Entrevista

Escrever e falar kimbundu em Luanda

Isaquiel Cori

Jornalista

Linguista autodidacta, Mário Pereira “Kakalunga” é contabilista de profissão. Aos 66 anos de vida, dedica-se quase inteiramente ao que mais gosta de fazer: escrever poemas em kimbundu. Mas não só poemas. O escritor tem uma produção de vinte cadernos compostos por verbos em kimbundo, conjugados nos diferentes tempos e modos. Escreveu ainda uma espécie de “manual de kimbundu sem mestre”, a que chamou “Elementos de Kimbundu”. Tudo isso está por publicar. O autor aguarda por editores interessados. É com Kakalunga que conversamos.

27/02/2022  Última atualização 07H55
Mário Pereira “Kakalunga” © Fotografia por: DR

Donde é que partiu o seu interesse pelo kimbundu? É nativo desta língua?

Os meus avôs, bisavôs e trisavôs maternos eram da língua kimbundu. Os meus tios e a minha mãe, inclusive. Eram todos da região de Luanda. Eu nasci no Rangel. Os meus avós eram camponeses, tinham as lavras na actual zona da Estalagem. O meu avô chamava-se Joaquim Makongo.

 

Makongo significa caçador?

Caçador é Mukongo. Makongo quer dizer crédito ou dívida. Num outro entendimento Makongo teria a ver com Kukongo, Kukongola e Kukongoloka, que quer dizer união. Por exemplo, há um historiador angolano que diz que o Reino do Kongo foi designado "Kongo” pela união de catorze tribos, algumas das quais falavam kimbundu. Daí teria vindo então "Kongo”, no sentido de "União”.

 

Voltando ao início do seu interesse pelo kimbundu...

A minha mãe era a filha mais velha. Tradicional e culturalmente, por norma, os mais velhos é que recebem os mais novos. Irmãos e primos da minha mãe, quando se juntavam em casa da minha mãe, falavam kimbundu.  O kimbundo e o português são minhas línguas maternas. O meu pai era português. Em minha casa, quando nasci falava-se kimbundo e português. A língua predominante era o kimbundu, o português falava-se mais quando o meu pai estivesse presente. Toda a gente em redor  onde eu nasci, as conversas, as saudações, eram em kimbundu.

 

Começa a escrever poemas e outros textos, em kimbundu, ainda na adolescência?

A minha avó materna só falava com os netos em kimbundo. E eu era o neto mais velho. Ela falava comigo em kimbundu e as minhas respostas eram em português. Nós, as crianças, não falávamos kimbundu, ouvíamos é os mais velhos falarem kimbundu.

 

Por que é que isso acontecia?

Mais tarde nos fomos apercebendo dos processos de assimiliação e de discriminação. O sistema político colonial, então vigente em Angola, não tinha interesse em que nós falássemos as nossas línguas. O processo de assimilação era terrível para os nativos. Para se ter o bilhete de identidade um oficial vinha a casa para ver se tinha mesa, cadeiras... se a família era civilizada... e o domínio da língua portuguesa era um dos elementos que definiam se as pessoas eram civilizadas ou não. Isso criava complexos nos nativos quanto aos filhos falarem a língua dos pais.

 

Regressando à pergunta anterior. Quando é que começa a escrever em kimbundu?

Eu comecei a trabalhar muito cedo. Havia um indivíduo chamado Diogo Sebastião dos Santos,  das lides culturais luandenses, que era meu amigo. Uma vez esse meu amigo disse qualquer coisa que eu anotei em kimbundu. Ele ficou muito admirado. Era qualquer coisa relativa à música. Mais tarde, em 1989, por aí, o meu filho vai estudar para o Instituto Médio de Saúde, onde também davam kimbundu. Entretanto uns anos antes eu já tinha começado um processo de escrever verbos em kimbundu, do presente do indicativo até ao gerúndio, nas formas afirmativa e negativa. Foi então que disponibilizei os meus cadernos com esses apontamentos ao meu filho. Fiz aí vinte volumes, cada com vinte verbos, com as suas conjugações em todos os tempos e modos, e sempre com a respectiva tradução em português. São volumes encadernados.

 

Por que não publica em livro esses cadernos?

O que tenho visto, quanto à publicação de livros, é que alguém se interessa por publicar ou o autor é que publica...

 

...Ou o autor submete o seu original a uma editora para publicação, com custos partilhados ou não...

Um amigo meu, o escritor Luís Rosa Lopes, volta e meia, interessa-se por essas coisas das línguas nacionais. Um dia ele sugeriu que fosse à Cultura e mostrasse os meus cadernos. Na altura eu não tinha outro interesse senão escrever verbos. Levei o décimo quarto volume e mostrei-o ao então vice-ministro Virgílio Coelho; ele fez algumas sugestões e mandou chamar o José Pedro, o actual director do Instituto de Línguas Nacionais, com o qual, a partir de então passei a trocar impressões. O Luís Rosa Lopes, meio a brincar, pediu-me para escrever uns versos em kimbundu. Disse-lhe: "nunca escrevi poemas em português, pedes-me para escrever um poema em kimbundu?” Ele queria um poema em kimbundo com rimas! Nessa de ele pedir que escrevesse mais qualquer coisa fui escrevendo pronomes em kimbundu. Hoje tenho um volume de cerca de três mil páginas daquilo que eu designo por "kimbundu sem mestre”, mas cujo título é "Elementos de kimbundu”.

