Cultura

“Escritaria” homenageia Pepetela pelo contributo à cultura nacional

Arão Martins / Benguela

Jornalista

A primeira edição da “Escritaria”, um evento que visa internacionalizar as homenagens a obra de Artur Carlos Maurício Pestana dos Santos “Pepetela” foi, segunda-feira, aberta, no Instituto Superior Politécnico Jean Piaget, na cidade de Benguela, na presença do homenageado.

24/01/2023  Última atualização 11H22
Escritor inaugurou o projecto que vai reanimar a divulgação das suas obras pelo mundo. © Fotografia por: Arão Martins | Edições Novembro – Benguela
A iniciativa do Instituto Superior Politécnico Jean Piaget de Benguela e da Câmara Municipal de Penafiel, com o apoio da empresa Tendências Lda, estando prevista a sua passagem pelas províncias de Luanda e Huíla.

Na ocasião, a vice-governadora provincial para área Política, Social e Económica de Benguela, Lídia Amaro, exaltou que a obra literária de Pepetela constituem uma referência para a velha, nova e futuras gerações, pois foram escritas na perspectiva do passado, presente e futuro, razão pela qual, são estudadas em Universidades nacionais e internacionais.

Discursando na cerimónia de abertura da primeira edição da "Escritaria”, um evento que tem como objectivo internacionalizar e homenagear a obra de Pepetela, Lidia Amaro afirmou ser sempre uma honra falar de um filho de Benguela, que como outros elevou o nome de Angola para outras latitudes ao conquistar o prémio "Camões”.

A governante frisou que Pepetela. de nome próprio Artur Carlos Maurício Pestana dos Santos, é uma referência a nível da literatura angolana e dos Países Africanos de Língua Oficial Portuguesa (PALOP), no que ao género narrativo diz respeito.

A sua obra literária, disse Lídia Amaro, é contextualizada à história do povo angolano, desde a luta contra o colonialismo, a Independência Nacional, a paz e a consolidação da democracia em Angola.

"Sentimo-nos honrados em acolher a Escritaria de Pepetela, que com certeza, irá contribuir para os académicos, homens de cultura e não só, estudarem e promoverem a literatura e a cultura nacional”, disse.

Esta actividade, reconheceu, vem ajudar a valorizar o que é "nosso”, em termos culturais e literários, razão pela qual apelou a participação de todos e que tirem o melhor proveito, por forma a que os objectivos a que se propõem sejam alcançados.

Partilha da homenagem feita em Portugal

O presidente da Câmara de Penafiel, Antonino de Sousa, esclareceu que a "Escritaria” é a partilha de uma homenagem feita na cidade de Penafiel, Norte de Portugal, em 2018, ao "Grande Pepetela”.

"Estamos aqui para partilhar um pouco dessa homenagem, porque a cultura pode ser muito mais do que apenas cultura. Pode ser um factor de aproximação de povos, desenvolvimento económico e de apoio a melhoria da qualidade de vida das comunidades”, disse.

Antonino de Sousa disse que desde que se começou com o "Escritaria” em Penafiel, já lá vão 15 anos. "Realizamos no ano passado a 15ª edição e ao longo destas 15 edições foram os maiores nomes da nossa literatura em português que por aí passaram”.

Em 2018, lembrou, foi a vez de Pepetela, que encheu toda cidade de Penafiel com tudo aquilo que se refere à sua vida e obra. O evento, explicou, aconteceu com as mais diversas manifestações artísticas que encheram as ruas e avenidas da cidade.

Fruto das circunstâncias que há em Benguela, explicou, permitiu que em conjunto se organizasse esta partilha nesta província, tendo justificado que se entendeu que faz sentido que os vizinhos, amigos, familiares e aqueles que gostam, querem e conhecem mais de perto Pepetela possam também conhecer esta homenagem que lhe foi feita fora de portas.

"Estamos aqui para mostrar um pouco daquilo que aconteceu em 2018 em Penafiel, numa primeira abordagem, a internacionalização do festival literário ‘Escritaria’ que queremos que continue e possa passar por outros países de língua portuguesa, mostrando como é tão importante a nossa língua comum e como ela pode ser um factor de aproximação de todos nós”, disse, enaltecendo o escritor Pepetela que se disponibilizou a estar presente, naquilo que considerou como grande atitude e de simplicidade, proximidade que tanto encanta.

