Entrevista

Entrevista

“Escrevo para despertar almas da cegueira colectiva”

Manuel Albano

Jornalista

Vencedor da edição 2020 do Prémio Literário António Jacinto, com o livro de contos “Mulher Infinita”, Lourenço Mussango explora as várias vertentes que simbolizam a “ponte sociocultural” entre o passado, o presente e o futuro. Dos afectos às emoções e às estórias de nacionalistas (“heróis” ou não), o livro “Mulher Infinita” vai, seguramente, despertar nos leitores um conjunto de reflexões sobre a realidade em que estamos inseridos. De acordo com o júri da edição deste ano do Prémio António Jacinto, presidido por Joaquim Martinho, a obra vencedora “apresenta um texto cujo pendor imaginativo e processo criativo recriam, com subtileza, temas e cenários do quotidiano aprendidos pelo autor implícito, com laivos intertextuais e tendo a mulher no cerne da narrativa”. Eis a conversa que o Jornal de Angola manteve com o escritor premiado

08/11/2020  Última atualização 16H16
© Fotografia por: DR
Segundo o júri do Prémio António Jacinto o seu livro tem um pendor imaginativo e recria, com subtileza, temas e cenários do quotidiano. Que outras particularidades podemos encontrar no seu livro "Mulher Infinita”?

Como realça Adriano Mixinge no prefácio da obra, "Mulher Infinita” é um livro "surpreendente, atrevido, crítico e elegante”. Contém oito contos e, apesar de abordar assuntos como biodiversidade, enriquecimento ilícito, amor, juventude, velhice e identidade, centra-se nos matizes do universo feminino. É um livro sobre mulheres resilientes e insubmissas que, apesar das dificuldades diárias, se reinventam no espaço e no tempo. É sobre mulheres que não se deixam alienar nessa sociedade patriarcal. As mulheres deste livro não se inibem, vivem a sua liberdade sem receios. "Mulher Infinita” é um livro aberto ao futuro. É literatura angolana de qualquer lugar.

A atribuição de um título nem sempre é uma tarefa fácil...

Sabe-se que um título joga um papel imprescindível na captura da atenção do potencial leitor. O título é o verdadeiro chamariz, e de forma tácita revela o que se pode encontrar na realidade interna de um livro, portanto nunca é uma tarefa fácil elegê-lo. No caso do título "Mulher Infinita”, ele surge da temática central da obra e, efectivamente, do diálogo implícito entre os contos.

A "Mulher Infinita” é uma realidade transportada para o conto? 

Embora o ponto de partida da arte seja quase sempre a realidade, o conto que dá título ao livro é produto integral da minha imaginação. A narrativa ilustra um diálogo geracional e destaca o facto de que podemos compreender o presente através dos feitos que gerações passadas lograram conseguir. O conto reflecte principalmente a mágica de um amor inolvidável, a devoção de um homem por uma mulher que acredita se perpectuar no espaço e no tempo.
 
A figura da mulher sempre esteve muito ligada ao imaginário dos escritores. Há alguma razão especial para que uma mulher esteja no centro das atenções, no livro?

Sim, há uma razão especial para isso. Eu queria escrever com os afectos que dão corda à vida, e ver o mundo a partir de uma visão mais ampla e menos objectiva. O olhar feminino muitas vezes alcança detalhes que passam despercebidos aos homens. A possibilidade de usar lentes femininas ampliou o meu senso de beleza, clareou as minhas divagações filosóficas e tornou o processo de escrita do livro "Mulher Infinita” numa experiência intensa.
 
O diálogo permanente entre duas personagens de gerações distintas é uma forma de trazer  à reflexão a figura ancestral?

O diálogo entre Zé Gordo e João, personagens do conto que dá título ao livro, surge também para reiterar a importância da tradição oral. Acreditamos que a passagem de testemunho por essa via é indispensável para a construção do pensamento e da identidade das novas gerações.

 A ideia de escrever o livro foi meramente recreativa ou na perspectiva do prémio que acabou por ganhar?

Não escrevo para prémios e nem olho para a literatura como uma actividade meramente recreativa, acredito que para se ser um escritor não basta ter apenas um senso criativo apurado. É preciso que se vislumbre no que escrevemos, traços daquilo  em que acreditamos e defendemos. Uso a literatura para filosofar quem sou e questionar os fenómenos da sociedade que me gerou. Mais do que cultuar a beleza, trago nesta obra uma narrativa comprometida com as coisas e causas do povo. Escrevi este livro para denunciar e despertar almas do torpor causado pela cegueira colectiva.

Quais são as suas referências na literatura angolana e internacional? Porquê?

Pepetela, Adriano Mixinge e José Eduardo Agualusa são as minhas principais referências nacionais. No panorama da literatura internacional nutro grande admiração pela obra dos escritores Gabriel García Márquez, Milan Kundera, Mario Vargas Llosa e Jorge Amado. Porque me identifico com a visão estética que eles apresentam.

Esse é o primeiro de muitos outros livros?

Sim, claro. Tenho um poemário engavetado e actualmente estou a trabalhar num romance.

Como vê a inserção de jovens no universo literário, fundamentalmente em Luanda?

O exercício de criação artística requer uma leitura profunda do manancial literário que outras gerações nos legaram, e hoje há cada vez mais jovens a lerem o passado para melhor escreverem. E, particularmente em Luanda, é notório o surgimento de noviços escritores que se vão afirmando. O que de certa forma enriquece a Instituição Literatura Angolana. O Movimento Litteragris, por exemplo, trabalha na formação e capacitação dos seus membros, tendo desde a sua fundação (17/10/2015) conquistado cinco notáveis prémios: três edições do prémio literário António Jacinto, 1.ª edição do FEJETEC e o prémio de poesia no feminino Um Bouquet Rosas para Ti.


Incentivos para novos autores

O Instituto Nacional das Indústrias Culturais e Criativas (INICC) anuncia sempre no primeiro trimestre de cada ano o período de recepção de obras concorrentes ao Prémio Literário António Jacinto. É um prémio de revelação, para autores angolanos nunca antes publicados. 

O vencedor recebe como prémio, em kwanzas, o equivalente a cinco mil dólares, um diploma e a publicação da obra.  
O Prémio Literário António Jacinto visa incentivar o surgimento de novos autores e novas obras literárias de autores angolanos. O prémio, que conta com o patrocínio exclusivo do Banco de Poupança e Crédito (BPC) é uma realização do Instituto Nacional das Indústrias Culturais e Criativas (INICC). Com periodicidade anual, é uma homenagem ao poeta António Jacinto do Amaral Martins, um dos grandes vultos das Letras e da Cultura Nacional. Ao longo da existência do concurso foram atribuídos 19 prémios (12 em poesia e seis em prosa), oito menções honrosas (seis em poesia e duas em prosa).


Perfil

Nome
Lourenço Catari Mussango

Data de nascimento
12 de Agosto de 1987

Naturalidade
Cazenga, em Luanda

Formação
Comunicação Social pela Faculdade de Ciências Sociais da Universidade Agostinho Neto

Ocupação
Jornalista

 Cargos exercidos Coordenador e editor-chefe do magazine cultural Neovibe

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