Por que razão este livro ainda não está publicado?

O José Pedro tem este material há vários anos. Ele chegou a dizer-me "olha, o seu livro vai ser publicado na próxima feira do Dondo”, naquela altura. Depois não havia comunicação. Eu pensava, "se calhar, na perspectiva dele, o trabalho não está bem”. Entretanto, volta e meia, noto que as pessoas "desconfiam” que não seja eu a fazer este trabalho. Eu entendo isso, existem, de facto, as cábulas. Este mundo está cheio de cábulas.

 

A desconfiança que diz notar nalgumas pessoas terá a ver com o facto de não ter formação, formal, no domínio da línguística?

Talvez. E isso tem consequências. Eu começo a desconfiar dessas pessoas e mantenho-me afastado, fico a olhá-las à distância. Mas sem nunca deixar de trabalhar. Há tempos um escritor disse-me: "O amigo deve ter outros livros”. Isso porquê? Porque eu muitas vezes utilizo palavras que não estão nos dicionários. São evoluções dos termos que já existem. Por exemplo, um dicionário de português não comporta todas as palavras que existem nesta língua. O nosso ensino do português está altamente deficitário, as pessoas raramente utilizam os verbos no conjuntivo. É dificil encontrar alguém que diga "para que eu seja” isto ou aquilo” As pessoas dizem "eu vou ser” isto ou aquilo.

O trabalho que faço de escrever os verbos em kimbundu, do presente do indicativo ao gerúndio, resulta da influência positiva que tivemos no ensino primário, no tempo colonial. Na segunda, terceira e quarta classes, uma das tarefas de casa que os professores davam era conjugar os verbos, do presente do indicativo ao gerúndio. É nesta perspectiva que eu desenvolvi os verbos em kimbundu. Este conhecimento resulta também da vivência com os meus avós, que falavam kimbundu. Eles utilizavam também as formas conjuntivas do kimbundu.

 

Actualmente, além de escrever, tem interlocutores com os quais conversa oralmente em kimbundu?

Aos meus 17 anos, quando a minha mãe morreu, findou uma grande escola. Essa escola era a minha casa. Com a morte da minha mãe houve um desmoronar do edifício. Claro, ficaram os salvados, aquilo que já estava na memória. Tenho aqui, próximo de casa, umas amigas, de Malanje, que vendem ginguba, com quem só falo kimbundu.

 

Há quem diga que do conjunto das línguas nacionais, o kimbundu é a que estará em maior risco de desaparecer, por conta da forte influência urbana, sobretudo em Luanda. É também desta opinião?

A cidade de Luanda sofreu muito os efeitos da colonização. Havia um outro nível de contactos e a discriminação e a imposição colonial eram maiores. Mas hoje se formos a zonas afastadas do centro encontraremos os sistemas linguísticos a funcionar. Por exemplo aqui no Benfica, onde moro, vive muita gente do Bié, do Huambo e também de Benguela. Eles falam na sua língua, que é o umbundu.

 

Mas a pergunta era sobre a dinâmica do kimbundu...

Aqui em Luanda há um fenómeno que vem  mesmo da colonização. Pessoas que sabem falar kimbundu dizem que não falam... No meu núcleo familiar todos sabem falar kimbundu.

 

Há um certo revivalismo, talvez fruto do confinamento imposto pela Covid, em relação à culinária, à música tradicional e a outros aspectos culturais antigos, mas esse revivalismo raramente se manifesta, em Luanda, no uso do kimbundu, até mesmo nos convívios de quintal...

Quando paro junto das senhoras que vendem bombó com ginguba e cumprimento "Uazekele!”, a recepção é mais calorosa, elas ficam contentes. E quando a polícia no trânsito me manda parar eu falo kimbundu. E noto uma reacção reconfortante, sentem-se bem, têm outra emoção. E até me deixam logo seguir. Às vezes até eles não falam kimbundu, mas percebem. No outro dia na via rápida, eu ia para o Kikuxi, mandou-me parar um polícia. Ele "faz favor, os documentos”... E eu "então, uazekele ku bata? Ó tuana kuebe? Ó muatu ku bata?”... Enquanto eu tirava os documentos ele só ficava a olhar para mim. Disse-lhe: "desculpe, senhor agente, eu estava a falar-lhe em kimbundu, não sei se percebeu...” Ele disse "olha, eu não sou kimbundu, sou kioko, mas percebi tudo o que o senhor disse. Faz favor, pode seguir”.

 

Faz uso do kimbundu para se livrar de uma possível multa?