Movimento de divulgação de artes escrita

O presidente da Associação do Instituto Piaget de Angola (AIPA), Mário Rui Ferreira, disse que a sua instituição em Angola, em parceria com a Câmara de Penafiel de Portugal e a Empresa Tendências entendeu, este ano, aderir a iniciativa daquela cidade portuguesa e trazer para Angola, em especial para Benguela, a "Escritaria”, que é tão só o movimento de divulgação de artes escrita, de autores de língua portuguesa.

Depois da primeira homenagem ao poeta benguelense Pepetela, lembrou, em 2017, com a inauguração do Jardim dos Poetas, onde colocou-se o seu busto visitado, diariamente, por centenas de estudantes e não só, chegou-se a conclusão de que uma das obras de Pepetela era uma prosa poética.

"Aproveitamos em 2003, para mostrar a obra e vida do autor angolano em destaque no festival literário e como o próprio diz: a transferência de conhecimentos, ideias e emoções através dos livros, devia ser eterna, mas está em risco”, citou, salientando que a "Escritaria” é um encontro da lusofonia e na sua primeira edição em Benguela pretende dar um especial enfoque à lusofonia, ao homenagear, este ano, o escritor angolano Pepetela.

Evento decorre até domingo

O Instituto Superior Politécnico Jean Peaget de Benguela está transformado, desde ontem e até domingo, na casa de Pepetela, que nasceu nas terras das Acácias Rubras, em 1941, e que apresenta uma vasta obra literária.

Uma parte significativa da sua obra só foi lançada depois do exílio, destacando livros como "Muana Puó”, "As Aventuras de Ngunga”, "Geração de Utopia”, "Parábola do Cágado Velho”, "A Gloriosa Família”, entre outras.

A atribuição do Prémio  literário "Camões”, em 1997, viria a confirmar a importância da sua obra e o destaque que ocupa na literatura lusófona.

"Nesta primeira edição da ‘Escritária’, houve uma verdadeira transformação do campus universitário em torno do escritor homenageado e da sua obra, que estará a contaminar exposições de arte de rua, tais como teatro, música, entre outras modalidades, tornando impossível a qualquer estudante ou visitante não tropeçar no autor  carne e osso, ou na sua escrita”, enfatizou Mário Rui Ferreira, acrescentando que para "os peangestino e os benguelenses é a vontade que a nossa instituição tem em cada vez mais levar a todos os cantos o gosto pela leitura”, explicou.

No passado, referiu, colocou-se em prática a Biblioteca Itinerante do Candengue, em parceria com o Governo Provincial de Benguela, a Fundação BAI e também a empresa Tendências, que é o autocarro que se encontra atrás do Escritor Pepetela.

"A Biblioteca tem servido para estarmos presentes em quase todas escolas do I e II Ciclo da província de Benguela, onde no decorrer do ano 2022 milhares de crianças e jovens estiveram, com os nossos estudantes, em especial os da nossa licenciatura em línguas portuguesa e nacionais, tem sido um êxito muito grande”, reconheceu.

Agradecimento de "Pepetela”

Visivelmente emocionado e alegre, o escritor Pepetela agradeceu, ontem, a continuação da homenagem feita em Penafiel, Portugal, na província de Benguela, sua terra natal.

"Agradecer profundamente essa continuação de homenagem que me foi feita em Penafiel, e, particularmente, felicitar esta ideia. Não sei quem foi o cervo da internacionalização da ‘Escritaria’, e acredito que este primeiro passo da internacionalização é um passo certo e um passo importante”.

Lembrou que a homenagem feita em Portugal é e foi realmente uma coisa diferente. "Ver toda uma cidade virada para o escritor naquela condição foi emocionante. Eu nunca vi tantas fotografias minhas e depois aparecer um grupo que declama um texto meu”, disse.

As coisas, disse, vão acontecendo constantemente. "Temos tido reportagens, visitas e trabalhos nas escolas muito grandes, onde os estudantes estão muito empenhados, mostrando o reconhecimento da obra. Com isso, uma pessoa fica praticamente pequenina. Ainda mais pequenino fica ai naquela cidade onde todos os olhos ficam virados para uma única pessoa”, exteriorizou o escritor.

Adiantou que algum dia há de se fazer o balanço se foi positivo ou não, se errou-se ou não ao dizer isto. Pepetala acredita que é o primeiro passo da internacionalização de qualquer coisa que é diferente.

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