Cultura

“Era um artista emprestado à política”

O poeta Lopito Feijó foi colega de Jacinto Tchipa na bancada parlamentar do MPLA e não deixou de se expressar a respeito do também colega das artes, com o qual tanto privou.

07/11/2021  Última atualização 09H15
Lopito Feijó © Fotografia por: DR
"Jacinto Tchipa foi sem sombras para dúvidas um bom homem e quando cá esteve combateu vários bons combates, sempre em prol das liberdades dos homens africanos e dos angolanos em particular. Sem medo de errar, considero-o mais um vitorioso combatente que por nós passou e deixa obra para uma eterna posterioridade.

Jacinto Tchipa foi um homem cujas propostas artísticas eram sempre inspiradas na realidade social, política, cultural e se quisermos até económica dos povos africanos, angolanos e do Sul em especial, pois era da alma deles que buscava os motivos de inspiração para a sua arte musical sempre facilitada até pelo facto de ele ter sido um exímio cultor da língua umbundo, um grande conhecedor da filosofia tradicional das suas gentes.

Durante vários anos o Tchipa esteve comigo, ou connosco, na Assembleia Nacional exercendo a função de deputado, representando os milhões de angolanos que nos tinham dado a responsabilidade de os representar no Parlamento. Devo também dizer que ele era um artista emprestado à política e ele tinha consciência disso, pois foi sempre um deputado politicamente muito comedido mas também muito atento aos acontecimentos da vida política nacional e internacional. Era um homem de poucas palavras, não se exaltava facilmente, temperamento muito apreciável de estimar, muito simples, muito humilde e acima de tudo muito respeitoso.

Jacinto Tchipa deixa um vazio incomensurável no domínio das artes, especialmente da arte musical angolana. Tenho uma marca muito profunda da nossa relação. Um destes dias apareceu com o poema meu "Angola Maior” e disse "meu irmão, fiz uma composição musical inspirada neste poema”.

Eu perguntei-lhe "você musicou o poema?” Ele disse não, apenas fiz uma música inspirada neste poema e passando algum tempo ele convidou-me a ir aos estúdios da Rádio Nacional, num dia em que ele estava a gravar com a Banda Maravilha. A meio da sessão ele disse "chamei-te para cá vires para que tu declamasses este poema a dada altura em que eu estivesse a cantar”.

A música era em umbundo, naturalmente, e eu surpreendido e feliz entrei no estúdio, e enquanto ele cantava eu declamava o poema em português. Ficou uma coisa muito linda mas apenas ouvi uma vez a tocar na rádio nacional, nunca mais ouvi, não sei dela. Um dia perguntei-lhe e ele disse "meu irmão  deixa estar, a música está guardada e um dia vai ser divulgada”. Até hoje não sei deste tema, mas anda por aí com certeza.”

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