Sempre adepto do Progresso?

Graças a Deus sou adepto do Progresso. Mesmo descendo de divisão continuo do Progresso Associação do Sambizanga, meu clube favorito.

 

Há tempos manifestou preocupação com o fim dos clubes populares... 

Sim, as dificuldades financeiras estão  a fazer desaparecer as equipas populares do país, e em particular de Luanda. Quando tu vês uma TAAG, Progresso, Vitória do Sambizanga e outras equipas a desaparecerem... e é um processo que não é novo. Já começou com o Independente do Rangel, Edel e aqueles grupos antigos. Ou seja, há uma crise no nosso desporto e se não tivermos capacidade para resolver, as equipas vão desaparecendo. É o que está a acontecer no Girabola. Agora é o Sporting de Cabinda, amanhã um outro clube qualquer. É preciso ter uma discussão, no meu ponto de vista, sobre o modelo de Girabola que temos. Este em que todos jogam contra todos e andam de avião foi  pensado para gente rica, ou então as empresas e o Estado vão ter que sustentar, de outro modo é difícil. Vejo o Girabola na perspectiva regional. Este modelo actual é muito caro e tenho dúvidas que possamos sustentar isto no futuro. Até porque a própria sociedade vai começar a reclamar, porque o Governo de Cabinda vai dar dinheiro para o futebol em vez de fazer escola, hospitais... e esta discussão, mais dia menos dia, vamos ter que ter. O futebol é fundamental mas há outras prioridades.

 

E agora a ligação com o mundo artístico, a cultura, outra sua paixão...

É outro problema estratégico do Estado, que fez uma Lei do Mecenato em que meteu lá tudo. E esta lei para funcionar realmente para a cultura, estou a falar da cultura e não da música, é preciso criar segmentos direccionados. Doutro modo como é que fica? Vai para o futebol, vai para a música, depois não há mecenato para os livros, para as artes plásticas, o escultor então... É preciso que o Estado crie algumas ferramentas para atingir as diferentes modalidades da cultura, sobretudo, e não ficar só na música. E mesmo a música já está com alguma dificuldade de patrocínio, mas é mais fácil ainda do que para livros, que é muito difícil.

PRÉ-PUBLICAÇÃO
"Diário de Amores e Mentiras”

Ismael Mateus |*

"Olhei para o prédio e, felizmente, este tinha número. Pintado a óleo preto, estava o número 31. Este é o prédio. As indicações e o número confirmavam-no. Era um prédio de cinco andares, construído mesmo à Cidadela Desportiva. A Dorita tinha-me dito que, por conta da visita do Papa, há exactamente um ano, todos os prédios de Luanda tinham sido pintados. Não era o caso. Este conservava ainda restos da pintura original. Do verde vivo da fotografia restava apenas uma imagem deslavada e tomada pelo sol. Na parte lateral direita lá estava o desenho de uma macieira, que lhe dava o nome: Prédio da Macieira. As persianas de estores também tinham praticamente desaparecido. Dei-me ao trabalho de contá-las: Não havia um único andar em que os quatro apartamentos conservassem a versão original, substituídos, na maior parte deles, por janelas em caixilharia de alumínio e vidros fumados. Os antigos estores também tinham desaparecido. Esteticamente, a fachada central parecia-se com uma pintura carnavalesca, em que os estores originais mal cuidados e sujos se misturavam com essas janelas brancas de caixilharia de alumínio e ainda com duas "prendas” em cimento. No cimo, segundo a planta e as fotografias em minha posse, havia um vistoso terraço. Agora, não há nada disso. Visto de baixo para cima, de um lado o terraço foi transformado num conjunto de anexos, e do outro, numa espécie de sala multiusos usada para reuniões dos moradores e pequenas festas, ou ainda, durante a semana, para os cultos bidiários de uma seita ilegal denominada "Fecunda Oração”. Como nem todos os condóminos se predispunham a pagar a sua parte, e atendendo a que o vizinho do 2º andar F era um dos pastores, a comissão de moradores decidiu rentabilizar o terraço. Deste modo, seria possível pagar os salários dos vigilantes, garantir a limpeza de escadas e comprar lâmpadas. Apesar do barulho das danças e dos cânticos, tanto de manhã como à noite, havia entre os moradores um pacto de não reclamação. Era o preço por não pretenderem pagar a sua quota do condomínio. Todos os dias a partir das 6 horas ecoavam incómodos sons de batuque acompanhados de uma dança cadenciada com o compasso do bater dos pés no chão. Às 19 horas repetia-se a dose.

Depois destes dias de vigia do exterior, resolvi entrar. O vigilante não estava à porta e nada parecia indicar que tivesse estado nos últimos anos. O elevador não funcionava e, aparentemente, era uma espécie de contentor alternativo de lixo. As escadas estavam às escuras e, aqui e ali, havia poças de água e pedaços de lixo. Nada que me surpreendesse. Dorita tinha descrito Luanda como uma cidade de prédios sem elevadores e lixo por todos os cantos. Percorri os cinco andares que deveriam ser contados como dez. Os entrepisos, tal como as casas de lixo e as casas de manutenção dos elevadores, foram transformados em improvisados "apartamentos”. A sua construção era ridiculamente desajeitada, a tal ponto que pareciam propositadamente feitas para desafiar as teorias de estética nas obras de construção civil. Apenas o entrepiso acima do primeiro andar estava rebocado e pintado.

Ao olhar para o prédio, fraquejavam-me as forças e a coragem perante tantos e tantos problemas por resolver. Será que valeria a pena lutar por este prédio? Com dinheiro? Dinheiro, na verdade não seria problema. O rendimento anual da minha família era de mais de cem mil euros em salários e prémios de produção e poupanças de quase um milhão de euros. Tendo em conta que 50% disso seria partilhado pela esposa e pelos três filhos, o normal seria que uns bons milhares de euros me coubessem, sem falar de outros bens. E digo seria porque Rosalinda, a mulher de meu pai queria a todo o custo afastar-me da lista de herdeiros das fábricas. Continuo a considerá-la como mãe, como sempre fiz, apesar dos últimos acontecimentos. Estávamos a resolver um diferendo familiar em tribunal, o que obrigava a que todos os bens em disputa estivessem congelados até que o processo transitasse em julgado.  (...)”

 

*Excerto. O romance de Ismael Mateus será lançado na próxima sexta-feira


Perfil

Ismael Mateus  nasceu em Luanda aos 6 de Julho de 1963. É membro do Sindicato de Jornalistas, de que é fundador, e da União dos Escritores Angolanos. Jornalista desde 1981, tem publicados textos de opinião desde 1985, inicialmente na Rádio Nacional de Angola, sob os títulos  genéricos "Dia a Dia na Cidade” e "Bué de Bocas”, e depois na  LAC

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