Não, não. É expontâneo. Eu digo aos meus filhos que sempre devem respeitar o polícia porque ele é agente da ordem.

 

Qual é o cantor que na sua opinião melhor faz uso do kimbundu nas suas canções?

Gosto de ouvir o Lulas da Paixão, o Mamukueno, o Avôzinho, o Óscar Neves... O Elias dyá Kimuezo no seu kimbundu tem um tom senhorial...

 

Senhorial em que sentido? De nobreza, aristocrático?

Aquele kimbundu puro, que dá gosto ouvir, aquele kimbundu dos primórdios, e que raras pessoas chegam lá, do ponto de vista da pronúncia. O que quer dizer que ele nasceu "ali”, a sua raiz estava "ali”, conviveu muito "ali”, ouviu muito "dali”, falou muito com "eles”... O meu irmão mais novo, que tem 64 anos, diz-me algumas vezes o seguinte: "tu tens sorte, eu nasci dois anos mais tarde. Aqueles dois anos de diferença foram fundamentais”. Isto porque eu era o filho mais velho, andava às costas das tias, todas a falarem kimbundu...

 

Poemas e provérbios de Kakalunga

1- OMUVU YU

(I)

Muvu yu weza kindala

Ni jihenda jya ukulu

Kuma ukulu hanji wezala

Mixima yavulu henda

Ingixinjika mukwenda

Benyaba ndu mu sanzala

Mwene ngaxisa mu tulu

Se kukijiya mwandala!

 

(II)

Muvu yu weza ni mwenyu

Wa kuvundisa malamba

Ni milongo ya kusanza

Mauhaxi mala mu ngongo

Matukambesa jimbongo

Jilembwesa kudisanza

Etu mwene ni makamba

Matulengesa kamwanyu!

 

(III)

Muvu yu weza wezala

Ni kulenguluka kwoso

Wixi weza mulundisa

Maka metu ma ukulu

Matukala hanji mu tulu

Matuzula, matuxisa

Sekwijiya ngo omusoso

Wa ngongo ya akwa sanzala!

 

1.- O PRESENTE ANO (Versão em português)

(I)

Este ano chegou há instantes

Com saudades do passado

Um passado ainda prenhe

De sentimentos d’amor

Que me impelem a caminhar

Daqui até à sanzala

Lá onde deixei o peito

Se é o que quereis saber!

 

(II)

Este ano veio com vida

Para extinguir as desgraças

Com remédio pra curar

Enfermidades do mundo

Que nos retiram riqueza

Impedindo que se curem

Nós mesmos; nossos amigos

Que lentamente se afastam!

 

(III)

Este ano veio pleno

De bastante ligeireza

Dizendo vir sepultar

Nossos problemas de então

Que no peito permanecem

Que nos despem; que nos deixam

Sem sequer saber da história

De quem sofre na sanzala!

 

2.- MU KIZUWA KYA MAZA

(I)

Maza mwangiza kukina

Ni mesu masanguluka

Seku mwimbu seku kima

Kyakusanza okuxixima

Kwandala kungixinina

Kifwa mwene Kadya Pemba!

(II)

Maza mwangiza kwimbila

Mimbu ivudisa ohenda

Mu njila jyoso ji ngenda

Mu jinjila jya Sambila

Mwene mwadisanga mwenyu!

 

(III)

Maza mwangiza kufuta

Makongo mami ma ukulu

Mangixisa eme ngazulu

Seku menya ma matuta

Masengulukisa ngongo!

2.- ONTEM (versão em português)

(I)

Ontem apeteceu-me dançar

Com alegria nos olhos

Sem cântico, sem nada

Para a cura da amargura

Que augura sufocar-me

Como se fora o demónio!



(II)

Ontem apeteceu-me cantar

Canto avultando a saudade

Nos caminhos por que ando;

Nas veredas do Sambila

Lá onde a vida se encontra!

 

(III)

Apeteceu-me ontem pagar

Minhas dívidas antigas

Que me deixaram molhado

Mesmo n’ausência de chuva

Que faz desgraçar o mundo!

 

3 - YOSO MWENE YALUNGIWA (20.09.2021)

(I)

Oilungilu ya kuzola

Iwandejesa mixima

Sekutalela ku dima

Seku mutu kudikola

Ha kuzola kwazukama

Ni dizumba dyatouwala;

Kihanji kyasakalala

Mu dixisa kyaxikama!

 

(II)

Yoso mwene yalungiwa

Okukambela kwa kudya

Ni ukambelu wa mvula

Oukambelu wa nzala

Ni uvudilu wa kudya

Ingixisa ngakodiwa

Ki nguzu ingikwatekesa!

 

3 - TUDO ESTÁ RELACIONADO (Versão em português)

(I)

As relações d’amor

Enredam sentimentos

Sem olharem para trás;

Sem o clamor d’alguém

Se o amor está a seu lado

Com odor adocicado;

Com apressada ansiedade

Já na esteira assentada!

 

(II)

Tudo está relacionado:

A falta de alimento

Com a carência de chuva;

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